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sábado, 9 de outubro de 2010

O Diário Secreto de Solange - Cap. 3

Capítulo 3:

A parte que me interessava mais na faculdade era tudo que tinha a ver com computadores: programação, algoritmos, projetos. Detestava e ainda detesto matemática, cálculo, geometria e estatística. As minhas primeiras provas nestas últimas matérias eram tingidas de vermelho. Porém começava a me destacar entre os colegas no domínio dos novíssimos Cobra-320 e Cobra-520, os computadores do CPD da minha faculdade.
Eu aprendi com extrema rapidez a programar em Cobol, Mumps e a mexer no sistema operacional SOD tão bem que minhas notas eram 9,0 ou 10,0 nestas matérias.
E o semestre voava. Voltando à minha turma, logo fiz amizade com o Otelo, um grande amigo da Bolívia. E o Márcio, o sujeito que eu admirava porque parecia saber de tudo um pouco. Também era o nosso fornecedor de disquetes, programas “alternativos” para Apple II e picotex para furar disquetes de 5 ¼” e poder usar o outro lado.
Logo o trio estava sempre junto. Infelizmente não havia vaga na república do Márcio e o Otelo morava em Jundiaí, uma cidade próxima à Campinas, então tive de me contentar em viver em uma quitinete com mais dois desconhecidos que sequer faziam o mesmo curso que eu.

Lembro-me do primeiro dia na minha república. Claro como se fosse ontem. Cheguei às onze e meia da noite de uma sexta-feira, vindo da faculdade com o ônibus vermelho da C.C.T.C. e estava exausto. Aulas de Álgebra I e Cálculo I haviam reduzido meu cérebro a um amontoado de sinapses sem sentido.
A porta estava trancada. Eu tremia. Não conhecia meus dois novos companheiros porque todo o trâmite de alugar o apartamento fora feito por minha mãe. Eu só sabia o endereço que estava em um pedaço de papel e mais nada, então imaginem o que eu sentia naquela hora...
Abri a porta com minha chave e acendi a luz. Era uma quitinete cinza e comum no sétimo andar de um prédio na Barão de Itapura. Na pequena sala havia apenas um pequeno sofá verde escuro, um rack velho com uma televisão pequena e um aparelho de som antigo. O chão tinha um carpete cinza tipo forração.
Havia apenas mais uma cozinha minúscula, um banheiro apertado e um quarto um pouco maior com dois beliches e um guarda-roupa estreito. Senti-me deprimido... Eu teria de viver lá por pelo menos mais quatro longos anos. Joguei a mochila com minhas coisas em uma das duas camas vazias.
Tomei um banho rápido, coloquei meus ridículos pijamas e arrumei a cama que escolhera (as outras duas, de meus colegas de quarto, estavam todas bagunçadas). Era a parte de baixo do beliche da esquerda. Deitei e não conseguia dormir, agitado, com uma espécie de medo, sentindo-me sozinho. Porém em algum momento após a uma da manhã peguei no sono, um sono leve.
Acordei com risos. Ia levantar-me para conhecer meus dois novos colegas, mas ao virar-me na cama deparei-me com um casal bêbado.
O rapaz, um jovem alto, mulato e de cabelo pixaim cortado rente, reconheci como sendo um dos que iam compartilhar a república comigo. Eu o havia visto em uma foto e sabia que seu nome era Natanael. A garota, uma loirinha muito bonita e magricela, eu nunca tinha visto antes. Seus olhos verdes não demonstravam brilho algum.
Ela era bem pequena perto dele, que devia ter quase dois metros de altura.
- Quem é você, garoto? Eu te conheço? – Natanael parecia irritado.
- Eu sou o Flávio Maulson. De Salto. Você deve ter falado com a minha mãe.
- Ah, é... O Flávio. Sua mãe mandou ficar de olho em você! Já trocou as fraldas?
Eles riram e eu fiquei muito chateado, mas não respondi. A loira me encarou:
- Olha... Porque você não vai ali na esquina chupar um sorvete que eu estou querendo chupar outra coisa aqui... – E riram mais.
Levantei-me para colocar uma roupa e sair. Estava ficando insuportável permanecer naquele quarto. Quando me viram de pijama bege caíram na gargalhada.
Natanael chegou a chorar de tanto rir:
- Que é isso? Aqui não é o maternal não....
Peguei algumas roupas e me retirei, indo vestir-me no banheiro. Saí do apartamento humilhado e com muita raiva e desci para a rua, caminhando até uma agitada pizzaria ainda aberta ali perto. Nem lembro o que comi ou bebi de tanta raiva.
Voltei quanto a pizzaria fechou, duas e meia da manhã. O apartamento estava às escuras. Entrei vagarosamente no quarto e percebi, pela penumbra, que Natanael e sua namorada estavam dormindo no beliche da direita, na parte de baixo, juntos.
Tirei meus sapatos e dormi de jeans e camiseta mesmo, roendo-me de ódio.
Na manhã seguinte, um sábado atipicamente quente do final de abril, voltei para Salto, para minha casa. Um noite na república e já a detestava. Cheguei de mau humor e fui diretamente ao meu quarto, que compartilhava com meu irmão.
Coloquei meus fones de ouvido e fiquei ouvindo música, eu gostava de “mixar” fitas cassetes com músicas New Wave de bandas como Devo e B-52’s, minhas preferidas na época. Eu não tinha uma moto ou um carro, mas tinha uma senhora aparelhagem de som, com toca-discos, mixer, equalizador, os cambal.
Tirei os fones quando meu irmão, Fúlvio, tocou o meu ombro.
- Vem almoçar, Fla, que a mamãe tá chamando.
Desliguei tudo e fui comer, meio chateado, ainda lembrando da noite anterior. Eu não queria mais voltar para a minha república. Mas não tinha coragem de dizer isso aos meus pais. Sentei-me na mesa e minha mãe serviu macarrão com almôndegas.
- Como foi na república nova, Flávio? – Ela perguntou.
- Ah, foi bom – menti – dormi bem, foi legal.
Ela não perguntou mais nada e fiquei quieto. Meu irmão começou a reclamar da comida como sempre fazia. Minha mãe gritou para o meu pai:
- Jonas, vai almoçar aí ou vem comer aqui?
- Vou comer aqui na sala, beinhê. Vai começar um filmão com o Browson.
Tudo aquilo me deixava deprimido. Meu irmão reclamando, meu pai ausente, minha mãe pouco importando se eu ia bem na faculdade ou não, porque nem sequer sabia que notas eu tirava ou se havia alguma prova importante.
Comi bastante como um rapaz de vinte anos come e voltei à minha música. Afundei na poltrona com os fones de ouvido e coloquei no meu tape deck Foreigner cantando I Wanna Know What Love Is, curtindo uma leve depressão. Suspirei pensando na Solange. A linda, extrovertida e inteligente Solange Pereira de Carvalho.

domingo, 26 de setembro de 2010

O Diário Secreto de Solange - Cap. 1

Escrevo estas páginas como forma de me liberar da culpa que tanto me atormenta. Tomei uma decisão que considero correta, porém... Não sei. Talvez a maior parte da sociedade não a considere assim. Por este motivo escrevo estas linhas, tentando limpar minha consciência. O que fiz? Antes de dizê-lo preciso contar toda a história... Colocar minhas ações em um contexto. Talvez assim eu seja absolvido por vocês, meus diletos leitores... Ou não.
Preciso começar do começo, bem do começo, para que entendam e procurem sentir minhas emoções, meu estado de espírito em cada momento. Que experimentem passar pelo que passei e procurem compreender porque tomei a decisão que tomei.

O ano era 1984. Eu havia passado no vestibular para o curso de Análise de Sistemas na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, a PUCCAMP. Lembro bem do meu primeiro dia como calouro, aquele mundaréu de gente sorrindo, gritando e eu procurando minha classe nas listas de papel, pregadas no concreto à vista dos edifícios do campus.
Entrei em minha classe. Havia muitos alunos e, tímido como sempre fui, sentei-me próximo aos fundos da sala, onde havia alguns sujeitos estranhos que riam muito. Uma jovem bonita trajando apenas camiseta branca e jeans entrou e começou a encher a lousa de fórmulas e uma lista de livros que deveríamos comprar.

- Aí, gente, sou a Laura, professora de Cálculo I de vocês. Estudem essas funções trigonométricas porque a prova é segunda que vem, ah, e também comprem esses vinte livros que listei aqui.
Começei a suar frio. Eu estava esperando já começar com aulas de programação de computadores e aquela professora, pouco mais velha do que eu, enche a lousa e manda comprar um monte de livros! E dinheiro? Onde eu ia achar dinheiro para tanto livro? E prova na próxima segunda? Minha vontade naquele momento era ir embora dali, sair correndo.
- Agora vamos passar recolhendo dinheiro para a apóstila.
Entreguei a grana que tinha para almoçar para pagar a maldita apóstila e então a tal professora apontou os alunos do fundo da classe, próximos à mim, que riam se parar:
- Estes sujeitos aí estão fazendo já à terceira DP comigo. Vocês não vão poder mais dormir à noite, vão é estudar, estudar e estudar, eu sou rigorosa, entenderam?
Uma caloura de feições orientais (aliás, a maioria dos alunos de minha classe naquela época era de orientais) ergueu a mão. Laura colocou as mãos na cintura e ralhou:
- Está pensando que aqui é o primário? O que você quer, menina?
- Eu... Eu queria saber o que é DP, professora...
- Quero que me chame de Doutora Laura, entendeu bem, aluna fraca da cabeça? E DP é Dependência, reprovação, coisa que tenho certeza você vai ter em minha classe!
O pessoal lá de trás caiu na gargalhada enquanto eu e a maioria da frente até tremia de medo. Aquilo era a faculdade?
- Mas... Mas eu não fiz nada professora!
- Sua imbecil e mentecapta! Já falei para me chamar de Doutora Laura!
Foi então que aconteceu um evento tão fantástico e precioso, que guardo com prazer em minhas lembranças, e que embora tenha se passado em minutos, levou horas em minha mente. Uma caloura levantou-se irritada e levantou a voz:
- Vamos parar com essa palhaçada, que de doutora você não tem nada, veterana!
Ela era maravilhosa, linda, uma garota em seus dezenove ou vinte anos emergindo, aflorando como mulher e seus cabelos esvaçoavam enquanto falava. Seus olhos castanhos tinham um brilho que jamais vira na vida. Ela voltou-se para nós, pobres colegas calouros.
- Vocês não vêem que tudo isso é uma encenação? Que o dinheiro que pediram para apóstila na verdade é para a cerveja desses safados no fundo que não passam de veteranos abusados passando um trote?
Um rapaz loiro, com o rosto coberto de cicatrizes de espinhas que deviam ter existido em seu rosto durante sua adolescência, subiu em uma cadeira:
- Ora, fique quieta sua bixa abusada. Quer ir para a diretoria levar umas palmadas do diretor? Eu ajudo a bater! – E riu junto com os companheiros hienas até que um deles até capotou entre as carteiras.
Eu estava evidentemente apaixonado, se é que alguém fica apaixonado apenas por olhar para outro alguém. Aquele garota era sensacional, e não apenas eu, mas os meus companheiros bixos e aqueles vets também notaram. E todos os rapazes (e porque não dizer algumas garotas também?) acompanharam ela sair, esplêndida, mas pisando duro, de nossa classe, daquela pseudo-aula.

Após aquele momento uma discussão começou ente os calouros e os veteranos, os calouros querendo reaver o dinheiro e alguém já chegando com uma tesoura para nos tosar. Tentei escapar, mas foi em vão. Não pelo fato que iam cortar-me os cabelos, que na verdade nunca ficavam direito em minha cabeça, mas para ir atrás daquela morena de olhos castanhos sensacional, queimada de sol e com um corpo com curvas tão bem feitas que até hoje sonho com elas.