domingo, 23 de setembro de 2012


PAGANDO OS PECADOS



                Olá, pessoal. Hoje está quente aqui. Estou num dos meus raros momentos de descanso, observando esta maldita prisão de um dos seus pavimentos superiores. Vejo os meus colegas prisioneiros sofrendo, milhares deles, em torturas indescritíveis. Já lhes disse o quanto está quente hoje? Mais do que nos outros dias. Que calor! Mas veja lá, aquele pobre homem, tendo de carregar aquela enorme bola de ferro maciça... Ele era jogador de futebol. E aquela garota linda? Foi currada tantas vezes que agora só olha o vazio... Prisão dos infernos! Ah, ah, ah, ah, só rindo mesmo.

                Aqui é claustrofóbico. O suor me arde nos olhos. Ei, vejam ali um amigo meu, sujeito infeliz. Era advogado. Agora é obrigado a ficar preso, ajoelhado todos os dias, o dia todo. E aquele outro lá embaixo, vê? Era o garanhão da turma... Aqui nesta prisão que o Universo esqueceu, ele é sodomizado a cada duas horas... Pobre coitado... Mas como está quente, hoje!

                Maldito lugar dos infernos! Ah, sim, você quer saber como eu acabei aqui? Bem, primeiro preciso dizer-lhes que mereci. Mas vamos à minha estória...

                Era uma manhã qualquer de um dia qualquer e eu caminhava em direção ao prédio onde ia atender um cliente... Que cliente? Não importa... Eu fazia consultoria administrativa, sabe? Dizia que impostos pagar, quais sonegar, que funcionários cortar... Enfim, como eu ia dizendo, caminhava em direção aquele enorme edifício na Avenida Paulista, em São Paulo, de terno e gravata, segurando minha maleta 007 e feliz porque ia comprar um carro importado... Um sedã de luxo... Lembro-me bem que um menino maltrapilho pediu dinheiro na porta do prédio e eu lhe dei "um chega para lá", irritado... Esses mendigos... Deviam morrer todos, não acham?

                De qualquer forma, entrei no prédio e fui ao escritório... Ah, que linda manhã... Tenho saudades de manhãs assim, azuis, frescas, com aroma de café. Aquele dia foi um dia agitado, porém comum. Reuniões, decisões, oh, aquele funcionário precisa do emprego? Que se dane. Mandei que o boicotassem até que pedisse demissão... Para que pagar os direitos dele? Vive de aluguel com quatro filhos? Idiota, quem mandou fazer tantos filhos?

                A Glorinha do setor de cobrança era, como direi? Uma penosa. Passei uma cantada nela e fomos almoçar juntos. A jumenta amiga dela bem que queria ir junto, mas mandei a mocréia passear. Minha família? Lembro-me que sorri de modo maquiavélico quando deixamos o motel, à tarde... Minha mulher nunca descobriria...

                Enfim, um dia comum. Até a hora de sair, onze da noite. Várias coisas me detiveram no serviço, e eu detestava sair tarde. Tinha medo. Andei depressa até a estação do metrô, estação Trianon. A avenida estava agitada, mas São Paulo era assim mesmo, nunca dormia... Desci as escadas correndo, comprei o bilhete magnético, mas na plataforma quase vazia nada do trem aparecer. Consultei meu Rolex de ouro: quase meia noite! Cadê o maldito trem? Um funcionário do metrô surgiu para anunciar que as operações de trens estavam suspensas devido à um acidente, e que só amanhã as linhas estariam restabelecidas.

                Estarrecido, perguntei-lhe o que deveria fazer, uma vez que eu precisava chegar ao Terminal Barra Funda. Meu ônibus saía de lá, eu morava no interior, em Itapetininga. O bom homem sugeriu que pegasse um ônibus urbano, três quarteirões descendo a Paulista. Subi às pressas ao nível da avenida, caminhando a passos largos à procura de um táxi. Mas então notei, nervoso, que tinha esquecido de tirar dinheiro e dispunha apenas de vinte reais na carteira... Um táxi para Barra Funda ficaria mais caro do que isso. Meu cartão de banco ficara com minha mulher.

                Caminhei pela larga calçada à procura do ponto de ônibus, e de fato estranhei que a avenida estava agora um tanto vazia. Muito vazia? Sim, suponho que nem em feriados estivesse tão calma... Os carros estavam cada vez mais raros, transeuntes escasseavam, e meu lábio superior tremia enquando eu divisava um papel solitário, carregado por um súbito vento quente, naquele início de madrugada.

                Uma pessoa veio em minha direção e a idéia de assalto assaltou-me a mente, então comecei a correr. Mas o sujeito veio atrás de mim! Incomodado pelo peso de minha maleta, sentia meu coração a participar de uma corrida de fórmula um, tão acelerado que estava. Porém logo aquele sujeito de óculos grandes segurou-me e vi que estava tão ou mais assustado que a minha miserável alma.

                - Olha amigo, estamos os dois aqui sozinhos... - E estávamos mesmo, agora não havia ninguém, exceto os paquidermes e dinossauros de concreto que nos olhavam com suas janelas. - Amigo, ouça-me... - Era o rapaz, um tanto jovem, um tanto de cabelos encaracolados. - Precisamos ficar juntos. Algo estranho está acontecendo! Vamos pegar o primeiro ônibus que passar e sair daqui. Estou com medo!
                E eu também estava, claro, mas nada disse ao infeliz. E, juntos, achamos um ponto de ônibus, ledo abrigo com seus cartazes publicitários numa ode ao capitalismo. E eu estava tremendo e suando frio, a Avenida Paulista vazia, agora total e completamente vazia. Ninguém!

                - O que será que está havendo? - Perguntei eu. - Nunca vi São Paulo tão quieta.
                - Algo de muito sério, amigo. Algo de muito sério...
                E nada de ônibus, e nem sequer um automóvel mais passava por ali. Apenas algumas luzes nos prédios enormes e os semáforos, testemunhas silenciosas de nosso crescente pânico.
                Uma hora da manhã. Temendo pela vida de meu Rolex de ouro, disse ao meu novo amigo:
                - Vamos andando. Ficar parado aqui é loucura. Vamos descer a avenida e procurar alguém, ou até mesmo algum restaurante aberto, loja ou shopping.
                Dessa forma começamos a andar depressa, olhando para todos os lados em sobressalto, e confesso que estava com muito, muito medo. Não andamos muito e ouvimos uma enorme gritaria e muito barulho.
                - O quê será isso, amigo? - Perguntou meu sócio na Desgraça S/A.
                - Vidros quebrados, gritaria... - E então engoli a saliva que se juntara em minha boca: - Ah, meu Deus! Um arrastão! Rápido, corra!
               
                Bandidos, facínoras, criminosos, pivetes, todo o tipo de marginal subia a avenida, quebrando e saqueando tudo o que viam pela frente, e corremos na direção oposta, eu, de terno, gravata e maleta pesada, meu Sancho Pança quase chorando, num ato desesperado. Estávamos aflitos... Se nos pegassem... Oh, como fiquei com medo naquele instante! Ah, será que eu estaria vivo para comprar meu carro novo amanhã?
               
                Eles estavam nos alcançando, e corremos por nossa vidas. Larguei a pasta... Só documentos e CDs de dados mesmo... Corremos, um coração é capaz de passar pela garganta? Corremos, corremos, tirei minha gravata, corremos... A turba enfurecida quebrava vidros, arrasava carros, saqueava vitrines, e gritavam como selvagens, como vândalos.
                Sem mais conseguir correr, entramos pelos jardins de um prédio de apartamentos e nos escondemos em uma reentrância, enxugando o suor de nossos rostos e nossas línguas podiam sentir o sabor sujo daquele chão.
                - Ah, meu Deus, nós vamos morrer... O que está havendo em São Paulo? Cadê a polícia?
                Eu respondi e minha voz saiu entrecortada pela minha respiração acelerada: - Eu não sei... Vamos ficar quietos... Talvez não nos tenham visto e não nos achem aqui...
                Porém logo começaram a quebrar a portaria, próximos a nós, que estávamos na lateral do edifício. E não demorou muito para nos encontrarem.
               
                Novamente correndo. Uma porta lateral! A salvação? Não! Era de vidro, quebrado sem piedade por nossos algozes, homens de cores que eu detestava, com meias nas cabeças, a gritar. Que horror!
                Tomamos o elevador. Tenho agora a nítida impressão que aquele realmente não era meu dia de sorte. O elevador ficou descontrolado e começou a subir com muita rapidez, fazendo com que caíssemos no chão, e observei, horrorizado, os números mudando em alta velocidade em direção aos céus. Pensei que estava vivendo um pesadelo e belisquei-me, mordi-me e meu inusitado amigo olhou-me, talvez pensando que eu havia enlouquecido.

                Com um baque surdo paramos no último andar. Eu estava em frangalhos. Mas estávamos a salvo, por enquanto. A porta abriu-se e aquele lugar era onde ficava a maquinaria do edifício, onde as máquinas de ar-condicionado funcionavam e as caixas d'agua descansavam
                - Meu Deus... Será que podemos nos esconder aqui? - Perguntei, sentindo minha boca seca, e larguei longe meu terno. Abri minha camisa. Meu Barney tremia das cabeças aos pés.
                Contudo, antes que tomássemos alguma decisão, a porta do elevador ao lado do nosso abriu-se. Mais marginais. Urravam com facas e facões em punho, ávidos de sangue. Corremos de novo, desesperados, aflitos, quase a chorar e a suplicar por ajuda. Abrimos uma porta e as escadas se ofereceram, e foi por elas que descemos, e descemos, e descemos... Já tentaram descer escadas infinitas perseguidos por pessoas que querem seu escalpo? Não? Experimentem, faz a adrenalina saltar pelo seus olhos...
               
                Gente subindo. Ajuda, pensei. Mas qual! Mais bandidos. Vi nos olhos de um deles a morte que queria nos pegar. Hoje não, Dona Morte! Entramos por uma porta em um dos andares, vigésimo, creio eu. Andamos, batemos nas portas daqueles apartamentos cegos, surdos e mudos.
                Meu comparsa no desespero ajoelhou-se diante de uma daquelas portas e chorou, esmurrando a madeira. Ergui-o, ainda me restava a dignidade, arrastei-o pelo corredor, pois que agora os Homens do Mal estavam próximos. Corremos. Dobramos a esquina do corredor. Corremos pelo corredor... Redundante, não? Vocês podem imaginar a minha aflição, o meu medo ali, naquele lugar? Ah, não, acho que não. Sabem, o temor de morrer estraçalhado, ser humilhado por pessoas horrendas é algo indescritível, então apenas tentem imaginar, porque não perderei meu tempo em descrever meu pânico. Só digo-lhes que meu Starsky tinha se mijado todo.

                Havia um corredor cheio de portas, uma na sequência das outra, sem fechaduras. Fechávamos uma e eles abriam outra, facas entre os dentes. Que estranho, lembro-me que pensei na hora com meus botões de minha suada camiseta Armani, esse corredor parece não ter mais fim, parece na verdade que nem estamos mais naquele edifício que havíamos entrado! Nossa mente pode pregar peças quando estamos em perigo.

                Então uma linda mulher, de pele negra luzidia e cabelos curtos cortados tipo tigela, emoldurando um rosto de olhos de jabuticaba, estava à nossa frente. Vestia uma saia de classe e estava tão assustada quanto nós.
                - Puxa vida... O que está acontecendo?!! - Perguntou.
                Respondi-lhe, tentando ser o homem corajoso que eu não era:
                - Um arrastão monstruoso atrás de nós. Tem alguma saída daqui?
                - Sim, venham, existe uma escada de emergência contra incêndio atrás daquela porta, podemos descer e sair pelos fundos do prédio!
                Eles estavam nos nossos calcanhares agora. A última porta tinha um trinco daqueles de girar. Eu tremia tentando fechá-la, eles empurravam a porta, a negra e meu amigo tentando ajudar-me, seríamos pegos, a porta não fechava, a maldita!
                Mas fechou. Teríamos algum tempo antes que aqueles malvados conseguissem arrombá-la... Descemos então a estreita escada de emergência, meu amigo Garfunkel perdera os óculos, minha deusa negra segurava a minha mão... Aquela mulher salvadora e linda fizera com que eu esquecesse temporariamente meus preconceitos.
               
                Pelos fundilhos do prédio, calmo e tranquilo na madrugada quente do verão paulista, saímos. Estávamos salvos, afinal.
                Andamos por um jardim escuro e saímos em uma rua bem iluminada e agora alguns carros passavam ao longe. Caminhamos apressadamente, em silêncio, minha Dama de Ébano a tremer, meu Tonico enxugando o rosto com seu lenço.
                Avistamos então uma rua mais movimentada e uma praça de táxis. Suspiramos intensamente. Salvos, afinal. Livres. Libertos do pesadelo.
                Perguntamos ao primeiro da fila:
                - O que está havendo em São Paulo?
                O motorista, um senhor grisalho, magro e de óculos frágeis, pareceu não entender:
                - Havendo? Que eu saiba, nada...
                Segurei o nobre homem pelos colarinhos da camisa puída:
                - Mas estava tendo um arrastão na Avenida Paulista!
                - Um arrastão? Ué... Eu não estou sabendo de nada... O rádio está ligado e não houve nenhuma notícia. Não está havendo coisa alguma, amigo... Olhem em volta, vêem alguma coisa de anormal?
                E não havia nada mesmo, apenas o trânsito, buzinas, pessoas, tudo na mais santa paz. Nós três nos entreolhamos.
                Bem, pensei, talvez estivesse mesmo ficando louco. Ou talvez a notícia não tenha chegado às rádios. Ou até aquela praça, embora estivéssemos à poucos metros da Paulista...

                Virei-me para Pérola Negra e para Robin:
                - Escutem, você viram o mesmo que eu, não viram?
                - Claro... - Disse o doutor Watson. - Até me mijei todo... Eu não estava sonhando...
                - Nem eu! - Desta vez foi Olhos de Jabuticaba quem falou. - Aqueles marginais iam me estuprar, com certeza! Não, temos que ir embora daqui, nunca mais volto à São Paulo!
                - Mas eu só tenho vinte reais! - Afirmei, exibindo para eles minha carteira que eu comprara em Paris.
                - E eu não tenho nenhum tostão! - Disse Barrichello.
                - Eu tenho uma nota de cem!
                Salvo novamente pela Orquídea Negra. Preciso rever meus conceitos...               Tomamos o táxi. Finalmente pude relaxar. Decidi que no dia seguinte iria entrar com um processo contra a prefeitura por tudo aquilo. E aquela mulher linda no banco da frente, eu lhe passaria uma cantada, levaria para um motel e depois a chutaria...

                Andamos alguns quilômetros quando entramos no túnel do Anhangabaú. Mas aquele túnel apenas descia, e descia... Algo estava errado, cadê o fim do túnel? Meus novos amigos também perceberam que aquilo não era normal.
                - Motorista! - Bati em seu ombro. – Motorista! O que houve com este túnel? Ele está diferente!

                A Whitney Houston berrou... Um grito estridente. Posso afirmar-lhes que fechei os olhos com o som agudo martelando em meus ouvidos.
                O suave senhor motorista daquele táxi virou-se. Tinha a pele vermelha, chifres e língua bipartida. Sorriu com os caninos enormes de fora, e tudo tornou-se quente. O túnel teve as paredes tingidas de sangue.
                - Olá. Sou um dos filhos de Lúcifer, e este é o táxi para o inferno!
                Dos bancos, tentáculos vermelhos e quentes saíram do nada e começaram a nos espremer. Donna Summer berrava enquanto era estraçalhada no banco da frente, Póllux ao meu lado olhou-me com desespero até que seus olhos espirraram para longe.
                Antes de morrer esmagado pelos tentáculos, em meio a uma dor lancinante, ainda ouvi nosso motorista dizer:
                - Viemos buscar toda a Humanidade. Duvido que alguém preste neste mundo, concorda comigo?
                Mas, como poderia responder-lhe, se meu corpo transformara-se em apenas orgãos retorcidos?

                Pois é, amigos. Eu lhes disse que esta prisão é dos infernos! Bem, é o próprio inferno... Nem Dante imaginou algo tão horrendo. E como faz calor aqui! Como eu me sinto? Hã... Sei lá... Nada de mulheres, móteis, carros de luxo... Apenas sentar no colo de um demônio todos os dias... Hummm, vou lhes dizer, é bem dolorido... Ser todo cortado com lâminas e depois passar sal pelo corpo, e então tomar banho de álcool... Ah, não se preocupem, a gente não morre... Já estamos mortos, de qualquer forma...

                Bom, até logo. Vejo vocês por aqui em breve, hein?


sexta-feira, 14 de setembro de 2012



AMIGA VIRTUAL


            Eu gosto de Internet. Atualmente quem não gosta?  Passo horas na frente de um micro. Adoro teclar. Chats, e-mails, blogs, Twitter, Facebook, web pages do mundo todo...
            E foi num dia comum que liguei meu micro, entrei mais uma vez na rede e fui dar uma olhada nas dezenas de e-mails que recebo diariamente... Spams... Propagandas... Piadas engraçadas e sem graça... Tudo normal, exceto por uma única mensagem que dizia:

            “Diego, estou muito sozinha e gostaria de falar com você”

            Era um e-mail sem remetente (!) e sem assunto (!), mas a pessoa sabia o meu nome. Assustei-me, afinal podia ter algum vírus ou algo assim, eu nunca havia recebido um e-mail sem remetente! Como eu responderia? E quem gostaria de falar comigo? Eu estava sem namorada há meses, desde a formatura eu havia perdido contato com meus amigos... E amigas... Então, de quem era aquele e-mail misterioso? De quem poderia ser?
            Fiquei um tempão matutando e resolvi clicar em “Responder ao Remetente” no meu gerenciador de e-mails. Escrevi:

            “Quem gostaria de falar comigo?”

            E remeti. Não precisei esperar muito (o que foi estranho), e menos de dois minutos depois, ao clicar no “Enviar e Receber”, a resposta apareceu (ela devia estar on-line).
           
            “Meu nome é Cristine. Você não deve mais se lembrar de mim, mas às vezes eu o vejo em seu trabalho, em sua casa... Estou com saudades e estou sozinha. Quero conversar com você.”

            Mandei-lhe outro e-mail, perguntando-lhe se não tinha algo como o MSN, Facebook, Skype ou outro software para conversarmos on-line. Seria bem melhor que ficar trocando e-mails o tempo todo. A resposta também veio rápida (o provedor dela devia ser o mesmo que o meu e não devia haver muito tráfego):

            “Sinto muito, já foi difícil conseguir lhe enviar alguma coisa, e para falar a verdade não entendo muito de computadores. Só quero conversar, Diego”

            Sorri para mim mesmo e resolvi que devia conversar com ela, mesmo daquele jeito inusitado:

            “Cristine, desculpe não me recordar de vc. De onde tcls?”

            Não esperei nem um minuto para receber a resposta:

            “Por favor, não entendo muito de internet, não abrevie as coisas nem use termos técnicos. Onde estou agora? Próxima de você... Mas isso não importa. Sabe, acho você uma pessoa sensível, inteligente, tem ótimas idéias... Você é tímido, mas se falasse com os outros, respirasse fundo e dissesse tudo o que pensa, seus colegas te respeitariam. Mas você é carrancudo, mal humorado, e se afasta... A vida não é um quarto escuro com um computador, um escritório com ar condicionado e você, engravatado, tomando café com um colega falando mal dos outros. Não é você não dormir pensando nas dívidas, ou invejando o colega que tem um carrão novo. Diego, pense. Você é feliz? Você não acha que viver é ser feliz a maior tempo possível?

            Estremeci na cadeira diante da tela do computador. Como ela sabia tanto de mim? E ela havia dito, ops, escrito, que às vezes me via em casa e no trabalho. Como? Quem é essa Cristine?

            “Me responda: quem é você? Como sabe tanto sobre mim? E do que você está falando?”

            Confesso que hesitei antes de clicar o “Enviar e Receber” a segunda vez, para receber sua resposta. E lá estava ela:

            “Tente relembrar: uma antiga amiga de infância. E sei sobre você porque, como você foi um grande amiguinho meu, resolvi lhe visitar. E te conhecer melhor. Descobri que você é um grande cara, mas está escondendo isso. Você é muito negativo, pessimista. Acha que tudo vai dar errado. Mas tem ótimas idéias. Tem potencial. Mas você não vive direito! Pois, Diego, eu lhe afirmo que a vida, que lhe foi dada por Deus, é para ser aproveitada. Ora, com isso não quero dizer que você deva largar tudo e viver sem responsabilidades, isso não. Mas também apenas se preocupar, trabalhar apenas pelo dinheiro, estar sempre achando ruim as coisas que lhe acontecem, isso é vegetar. Falar mal dos outros, que horror: você tem defeitos também. Viva mais despreocupado! A vida é uma só! Viaje, faça o que gosta, dance na chuva, faça amor, beba um vinho (pouco!), enfim, aproveite!! E se algo der errado, dê um berro e depois sorria e fale: podia ser pior. A vida é curta e é para ser vivida, e para se passar com mais prazeres e felicidades do que tristezas!

            Eu não me lembrava de nenhuma Cristine, mas o que ela escrevia fazia certo sentido, mas eu estava vacinado: recebia tantas mensagens como aquela, apresentações com mensagens e figuras bonitas, correntes, que aquilo tudo não me afetava. Escrevi:

            “Cris, caia na real. Estou num projeto grande e meu gerente diz que se não ficar pronto até a semana que vem a equipe inteira será despedida. Eu vou ficar sem emprego! Como vou pagar minhas dívidas? Se eu sair berrando por aí e dançando na chuva vão me chamar de louco. Fazer amor com quem, se estou sozinho, sem namorada? Olha, estou estressado, desanimado, o aluguel subiu, meu time perdeu e o governo só faz coisas que me deixam nervoso. Não gosto de vinho e meu melhor amigo me deve uma grana e não paga, que merda de vida! E você com essa estória louca...”

            O e-mail dela chegou rapidinho:

            “Diego, Diego, meu amiguinho, você era mais feliz quando era pequeno e nos conhecemos, não era? Brincava ao Sol, ria, era ingênuo... Se você perder o emprego, é claro que pode se endividar, mas vai morrer por isso? Pode ser que arrume coisa bem melhor... Deus fecha uma porta e abre outra, e se você não estiver olhando... E se te acharem louco, pirado, o que isso tem de ruim? Desde que você não atrapalhe ninguém, não mate ninguém... E você já pensou em se vestir melhor, se arrumar melhor, ser uma pessoa simpática e bem humorada que cumprimenta a todos? Logo vai surgir alguém na sua vida, mas não seja tão exigente: pode não ser  a mais bonita ou a mais inteligente... Mas se for uma grande companheira, que é sua cúmplice, que faz você feliz, que você se sente bem em cuidar dela? Seu time perdeu, e daí? Pense: o que está errado contigo? Se você é negativo, atrai coisas negativas... Ah, e quanto as dívidas? Faça só as necessárias! Bem materiais? Só aqueles que lhe dão algum conforto e prazer: status não serve para nada. Já comprou algo caro com muito status que está agora jogado em algum quanto e lhe deixou com um gosto amargo na boca logo depois de comprá-lo? Quando você morrer, você não vai levar nada, meu amigo. É claro que se você tem herdeiros, é sábio deixá-los amparados, mas só o suficiente para se virarem. Entendeu? Deixe de ser burro! A vida só é vivida uma vez! Seu bobo, solte-se e faça a maior parte do tempo o que lhe dá prazer!

            Respondi-lhe meio confuso com tudo aquilo:

            “Sabe, você parece me conhecer muito bem. Quero vê-la, falar com você pessoalmente”

            O e-mail dela veio em seguida:

            “Acho que vai demorar um pouco, mas vamos nos encontrar. E eu lhe conheço bem! Sei, por exemplo, que você é muito egoísta! Eu lhe falei em fazer coisas que lhe deixam feliz a maior parte do tempo, certo? Pois bem! Faça isso, mas nunca, de modo algum, prejudique alguém no processo. Nunca machuque alguém! E ajude os outros e você verá  o quanto isso é prazeiroso. Ah! Não queira receber as glórias por isso. Já haverá Alguém lhe observando e lhe julgando. Sabe, tudo que  falei é fácil de fazer quando você começa. Então vá a luta! Viva para si e para seus colegas!”

            Escrevi, ainda desconcertado:

            “Tudo que você me disse é muito bonito e vou tentar realizar. Mas tenho medo. Tenho medo de ser ridículo. Não durmo a noite pensando no que meu gerente me fala, me pressionando o tempo todo. Não me dou bem com meu vizinho! O que eu faço? E você, gostaria de saber como você é. Vamos falar de você!”

            Aguardei ansioso seu e-mail de retorno:

            “Mande seu gerente a merda! Procure outro emprego, você é capaz, ficar aí sendo pressionado! Quando você morrer, tudo isso não vai ter importância nenhuma. E converse com calma com seu vizinho, tente ficar amigo dele... Às vezes é só um mal entendido e falta de conversa. Não tenha medo de ser ridículo! Viva! O que os outros pensam não vale nada, exceção, claro, o que pensa sua amada... Você vai encontrá-la. Quanto a mim, estou bem, mas gostaria de ter tido a suas chances! E se você está pensando em minha aparência física, bem, acho que não sou seu tipo... Sou uma amiga! Mas nos encontraremos e você entenderá tudo. Bem, preciso ir agora. Mas mantenha sempre esta frase em sua cabeça: a vida é curta e Deus nos fez para sermos felizes e fazermos os outros serem felizes.

            Estremeci. Queria conhecer essa tal de Cristine:

            “Não vá! Onde você está? Eu vou até aí! Quero conversar com você pessoalmente!”

            “Sinto muito. Estou perto, mas estou longe, muito longe... Tchau, preciso ir”

            Cliquei tanto o botão “Enviar e Receber” que quebrei o botão do mouse. Quem seria essa Cristine?  Fiquei mais duas horas, saía, comia, bebia, voltava e procurava ver se havia algo, mas nada da Cristine. Cristine! Cadê você? Como você sabe tanto sobre mim?
            Já exausto, onze da noite, fui (tentar) dormir, pensando no trabalho de amanhã. Cristine? Outra que me deixou, pensei.
            E naquela noite dormi como um anjo. Dormi profundamente, e devo ter tido belos sonhos, mas não me lembrei de nenhum quando acordei, já quase oito, perdendo hora.
            Resolvi não ir trabalhar. Cristine estava certa, e naquele dia resolvi só fazer coisas que eu gostava, como ouvir música, ir nadar, caminhar, ler... Conversar com antigos colegas... E decidi que no dia seguinte, ao ir trabalhar, teria uma longa e sincera conversa com meu gerente, expondo inclusive ideias antigas que escondia de medo de rirem de mim!
            Iria também perdoar a dívida de um amigo na pior, ser voluntário de alguma coisa, escrever sobre algo que ajudasse alguém...
           
            Enquanto tomava o café da manhã, feliz, alegre por minhas decisões, lembrei-me de súbito de Cristine. Ela era minha amiguinha do primário. Sempre amigos! Mas... Arrepiei-me até o fundo da alma. Ela havia morrido aos doze anos num acidente de carro. Larguei a xícara que caiu, quebrando, no chão. Tremia como vara verde. Engoli seco.

            Corri para o quarto do computador. Ele não ligava! Suando frio, olhei atrás do móvel: a tomada do computador estivera desconectada o tempo todo!



quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Universos


UNIVERSOS

Autor: Vitor H. B. Ribeiro


O dr. Montes, sentado na poltrona do canto do quarto, sorriu:

 - Você sabe do que eu estou falando, Jessica.

Jessica Kerabi sabia, mas não queria admitir. Levantou-se de supetão da cama:

- Ora, Rogério, não pode ser possível, simplesmente não pode. A existência de dez dimensões foi comprovada nos aceleradores de partículas do CERN, e se considerarmos o Tempo como uma quarta dimensão, as outras seis são tão enroladas e pequenas que dificilmente são detectáveis... E você vem me dizer que uma quinta dimensão é algo quase perceptível?

            Jessica era linda. Loira de olhos verdes. Muito inteligente. Quase uma contradição.

Rogério Montes deixou escapar uma baforada de seu cachimbo. Cinquenta anos, cabelos grisalhos, barba idem, um pouco acima do peso:

- Isso mesmo, querida Jessy. Mas é uma coisa que não percebemos no dia-a-dia, como um desenho sobre uma folha de papel. Se o desenho tivesse consciência, jamais admitiria que poderia existir a profundidade, a terceira dimensão. Ele é um ser bidimensional assim como somos tridimensionais...

- Ora, Rogério, um desenho não está vivo! Não creio...

- Só porque não vê, não quer dizer que não está lá. Você vê o Tempo?

- Claro, se eu olhar meu relógio de pulso!

Rogério deu uma gargalhada, ainda sentado na poltrona em frente a cama de casal:

- Jessy, você é impagável! Como você sabe, para termos com precisão a posição de um corpo, devemos indicar suas coordenadas como X, Y e Z, mais o instante em que ele está, o tempo T - são quatro dimensões - mas e se houver mais uma que indique em que Universo ele está? A variável U...

Jessica era perspicaz e achou engraçado aquele pensamento:

 - Em que Universo, Rogério?

O experiente físico sorriu largamente:

- Adoro estas discussões. Se existem "n" Universos, como vou saber com certeza onde o corpo especificado está se não disser em que Universo ele está?

Jessica Kerabi tinha de concordar com a lógica do doutor, porém provar tal coisa era impossível:

- Isso deve ficar no campo do debate filosófico, Rogério. Na verdade, talvez você devesse contactar o doutor Stephen Hawking... Ele tem algo parecido com a sua idéia, a dos Universos Brana.

Rogério soltou outra baforada de seu cachimbo e disse a uma cética Jessica:

- Vou provar para você minha teoria agora mesmo.

A jovem estudante sentou-se na cama, diante dele, perplexa :

- Como?

- Eu vim de outro Universo, querida.

Jessica desatou a rir, uma gargalhada gostosa:         

 - Ora, Rogério, não conhecia esse seu lado humorístico.

O telefone tocou. Jessica Kerabi foi atendê-lo na sala de estar do apartamento, já que a extensão do quarto estava quebrada.

- Jessica, aconteceu uma coisa horrível! Está sentada...? - Era uma amiga de Jessica, aflita.

- O que aconteceu, Telma?

- Seu namorado novo teve um infarto e... e... Morreu. Você tinha de arrumar um tiozão para namorar? Deu nisso, querida.

- Meu namorado? O professor Rogério?

- Sim... Fazem duas horas que...

Jessica soltou o telefone e voltou ao quarto. Havia um bilhete sobre a cama:

"A variável U que indica onde estou no momento tem o valor A de Além... Foi bom  ver você  uma última vez..."


terça-feira, 24 de julho de 2012


Kyra e o Fim do Mundo
Nome do autor:  Vitor Hugo Brandini Ribeiro
e-mail: vitorr@splicenet.com.br

Zé do Caixote, Zelão para os conhecidos, observou o objeto por um longo tempo, coçando a cabeça.
 - Nunca vi isso, não, menino. Parece de pedra, mas é muito leve!
Chiquinho dava risada exibindo os buracos entre os dentes tortos.
- Então, achei lá no fundo do açude que secô. Tava meio que enterrado na lama. Num sei o qui é, ninguém sabe lá em casa, mas achei que o sinhô podia dar uma zoiada e dar umas pilas por isso aí.
Zelão esfregou o queixo barbudo.
- Tá Bão. Posso vendê depois pros turista. Te dô 5 pau, certo, moleque?
- Bom demais, sinhô Zelão. Bom demais.
Zé do Caixote pagou o rapazinho e alisou o objeto inusitado entre suas mãos, um cubo branco que parecia feito de mármore, porém extremamente leve. Colocou um preço e deixo-o na vitrine da vendinha.
Desde 2.060 o pequeno vilarejo fora quase todo coberto pelo aumento das Dunas de Genipabu, que haviam transformado aquela parte do Nordeste Brasileiro em um deserto semelhante ao Saara. Contudo, muita gente ainda vivia ali, tirando seu sustento de turistas eventuais.
As antigas pousadas e hotéis luxuosos, agora decadentes ou fechados, estavam cobertos por toneladas de areia. As poucas casas e a igrejinha emergiam das dunas de forma singular.
Uma mulher esguia, ruiva com olhos verde-jade, sardas e lábios carnudos, surgiu andando devagar pelo caminho de areia que levava as veredas do povoado. Crianças a rodearam tentando vender artesanato ou pedindo esmola, enquanto adultos olhavam-na de janelas, perplexos.
Gentilmente Kyra recusou as ofertas dos garotos e distribuiu moedas à eles, livrando-se rapidamente da pequena turba e adentrando o vilarejo. Vestia uma camiseta branca suja de terra e uma bermuda cáqui, ladeada de estranhas pochetes, chamando a atenção dos transeuntes. De umas das pochetes sacou um celular estranho e brilhante  e ficou de olhos vidrados no que dizia seu visor.
Raimundo mascava um chiclete encostado na porta de um bar, observando a cena. “Aquela turista otária parece que tem um celular bem caro. Nunca vi um tão brilhante! E que gatinha... E tá sozinha...” – Seus pensamentos o fizeram segui-la até a lojinha do Zelão.
Kyra entrou sorrindo, sorriso retribuído por Zé do Caixote, que arrumou os poucos cabelos com as mãos suadas.
- Em que posso ajudar?
A ruiva correu os olhos pela vitrine e logo apontou.
- Quanto quer por este cubo branco?
- Ah, esse é feito de uma pedra que só tem por aqui. Vale cem, mas faço por cinquentinha para a senhora.
Kyra sacou de sua outra pochete algo parecido à um smartphone, leu o que aparecia em sua pequena tela, enfiou a mão de novo na pochete tirando uma nota de cinquenta novíssima.
Zelão aceitou e embrulhou o cubo, entregando-o à ruiva, que pegou-o com muito cuidado. Agradeceu e saiu da lojinha, quando um rapaz chocou-se com ela. Foi tudo muito rápido: em instantes o sujeito, já experiente em correr sobre a areia, saia com uma das pochetes de Kyra e o cubo embrulhado.
- Pare! Pare, homem! Você não sabe o que faz! – A ruiva controlou-se e na pochete que lhe restou tirou um pequeno objeto que cabia na palma de sua mão. Apontou para o homem em fuga e disparou. O fino raio luminoso não atingiu o ladrão, que sumiu dentro de um hotel abandonado.
Raimundo sabia fugir com destreza. Entrara no terceiro andar do velho “Coqueiral”, cujo térreo e os dois primeiros andares sumiram debaixo das dunas. Os corredores agora escuros eram ladeados por portas de suítes há muito vazias. O ladrão chegou às escadas e desceu os lances com muita rapidez, ofegante, mas contente.
Finalmente chegou ao seu lar. Um quarto no primeiro andar, escuro e sombrio. Trancou a porta após acender as velas e foi conferir o que roubara.
Abriu a pochete e tirou o aparelho que Kyra usava ao chegar. Nunca tinha visto um celular  tão brilhante e bonito. Curiosamente não tinha teclas, devia ser um dos novos modelos com o qual só se discava ou se pedia alguma coisa via voz. Alisou-o satisfeito. Depois abriu o embrulho e pegou o pequeno cubo branco nas mãos. Analisou e achou que devia ser só um pedaço de plástico, jogando para o lado. Voltou sua atenção novamente para a pochete. Além do aparelho brilhante, só havia mais um item, por sinal bastante estranho.
- Moça, aquele cara que te roubou era o Mundão, ele é perigoso. – Zé do Caixote ajudava a ruiva a se recompor. Chiquinho apareceu com o coleguinha,  Beto.
- Nossa, moça, que lanterna legal você tem!
- Chico, era uma arma de raios “laise”. – Beto deu risada do amigo.
Kyra guardou discretamente o pequeno dispositivo na pochete que lhe restara e arrumou os cabelos atrás das orelhas.
- Está tudo bem. Garotos, que tal um sorvete? Eu pago. – Os garotos deram vivas e correram pegar picolés na geladeira da lojinha. Kyra virou-se para Zelão.
- Senhor, não se preocupe, sei me cuidar. O que o senhor sabe sobre esse rapaz que me roubou? É muito importante eu recuperar pelo menos o cubo que comprei do senhor.
- Olha, moça, o Mundão, o Raimundo, ele é matador. Já matou turista antes. Olha, o cubo nem vale nada, o Chiquinho ali achou no fundo do açude que secou no mês passado, eu paguei só 5 pilas para ele. É melhor não se meter com alguém da laia do Mundão, dona. Eu até devolvo seu dinheiro.
Kyra sorriu para o sujeito de meia-idade e colocou a mão em seu rosto.
- Obrigada, bom homem. Mas eu sei me cuidar, e além do mais, aquele cubo é muito importante. O senhor não entenderia, porém posso lhe afirmar que o cubo branco é a nossa única salvação do que está por vir.
Zelão arrepiou-se. Do que a gringa estava falando? E ela tinha um sotaque tão estranho... Era alemã? Americana? Francesa? E aquela lanterna, era uma lanterna mesmo ou era uma arma de raios? Arma de raios? Que loucura!
- Dona, o que está por vir? Do que que a senhora tá falando?
Kyra não respondeu de imediato. Apenas fitou o velho hotel no fim da rua de areia, aos pedaços, com as janelas dos quartos quebradas e as paredes cheias de rachaduras, inclinado para a direita, parecendo que ruiria a qualquer momento. Suspirou lentamente.
- Senhor, preciso recuperar o cubo. O senhor lê a Biblia?
- Bom... Bom, de vez em quando eu leio sim... – Zelão era católico, mas não lia a Bíblia.
- Senhor, já leu sobre o Apocalipse? A Revelação? Pois aquele cubo branco servirá para impedir o Juízo Final, impedirá que o mundo termine em fogo! Por isso eu preciso tê-lo de volta!
Zé do Caixote engoliu seco. Quem era aquela maluca?
Kyra encarou Zelão. Esperava provocar o medo nele para que a ajudasse a recuperar o cubo, invocando o mito bíblico do Apocalipse, o que no fundo não deixava de ser verdade: sem o cubo seria o fim do mundo para todos os seres vivos.
- Tá bem, dona. Olha, o Raimundo se esconde no velho hotel “Coqueiral”, aquele mesmo que a senhora viu ele entrar. Ali agora é um antro onde só tem drogado e ladrão. A polícia daqui é só o delegado, o Mané, e o soldado, o Tico, e eles não entram ali nem a pau. Eu também não chego perto, mas se a senhora qué arriscá, vai com cuidado mesmo. A senhora tem uma arma de raio aí, então...
Kyra lhe sorriu mais uma vez, pagou os sorvetes dos meninos e seguiu pela rua de areia até o velho hotel. Caminhou decidida por entre as casas semi-enterradas enquanto tirava sua arma de dentro da pochete novamente.
Raimundo esfregou entre os dedos o pequeno objeto triangular de metal dourado, que tirara da pochete roubada de Kyra, e para seu assombro um raio luminoso surgiu e formou uma figura humana à sua frente. Ele deu um berro largando o objeto, mas ouviu estarrecido o bom senhor de longa cabeleira e barbas brancas que surgiu à sua frente, falando-lhe com voz bondoso e macia.
Kyra entrou no prédio. Pressionando um pequeno botão em sua arma, um jato de luz saiu dela servindo-lhe de lanterna. Andou lentamente explorando o lugar mal cheiroso entre pilhas de entulho. Aprumou os ouvidos mas só ouvia o som de sua própria respiração acelerada.
Se ao menos estivesse com seu sensor portátil, pensou, poderia achar o cubo com facilidade. O aparelho que parecia um celular na verdade indicava sua posição exata. Foi assim que o encontrara ali, naquele vilarejo entre dunas.
Chegou às escadas. Subiria ou desceria? Pensou: se eu fosse uma ladra, onde me esconderia? Embaixo, creio. E desceu devagar. Acertara: ouviu vozes na escuridão. Então avançou iluminando o corredor arruinado.
Observou luzes no rodapé de uma porta. Apagou a lanterna da arma e aproximou-se devagar, a respiração rápida como seu coração.
Chutou a porta e entrou. O golpe que levou foi violento, e derrubou a arma. Caiu atordoada no chão do corredor e o sangue tomava-lhe a face.
- Garota burra. Não devia ter vindo aqui. Eu não queria ter de matar você.
Kyra tirou os cabelos do rosto e limpou o sangue da testa com a palma de sua mão. A cabeça doía. Encostou-se na parede, sentada no corredor. Procurou a arma, mas não a via entre a sujeira e o entulho.
Raimundo estava com um pé-de-cabra em uma mão, que usara para golpeá-la de leve. Podia tê-la matado no primeiro golpe, mas não o fez.
Ele era iluminado por trás por velas tremulantes, o que lhe dava um aspecto fantasmagórico. Mas não se moveu enquanto Kyra subia com as costas raspando na parede até ficar de pé.
- Devolva-me o cubo branco que eu vou embora. Eu lhe dou todo o dinheiro que tenho. Eu só quero o cubo.
Raimundo deu risada. Uma risada banhada de medo.
- Olha, gata, eu ouvi o velho da visão, que saiu da luz do negócio dourado triangular. Se eu te der o cubo, o mundo...
- O mundo vai acabar se não me entregar. Eu arrumo dinheiro, lhe dou o que quiser, mas dê-me o cubo!
Raimundo afastou-se, voltando para dentro do quarto do velho hotel. Segurou firme o pé-de-cabra com as duas mãos, suando frio e com medo, muito medo.
Kyra o encarou e avançou. Chegou perto dele.
- Pare, gata. Pare, eu não quero...
- Não pode me matar. Se me matar o mundo acaba hoje. Se você ouviu o velho, sabe disso. – Seu olhar era firme. Raimundo engolia seco sem parar e tremia segurando com as mãos suadas o pesado pé-de-cabra, tentando mantê-lo em uma posição ameaçadora.
Ele nunca vira uma imagem surgir no ar, mas o homem com jeito de Deus lhe falou como em uma visão, e se ele falou a verdade...
- O velho... O velho na visão. Era Deus? Se era Deus ou não, acontece que ele disse que você...
- Raimundo... Raimundo é o seu nome, não é? O cubo branco é a peça que falta para eu salvar o mundo. O que o velho lhe disse não é de todo verdade. Eu posso e vou salvar a Terra do que está por vir. Mas preciso do cubo!
- Gata, escuta. O velho falou que você quer nos possuir. Eu acho que você é o demônio! O homem na luz falou que você é muito poderosa e veio de outro mundo para nos possuir! Ele falou!
- Mas ele também lhe contou sobre o fim do mundo, não contou?
- Contou. E contou o que é preciso fazer para que o mundo não acabe. Mas ele disse que você é má e quer ter todos nós servindo você e o seu povo estrangeiro.
Kyra tirou a camiseta e com os seios à mostra arrumou os cabelos ruivos.
- Sou sua, meu amor. Basta que me entregue o cubo e eu farei coisas que nunca imaginou fazer com uma mulher.
- Não! Não! O homem da luz me alertou sobre você, mas eu não quero matar você. Dizem que eu matei turistas, mas não é verdade, eu nunca matei ninguém. Fica longe de mim! Eu sempre li muito, estudei sobre planetas e estrelas, eu sei, eu entendi o homem da visão!
- Eu quero o cubo! – Kyra avançou sobre ele com uma rapidez incrível e tomou-lhe o pé-de-cabra demonstrando uma força sobrenatural, derrubando-o e depois tentando golpeá-lo com o instrumento de ferro. Raimundo escapou dos golpes jogando-se entre a sujeira e o entulho, virou o corpo várias vezes até encontrar um monte de areia, que pegou e jogou nos olhos da ruiva.
Escapou para o corredor mas tropeçou em uma viga caída, em meio a escuridão. Kyra surgiu por trás e sorriu de forma sádica.
- Adeus, humano idiota! – E baixou com toda a força o pé-de-cabra sobre a cabeça de Raimundo.
Zelão imaginava o que tinha acontecido à moça bonita. Mundão devia tê-la estuprado e matado, o rapaz não valia um níquel. Conformou-se, afinal a polícia ali não faria nada a respeito, ninguém faria nada. Pobre moça.
Olhou para o céu. Estava estranho. Faixas amarelas e vermelhas aproximavam-se com rapidez tomando-lhe o azul tradicional. Zelão engoliu seco. Seria o fim do mundo como falou a moça?
Baixou os olhos e não pode crer no que via.
Raimundo estava ajoelhado no meio da rua. Suas mãos estendidas seguravam o cubo branco em direção ao céu. Ele gritava palavras estranhas.
Uma luz verde saiu do cubo em direção ao céu. As faixas amarelas e vermelhas sumiram.
Raimundo gritou de alegria. Colocou-se de pé limpando a areia dos joelhos. Dava gargalhadas quando viu Zé do Caixote. Jogou-lhe o pequeno triângulo dourado de metal.
- Zelão, eu achei a arma de raios dela no chão, quando ela ia me matar e a matei antes! – E deu risadas como um louco. – E eu salvei o mundo, Zelão! Eu salvei o mundo!
E saiu gritando pelo vilarejo bradando o cubo branco.
Zelão apertou o triângulo dourado, entre curioso e intrigado. Uma luz saiu dele e a imagem de um homem formou-se em plena rua, para todos verem. O velho repetiu as mesmas palavras que havia dito à Raimundo.
- O Sistema Solar irá cruzar com uma nebulosa em sua órbita pela galáxia e a vida na Terra irá se extinguir. O cubo branco pode gerar um escudo que protegerá todo o planeta durante a passagem pela nebulosa. Mas cuidado com uma civilização alienígena que quer escravizar os homens. Eles salvarão a Terra mas usarão a tecnologia do cubo, deixada pelos Antigos, para dominar todos os humanos. A alienígena que virá à Terra estará na forma de uma bela mulher ruiva. Para ativar os escudos no cubo faça o seguinte...
E foi assim que Raimundo salvou o mundo.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Trecho meu novo livro

O que vocês acham do meu novo livro:

Ricardo Vila Morazzi entrou na sala de aula tremendo. Não sabia se era de medo, pura insegurança ou nervosismo. Estava finalmente na faculdade!

Ele poderia ser chamado de nerd. Porém em1984 o mais comum era ser chamado de CDF. Magro, cabelos pretos desgrenhados - levemente encaracolados - e pequenos olhos castanhos, era muito, muito inteligente. Tinha o rosto anguloso porém não era feio... Nem tão bonito. A algazarra o incomodava, aquilo não se parecia uma sala de faculdade e sim uma sala de pré-primário, porque os rapazes jogavam bolas de papel uns nos outros e berravam enquanto garotas cochichavam entre si e davam risadinhas.

Nádia Bruna Oliveira entrou logo depois e parou na soleira da porta. Observadora sagaz, também achou o mesmo que Ricardo. Escolheu uma carteira solitária em um canto da classe e se encolheu, para tentar não ser vista. Muito abaixo do peso ideal, tímida e de pele muito branca, olhos verdes e cabelos cor do trigo, óculos enormes, não queria ser notada. E mesmo sendo uma excelente observadora, não notou Ricardo que se sentou na carteira ao lado. De qualquer forma Ricardo Morazzi era quase sempre invisível socialmente. E Nádia também.

A bagunça naquela classe do primeiro ano de Análise de Sistemas da ICCA ainda não havia parado quando Andressa Melina entrou. Então parou. A bagunça, não ela. Andressa. Um nome muito usado por travestis atualmente mas não em 1984. E ela não era um travesti, era uma linda garota - uma linda mulher - e, usando um belo clichê, na flor da idade, maravilhosa em seus 20 anos bem vividos. Seus cabelos castanhos claros caíam em cascatas sobre seus ombros desnudos (olha aí outro clichê), e seus olhos cinza-azulados refletiam uma inteligência fora do comum, enquanto seus lábios carnudos remetiam a Angelina Jolie. O nariz, sempre empinado, era fino e pequeno. Seu corpo era escultural (mais um clichê) e sua bunda - empinada como o seu nariz - era nada mais que perfeita. Enfim, a garota dos sonhos de qualquer um que gostasse de mulher.

Sob os olhares calados não só da população masculina daquela classe, mas também da feminina que transbordava inveja – exceto por uma asiática simpática que, bem, parece que a admirava como os rapazes – ela escolheu uma carteira vazia bem no centro e na frente da sala, aprumou-se, deu uma olhada geral em todos e, sorrindo com dentes cintilantes (será mais um clichê?), sentou-se organizando suas coisas.

Karina Fernanda Dias foi a próxima a entrar, totalmente distraída, com a mente em outro mundo. Nem reparou que a bagunça retornara, com os veteranos que fingiam ser novatos disputando a atenção de Andressa. Nem reparou no pé estendido de uma veterana com cara de má, tropeçou e caiu. Pesando alguns quilos a mais do que deveria, caiu pesadamente no chão (outro clichê?) e seus desenhos espalharam-se pela sala.

Belos desenhos. Eróticos. Guerreiras semi-nuas lutando com espadas e escudos contra monstros peludos com falos enormes. Eram impressionantes. Os desenhos, não os falos. Ricardo logo pulou de sua carteira porém, ao invés de ajudar Karina a levantar-se, foi recolher os desenhos, deixando Andressa sacudindo a cabeça e ajudando – desculpe-me ser politicamente incorreto – a gordinha a colocar-se de pé.

(e segue... Estou desenvolvendo o texto ainda)...


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Novo livro

Estou escrevendo um novo livro de Ficção Fantástica chamado "Os Apóstolos do Apocalipse".

Não, não é sobre religião ou que virei um pastor.

É sobre um grupo de amigos que estudam em uma faculdade que ocupa o prédio onde antigamente havia uma estranha seita.

Quando for publicado avisarei a todos

Abraços
Vitor

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

2012 está Chegando...

Espero em 2012 poder movimentar bastante este BLOG!!!!

Por enquanto o que eu desejo é

Um Feliz Natal a todos e um Excelente 2012!!!!!!!!!!!!!!!

e esperemos que o mundo NÃO acabe em 2012

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A Busca


Meu novo livro em breve estará a venda na Amazon e no Create Space

O e-book já se encontra a a venda na Amazon

Preços: U$ 9,99 + frete do livro impresso

U$ 6,99 do e-book

Logo divulgo os links para compra



Abraços

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Novo Livro Lançado na Amazon


Olá pessoal

Estou lançando meu novo livro na Amazon, logo estará disponível para compra. Quando estiver, passo link e preço final.

Aguardem!!!

Abraços
Vitor

terça-feira, 19 de julho de 2011

Tempo não se compra

Se tempo pudesse ser comprado... Não consigo parar para escrever, o que tanto gosto.... Mas ainda dou um jeito!!!