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segunda-feira, 30 de junho de 2014

A Libélula da Asa Negra


Harold Atkins suspirou olhando o riacho de águas límpidas e geladas. Apesar de ser verão, não estava muito quente naquele vilarejo da Inglaterra medieval. A Peste Negra levara sua mulher e sua filha de cinco anos, e Harold suspirava por causa disso, sem vontade de continuar sua vida. Sentou-se à beira do pequeno riacho para pescar e tentar esquecê-las por um tempo.
Jogou o anzol e aguardou, tentando esvaziar sua mente. Era difícil. Agatha aparecia em suas lembranças, sorrindo, e sua pequena Elise, tão frágil, tão bela, tão doce... Em seus braços, brincando e gargalhando. E então a Peste as levou. Porque não o levou também? Porque ele nunca adoeceu? Não sabia.
Nenhum peixe estava animado para mordiscar sua isca. Mas Harold não estava preocupado, queria apenas se deixar levar, quando reparou em uma bela libélula.
Mas essa era esquisita. Harold percebeu que suas asas eram diferentes. Observou-a aproximar-se até que, estranhamente, pousou no dorso de sua mão direita. Ele não se mexeu, apenas olhou-a fascinado, pois suas asas, ao invés de serem transparentes como todas as outras, eram negras, mas não totalmente, veias vermelhas se espalhavam por elas em formações bizarras.
- Vou chamar você de Libélula, minha amiguinha. – E riu.
O inseto pareceu rir de volta e o encarou. Harold espantou-se e sacudiu sua mão, mas Libélula segurou-se nele e permaneceu encarando-o de forma assustadora. Com a mão esquerda Harold puxou-a pelo corpo alongado e jogou-a longe.
- Meu Deus nosso Senhor, que coisa mais estranha, deve ser coisa do demônio! – E fez o sinal da cruz. Olhou a sua volta e não a viu mais e voltou sua atenção aos peixes que agora pulavam agitados.
Harold Atkins logo começou a dormitar, pois a manhã era fresca com aromas silvestres e o barulho da água do riacho o ninava. Entrou naquela fase onde estamos quase dormindo e começamos a sonhar. Harold viu Agatha brincando na água com Elise, ambas às gargalhadas, pulando e cantando, e ele sorriu sozinho de olhos fechados.
Deu um pulo ao sentir a libélula de volta pousada em seu joelho direito, novamente o encarando de forma acintosa.
- Libélula, você voltou! O que quer de mim? Vá embora, demônio!
O inseto não se mexeu. Harold ficou apavorado, nunca tinha visto uma libélula de asas negras com filetes vermelhos, e ela insistia em ficar com ele, pousar nele. No entanto, Harold admirou sua beleza invulgar. Apertou os olhos e aproximou-se dela para olhar melhor e assombrou-se ao lembrar que aquelas veias vermelhas correspondiam exatamente aos rabiscos em dólmens que existiam perto de sua casa no vilarejo. Dólmens que ninguém sabia quem construíra, presumindo-se que foram os celtas que os levantaram séculos atrás.
 Logo em seguida Libélula voou na direção do vilarejo, mas parou no ar como a esperá-lo. Harold coçou a cabeça e fitou-a por instantes.
- O que você quer, amiguinha? Talvez você não seja do demônio, parece ser boazinha. O que você quer?
Libélula o circundou algumas vezes e novamente tomou o rumo do vilarejo, parando no ar e olhando para ele.
- Está bem, amiguinha. Você quer me levar de volta para casa, é isso? Certo, eu vou.
Fincou a vara de pescar na borda do riacho, levantou-se e a seguiu.
A libélula voou sobre a pequena trilha na floresta inglesa devagar, como a esperar Harold. Voou até o descampado onde estavam erguidos os dólmens.
Parou exatamente sobre uma pedra em formato de sepultura com desenhos iguais às de suas asas. Harold viu aquilo e arrepiou-se.
- Mas o que é tudo isso? Como pode uma libélula ter as asas pintadas como essa pedrona aí? Por Deus, o que é tudo isso?
Porém libélula pairava agitada sobre o dólmen, sem responder. Ziguezagueou por alguns instantes e depois pousou em uma protuberância no solo.
Harold ajoelhou-se e a observou. Arregalou os olhos ao ver que Libélula queria lhe dizer algo. Ele ia tocá-la quando ela voou e sua mão tocou o local onde ela pousara. Um barulho de pedras raspando assustou o inglês, que deu um salto para trás. O chão se abriu. Degraus se formaram indo em direção ao subsolo.
De pernas bambas Harold Atkins aproximou-se e olhou para o túnel escuro. Libélula entrou pelo buraco e sumiu na escuridão. Apesar de assustado, o inglês foi até sua casa, que estava próxima, pegou um archote e o acendeu, voltando ao local.
Tornou a olhar para o buraco, tentando decidir se descia ou não quando Libélula voltou, voou em círculos em torno dele e entrou novamente no buraco. Engolindo seco, Harold desceu a escada devagar; o local escuro e cheio de teias de aranha sendo iluminado por seu archote. Chegou ao final da escada dando em um corredor de paredes de pedra limosa, um local que cheirava a morte e era assustador. Mas Libélula se agitava à frente dele e Harold decidiu segui-la, enchendo-se de coragem, pois perdera tudo na vida e nada mais realmente lhe importava. Dessa forma, deixou sua curiosidade guiá-lo.
Contudo, o lugar era tétrico. As teias de aranha no teto e o chão cheio de ratos faziam-no estremecer, mas seguiu o inseto, parcamente iluminado pelo seu archote. Aprofundaram-se no subsolo até chegarem a uma câmara em formato circular com um túmulo no centro.
Libélula pousou sobre o túmulo, olhando um assustado Harold. Com seu archote ele aproximou-se e admirou os desenhos esculpidos sobre a tampa de pedra.
- Definitivamente isso não é celta. Nunca vi nada igual na vida...
Dando um pulo para trás, Harold Atkins viu Libélula tentando abrir a sepultura.
- Entendi, danadinha, você quer... Por Deus, você quer que eu abra essa coisa?
Harold teve a nítida impressão que o inseto sacudiu a cabeça positivamente. Abrir aquele túmulo? Que coisa mais absurda! Tudo aquilo devia ter um significado. Aquela libélula não viria até ele à toa. Seria ela uma emissária de Deus?
Decidiu abrir a sepultura. Encaixou o archote em uma fresta no chão e com as mãos empurrou a tampa pesada, com muito esforço, até que ela cedeu, e com mais esforço ainda, ele conseguiu empurrá-la até que caísse no chão, do outro lado, expondo seu conteúdo.
Harold Atkins ficou assombrado, e franziu as sobrancelhas. Libélula posou em seu ombro, como se observasse também o conteúdo da sepultura.
- Por Deus, que coisa mais intrigante, amiguinha.
Ele observou mais de perto. Tocou-a. Estava coberta de teias de aranha, mas parecia dormir serenamente.
- Quem será? É muito bonita. Extremamente bela.  E apesar de estar totalmente branca, não parece morta, parece apenas dormir serenamente...
A libélula posou nos lábios da moça deitada na sepultura. E depois foi até os lábios de Harold.
- Ei, pare, pare! O que é isso, amiguinha?
Mas a libélula repetiu o gesto. E mais uma vez. E outra.
- Espera, Libélula, deixe-me ver se entendi, você quer que eu a beije!?
Harold Atkins tinha vista muita coisa na vida, mas caiu de costas no chão de pedras sujas ao ver a cabeça do inseto mover-se positivamente.
Ele se recompôs e suspirou. Que coisa mais sem nexo. Porém, o que tinha a perder? Deu de ombros e beijou os lábios da mulher. Que abriu os olhos e o abraçou, puxando-o para dentro da sepultura e o beijo tornou-se sensual, com a língua da garota explorando a boca de Harold de forma a deixá-lo inebriado.
Quando ele se safou de seu abraço, caiu sentado junto ao túmulo. A garota livrou-se das teias de aranha e sentou-se. Seu rosto ficou corado, enquanto seus olhos cor de esmeralda estavam cheios de vida. Seus longos cabelos que eram brancos ficaram louros da cor do trigo.
- Finalmente fui libertada do feitiço! Depois de centenas de anos dormindo aqui, estou livre! – E viu a libélula sobrevoá-la, contente. – E você, meu amigo, está livre também! – E fez um gesto com as mãos.
A libélula se transformou em um homem gorducho e bonachão.
- Obrigado, Felicity. Não aguentava mais ficar zanzando por aí como um inseto.
Harold ficou de pé, mas estava atordoado. Assustado. Espantado.
- Quem ou o quê é você!?
- Eu sou a Felicity – ela deixou a sepultura e limpou-se do pó e teias de aranha que ficaram sobre a seda de suas roupas, que se revitalizaram junto com ela – eu sou uma fada. Um mago do mal me enfeitiçou e ao meu assistente aqui, Romanello.
- Romanello, e não Libélula, e não sou sua “amiguinha”, senhor! Aliás, qual é o seu nome?
- Eu sou Harold Atkins!
Felicity colocou as mãos sobre os ombros de Harold.
- Eu sei quem você é e a sua história. Eu li sua mente quando me beijou e me despertou. Como boa fada, eu vou realizar seu maior desejo.
- Não tenho nenhum, não há riqueza neste mundo que possa me alegrar. Se leu minha mente sabe que perdi minha esposa e minha filha, que eram a minha razão de viver; não existe nada que eu...
- Papai, papai! – Era a voz de Elise.
– Harold, onde você está? – A voz de Agatha.
Vinham de lá de fora, além do corredor e da escada.
Harold Atkins ficou todo arrepiado. Sua respiração se acelerou. Sem archote mesmo, correu no escuro para o encontro delas.
Felicity sorriu gostosamente. Ouviu Romanello dizendo:
- Ah, minha fada maravilhosa, sabe mesmo realizar qualquer desejo!