sábado, 20 de outubro de 2012

A Churrascaria



A Churrascaria


Parte I:

Telma e Adilson estavam se beijando pela quinta vez no banco de trás, e pela quinta vez o pai de Telma pigarreou forte, olhando nervoso pelo retrovisor do carro. Elza era a mãe de Telma, sentada do lado do passageiro, e sorriu ao observar o marido apertar forte o volante do carro.

            - Calma, benhê, eles não estão fazendo nada demais.

            Jorge ficou quieto. Telma e Adilson tentaram se conter e cada um olhou para o seu lado na janela do sedã, enquanto passavam pela rodovia movimentada em direção à capital. Os caminhões eram ultrapassados e na pista contrária os veículos passavam zunindo causando um efeito letárgico em Adilson, que segurava forte a mão de sua namorada, sentado do lado esquerdo do automóvel.

                        Assim que o pai de Telma tornou a se distrair com a rodovia, Adilson puxou Telma para si e voltaram a se beijar lânguidamente, trocando saliva, Adilson explorando a boca doce de sua namorada enquanto sua mão sorrateiramente deslizava sobre as coxas da garota de apenas dezoito anos.

                        Mais uma ultrapassagem e Jorge olhou pelo retrovisor e novamente viu o casal trocando amor. Ficou irritado. Olhou o relógio do carro no painel: onze horas.
                        Viu o anúncio de uma famosa churrascaria cerca de dez quilômetros adiante.
                        - Elza, vamos parar na El Corazon, já estou com fome.
                        - Benhê, falta uma hora pro meio-dia. Porque parar tão cedo?
                        - Não tem mais nenhum restaurante bom na estrada até a capital. E estou cansado de dirigir. Vamos parar, já decidi.

                        Jorge deu seta e entrou na via de acesso ao posto e a churrascaria de estrada, bastante conhecida, cheia de caminhões, ônibus e carros estacionados. Achou um canto para estacionar o sedã e logo estavam descendo, Jorge grato por esticar as pernas e tentar separar um pouco aquele casal, raivoso por achar que sua filha estava no cio.           

                        Adilson não desgrudou da namorada. Ambos não tiravam os olhos um do outro, abraçados, enquanto entravam na lotada, mesmo às onze horas da manhã, churrascaria rodízio.

                        Sentaram-se em uma mesa perto do bufê de saladas. Jorge limpou seus talheres com o guardanapo de pano. Observou sua filha, através dos grossos óculos de aro de tartaruga: uma linda jovem de seios como pêras e curvas audasiosas e sentiu raiva por ela já ser uma mulher. Ele a preferia como uma menina ingênua que fora há alguns anos, e não como aquela garota maliciosa que não soltava do namorado estúpido que arrumara.

                        “Eu vou fazer Comunicação. Vou ser jornalista”

                        “Jornalista o cacete” – Jorge olhava com ódio o rapaz de risada fácil. “Nem escrever direito você sabe, e quer ficar com a minha filha?”

                        O garçom aproximou-se:
                        - Desculpe, senhor – disse à Jorge – o rodízio vai atrasar um pouco, coisa de uns vinte minutos, não esperávamos estar lotados logo cedo. Posso trazer as bebidas? Aconselho um passeio pelo nosso jardim nos fundos enquanto esperam. Uma cervejinha, senhor?

                        Jorge ficou ainda mais irritado, mas Elza e seu sorriso bondoso fizeram com que se acalmasse. Bufou.
                        - Traga uma Hervage bem gelada, o que vão pedir?
                        - Pai – Telma fez cara de anjo – eu e o Di vamos dar um passeio no jardim e já voltamos.
                        - Isso, papai, pede um suco de laranja para ela e para mim uma Cola light.
                        Ao ouvir Adilson, Jorge só não espumou porque Elza o deteve.
                        - Querido, deixa os pombinhos passearem e vamos relaxar um pouco, tá?

                        Telma e Adilson saíram pelos fundos caminhar nos belos jardins. O cheiro de carne se sobrepunha ao da vegetação, o que não era muito agradável.
                        - Vem – puxou Adilson – vamos até aqueles calips.
                        - Eucaliptos, ‘mor. Você vai ter de melhorar o português para estudar Comunicação e Jornalismo.
                        - Tanto faz. Vamos.
                        Passaram pelo belo bosque de eucaliptos e araucárias angustifólias e adentraram a vegetação cada vez mais densa até uma pequena cabana de paredes de taipa e teto de sapé.
                        - Aqui, vem. Ninguém vai nos ver atrás da cabana.
                        Trocaram beijos densos e molhados. A mão de Adilson deslizou pela bunda em forma de coração de Telma.
                        - Para, alguém pode vir aqui.
                        - Não vem, não. Seu pai ficou lá bebendo cerveja com sua mãe.
                        Beijaram-se mais com Adilson explorando o corpo da garota.
                        - Tel... Faz uma coisa...
                        - Já disse que quero ficar virgem até casar. Meu pai é muito bravo.
                        - Não é isso. Porque você não ... – E cochichou no ouvido da menina-mulher.
                        - Ah, Di! Eu... Eu acho que nem sentiria prazer fazendo isso. Tenho nojo.
                        - Mas você vai me levar à nuvens, vai me dar muito prazer, e eu sou limpinho.
                        Telma sorriu maliciosa. Porque não? Decidiu que seria divertido. Ajoelhou-se diante dele, na folhagem, atrás da cabana. Abaixou seu ziper, mas antes, lhe disse:
                        - Não vá terminar na minha boca que eu morro de nojo, tá?

                        Fazia o trabalho, sentindo mais prazer em dar prazer ao seu namorado, que arfafa e estremecia, do que a si mesma, mesmo assim estava bem molhada, mas não tirara uma peça de roupa sequer, não tinha coragem, embora desejasse.
                        Então parou e tirou o instrumento da boca.
                        - Não, não para, Tel, não para, por favor!
                        - Escuta, Di, tem alguém gemendo!
                        Adilson ficou meio impaciente mas ouviu o gemido de mulher.
                        - Tem sim. Será que é alguém transando?
                        - Não, seu tonto. Só pensa bobagens! Parece que a pessoa tá gemendo de dor.
                        Adilson vestiu-se e Telma levantou-se e foram mais dentro da mata. Os gemidos ficaram mais fortes, assim como o bater do coração de ambos.

Parte II

                        Devagar, Adilson foi afastando as folhagens avançando mais para os fundos do grande terreno da churrascaria, puxando Telma pela mão. Tentou segurar a respiração acelerada e sentia que sua namorada estava tremendo.
                        Os gemidos e murmúrios de dor ficavam mais fortes a cada passo. Adilson engoliu seco. Telma segurou forte a mão do namorado.
                       
                        Ouviram, estarrecidos, uma voz grossa dizendo:
                        - Essa aqui ainda tá viva, parece que não morre. Tapa a boca dela, que eu não aguento mais ficar ouvindo choradeira.
                        Antes que vissem o que estava acontecendo, Telma deteve seu namorado e sussurou.
                        - Vamos embora daqui, Di.... Vamos embora. Vamos chamar a polícia. Coisa boa não é.
                        - Vamos só dar uma espiada. Nossa, que cheiro forte de carne assada.
                        Ignorando o puxão de Telma e seus avisos, Adilson avançou mais no meio do mato e por fim viram, do alto do morrinho onde estavam, o pequeno vale, nos quintais da churrascaria.

                        O choque daquela visão deixou ambos paralisados e sem reação em um primeiro momento.

                        Vários espetos enormes giravam sobre fogueiras em grandes churrasqueiras. Amarrados e enfiados nos espetos, homens e mulheres nus iam assando lentamente. Alguns visivelmente ainda estavam vivos. Mais além, uma gaiola onde alguns homens e mulheres, também já despidos e bem amarrados, aguardavam serem assados e grelhados nas chapas, amordaçados e desesperados ao assistirem o que lhes aguardava.
                        A mulher que gemia mais alto e que chamara a atenção do casal teve a boca tapada com um guardanapo de pano, com o símbolo da churrascaria bordado nele. Ela estrebuchava espetada no espeto que girava lentamente sobre o fogo.
                       
                        - Corta os bagos do marido dela e joga na chapa que tostado é muito saboroso, você sabe, e serve para o casal na mesa 4 que pediu o couvert especial... – deu uma risadinha. – Se eles soubessem o que é o couvert especial....

                        - Essa mulher não morre, vou jogar óleo quente no lombo para servirmos à pururuca, aí quem sabe ela expira de uma vez. – E assim o fez.

                        Telma desmaiou. Ao cair pesadamente sobre o mato, soltando da mão de Adilson, ela rolou e quase caiu do barranco em direção às churrasqueiras. Seu namorado foi rápido e a segurou, mas a terra caindo e o barulho foi suficiente para atrair a atenção dos churrasqueiros.

                        - Ei, vocês aí!

                        Adilson tentou reanimar Telma, ele mesmo tremendo e engolindo seco, arfando, mas desta vez de puro medo. Batia no rosto dela, que inconsciente parecia pesar uma tonelada. Pegou-a nos braços quando viu os três homens com garfões e espetos na mão começarem a subir na direção deles, e saiu em disparada de volta à churrascaria.
                        Mas naquela direção já vinham dois homens musculosos brandando facões.
                        Virou-se e meteu-se no meio do mato denso em direção à um morro, a adrenalina fazendo com que pudesse correr e segurar Telma em seus braços.
                        Atravessou parasitas e teias de aranha entre galhos espinhosos, que lhe cortavam a testa, e começou a subir o morro com um desespero crescente.

                        Tropeçou em um cupinzeiro e caiu no mato, derrubando Telma entre os arbustos. Ela recobrou a consciência, totalmente desorientada.
                        - Tel, Tel, levanta, temos que fugir, correr o máximo, porque se aqueles caras nos pegam nós vamos acabar nas churrasqueiras!
                        “Caiu a ficha” de Telma e ela entrou em pânico, chorando desesperada.
                        - Eles servem carne humana na churrascaria! Meu Deus! Adilson! Meus pais...
                        - Eles devem estar bem, só vi gente jovem nos espetos, eles não querem carne velha. Nós temos que fugir, sei lá, chegar na estrada, estou ouvindo eles chegando, levanta, Tel!!!!!!
                        Adilson ajudou Telma a levantar-se e ambos emprenharam-se cada mais na mata profunda, subindo o morro, ele mesmo passando a chorar, ela tentando não gritar de pavor e soluçando, ambos correndo o tanto que suas pernas aguentavam.

                        Subiram entre a mata fechada sem um rumo definido, apenas tentando salvar suas vidas. De certa forma a fuga e a adrenalina serviram para acalmar ambos, que agora só se focavam na preservação e em manter distância dos assassinos. Fugiram por muito tempo até o topo do morro e além, mas não conseguiram achar a estrada ou nenhum outro indício de civilização. Duas horas e meia de corrida depois e estavam completamente perdidos. A boa notícia é que não havia sinal dos churrasqueiros.

                        - Di, preciso parar, preciso de água. – Telma tombou na grama da pequena clareira, do outro lado do morro que os separava da churrascaria.
                        Adison caiu de joelhos, totalmente exausto.
                        - Acho que desistiram de nos procurar. Tem água aqui perto, estou ouvindo uma caichoeira.
                        - Eles não vão desistir, Di. Ai, meu Deus, se eles nos pegarem nós vamos ser espetados e colocados naquelas churrasqueiras e vamos ser assados, e os clientes da churrascaria vão comer a gente! – Telma começou a chorar descontroladamente novamente, em pânico.
                        Adilson não disse nada, apenas puxou com violência sua namorada na direção do barulho que escutava e acharam uma pequena cascata. Saciaram a sede na água limpa que descia das pedras do morro. O sol estava implacável naquele fim de tarde e sentaram-se à sombra de uma árvore. Telma agarrou-se ao namorado.
                        - Adilson, me salve, eu não quero morrer! Eu ainda nem vivi, eu quero curitr a vida, e ainda não quero morrer daquele jeito horrível! Por favor, se eles nos pegarem me mata antes, não quero ser queimada viva e ser servida em fatias!
                        Eles ouviram ruídos e berros na mata adiante.
                        Adilson não esperou mais e puxou sua namorada, sem parar e sem olhar para trás, e ambos os jovens voltaram a atravessar o mato como se este fosse de seda. Espinhos e aranhas não eram nada diante do temor aos churrasqueiros.
Parte III:

                        Ouviram automóveis.
                        - A estrada, Tel! Força, se a gente chegar na estrada a gente se salva!
                        Apesar de não conseguirem vê-la, ouviam os carros e caminhões cada vez mais perto na movimentada rodovia.
                        Um último arbusto vencido e subiram por um barranco de terra até o acostamento da estrada. Os veículos passavam zuinindo e o casal fez sinais e pulou, mas ninguém sequer diminuiu a velocidade.
                        - Tel, eles não vão parar. Vamos correr até um outro posto.
                        - Eu vou me jogar na frente de algum carro, Di. Ou então vou levantar o meu top e mostrar os peitos que alguém para, ah, se para!
                        - Não diga bobagem. Vamos!
                        E correram pelo acostamento. Avistaram um posto da Polícia Rodoviária e contentes apertaram as passadas.

                        Ofegantes explicaram aos solícitos guardas rodoviários tudo o que viram e ouviram. É claro que não acreditaram e um deles chegou a fazer teste do bafômetro tanto em Adilson quanto em Telma.
                        O tenente Villar finalmente concordou em pelo menos verificar a churrascaria.
                        - Subam na viatura. Eu sempre almoço no El Corazon e nunca soube de nada errado, a carne que servem lá é picanha, cupim, coração de galinha...
                        - Por favor, seu guarda, - Telma estava totalmente aflita - eu vi uma mulher sendo assada na churrasqueira, eles comem mulher lá!
                        Os outros guardas explodiram em risadas. O tenente Villar demonstrou paciência.
                        - Não se preocupe, cidadã, vamos averiguar.
                        A viatura parou no estacionamento lotado do El Corazon. Todos desceram. Telma estava relutante.
                        - Eu não quero voltar aí.... Chamem os meus pais!
                        - Eu vou com eles, Tel. Olha, seus guardas, vamos primeiro falar com os pais da minha namorada e ver se tá tudo bem, certo?
                        Villar e os outros dois policiais concordaram e os quatro entraram na churrascaria cheia de gente. Adilson avistou Jorge e Elza. Chegou até eles, nervoso.
                        - Eu explico depois. Por favor, saiam. A Telma está lá fora no carro de polícia.
                        Jorge ficou extremamente irritado e colocou-se de pé, apontando o dedo em riste para Adilson.
                        - O que você aprontou? Se machucou minha filha eu te mato!
                        - Calma, doutor – disse Villar. E contou tudo o que Adilson e Telma lhes dissera.
                        - Isso é um absurdo completo. Adilson, você deu drogas à minha filha?
                        Elza levantou-se e segurou os braços do tenente Villar.
                        - Nós nem almoçamos ainda. Estávamos aqui nervosos esperando esses dois que nunca voltavam. Estamos aqui à horas, o gerente saiu à procura deles. Será verdade essa história absurda?
                        - Claro que não, esses dois aprontaram alguma! – Jorge já gritava.
                        Villar fez um sinal e os outros dois policiais seguiram-no, as mãos segurando o cabo das armas no coldre.
                       
                        Chegaram ao quintal da churrascaria. Não havia nada lá. Verificaram tudo. Um dos policiais checou a cozinha, outro experimentou as carnes.
                        Voltaram e sentenciaram aos pais de Telma e à Adilson:
                        - Não há nada de anormal aqui. Nada! Rapaz, quero que você e sua namorada me acompanhem até o posto, que quero interrogá-los. Essa brincadeira vai custar caro à vocês! Venham!

                        Dois dias depois e Telma acordou de um pesadelo. Lavou o rosto, escovou os dentes e desceu tomar café da manhã, já estavam em casa depois dos problemas e da longa viagem de volta.
                        - Ainda bem que você está de férias, né, filha? – Disse Elza ao servi-lhe o leite.
                        - Ainda bem, mãe. Não ia ter saco para ir à faculdade depois de tudo.
                        Elza saiu da cozinha. Telma passou geléia no pão e o devorou, ficara dois dias sem comer e estava faminta.
                        Seu pai entrou sorrindo.
                        - Bom dia, filha, tudo bem?
                        - Sim, pai. O Adilson ligou? Desde que voltamos ele não me liga.
                        - Ele está bem pertinho de você, agora, filha.
                        - Hein?
                        - Gostou da geléia?
                        - Eu... Gostei, tem um gosto diferente.
                        - Pois é. Essa geléia foi feita do cérebro do seu namorado. Em bem que disse que ele tinha o miolo mole.
                        Telma deu um pulo, cuspiu e teve ânsias. Olhou seu pai, chocada.
                        - Como? Pai, não brinca...
                        - Não é brincadeira. Veja ali naquele vidro em cima da geladeira.
                        Telma olhou aterrorizada o vidro enorme sobre a geladeira. A cabeça de Adilson, sem seu cérebro, olhava para ela com os olhos arregalados.
                        Seu grito foi de gelar o sangue. Ela desmaiou.
                       
                        Quando acordou, estava amordaçada. Estava amarrada em sua cama.

                        Seu pai entrou com um açougueiro gordo, com o avental sujo de sangue e segurando dois enormes facões.
                        - Veja, Telma, este é o dono da El Corazon. Ele ensinou eu e sua mãe a apreciarmos carne de primeira. Seu namorado rendeu um belo churrasco.
                        Telma tentou soltar-se e gritar, mas estava bem presa e amordaçada. Ela começou a tremer violentamente.
                        - Bem, sr. Ruffinno, quero-a bem fatiada. Meus amigos vem para a churrascada amanhã e eu e Elza queremos serví-la mal-passada.
                        - Pode deixar. Já preparei a churrasqueira e meu churrasqueiro vai salgá-la bem, nós a assaremos viva em sal grosso.
                        - Adeus, Telma. Tente relaxar enquanto é cozinhada, senão sua carne fica muito dura.
                        Seu pai saiu e fechou a porta. Ruffino desamarrou-a.
                        - Tire suas roupas. Não dá para assar você de roupas. Se ficar calma morre mais rápido e não sofre tanto.
                        Telma mostrou-se passiva e fez que ia tirar a blusa. Mas virou-se, e com rapidez tomou um dos facões de Ruffinno e meteu-lhe no estômago.
                        - Morre você, filho-da-puta! – E enfiou-lhe o facão várias vezes. O açougueiro titubeou.
                        Então, para completa surpresa de Telma, ele se recompôs. Tirou o facão enterrado da barriga. – Tsc, tsc, tsc. Que feio. A comida querendo matar o cozinheiro.
                        Telma começou a chorar:
                        - O... O quê é você? Você não pode estar vivo, não pode!
                        - E não estou. Nem seu pai, nem sua mãe. A churrascaria El Corazon é o local de reunião dos zumbis carnívoros. Nós já morremos, mas um vírus nos fez levantar dos túmulos e viver de carne humana. Só a carne humana nos alimenta.
                        - Não... Não, por favor, não... É um pesadelo...
                        - Sinto muito, querida, mas não é. E não vou ficar discutindo com a comida. Agora, se for boazinha e despir-se, tudo fica mais fácil...

FIM
                       
                       

sábado, 13 de outubro de 2012


O Guardião da Lua


Em uma aldeia em algum lugar da Galícia, em plena Idade Média, morava uma mulher muito bonita e inteligente chamada Igraine. Independente, vivia às turras com o marido brigão que não conseguia domá-la. Um casamento arranjado. De tanto que Igraine se indispôs com seu cônjuge que ele se encheu e inventou mentiras sobre ela ao Conde Bartiüs, que mandava e desmandava no vilarejo.

Acusada injustamente de bruxaria, foi condenada à fogueira. Os habitantes daquela aldeia esquecida pareciam se divertir com isso, e a agarraram em sua casa e a arrastaram do jeito que estava para enorme pilha de madeiras que havia no cento do vilarejo. Seu marido, Dardüs, ria de prazer sádico.
Ela foi amarrada à estaca no meio da pilha e homens encapuzados apareceram com archotes para iniciar a fogueira. Mesmo diante da morte ela era dona de si e permanecia calma, embora interiormente estivesse aterrorizada pelo que estava para acontecer.

- Matem, queimem a bruxa! – Diziam os habitantes ensandecidos da aldeia.

No instante em que o fogo foi aceso e Igraine se encolheu toda, um estranho cavaleiro surgiu do nada. Montava um cavalo negro maior que qualquer cavalo que qualquer um já vira e trajava estranhos trajes, além de uma máscara prateada que lhe cobria toda a face. Sua capa negra era agitada pelo vento daquela noite sombria. Desmontou do cavalo lentamente e seus um metro e noventa de altura deixaram mudos os habitantes da cidadezinha, além do Conde Bartiüs e Dardüs.

Os homens e mulheres que assistiam a execução de Igraine afastavam-se à medida que o estranho cavaleiro passava, até que se aproximou da fogueira. Ergueu a mão e um raio de luz azul extinguiu as chamas.

Todos estavam abismados, inclusive Igraine.

- Bruxaria! Peguem o bruxo! Matem-no! – Gritou Dardüs.

Mas quando os carrascos e os soldados do Conde avançaram sobre o cavaleiro, ele apenas fez um sinal com as mãos, arremessando todos para longe.

Ninguém mais se atreveu a intervir enquanto o cavaleiro subia pela pilha de madeiras e libertava Igraine. Tomou-a em seus braços e a levou para o seu cavalo. Todos estavam mudos. Dardüs ainda tentou uma reação, mas o cavaleiro apenas olhou para ele e o fez tombar de joelhos, tremendo e gritando de dor.

Com Igraine à sua frente, o cavaleiro cavalgou alguns metros e o cavalo começou a subir e criar asas, tal qual um pégaso.

- Quem... Quem é você? – Os longos cabelos loiros de Igraine esvoaçavam com o vento enquanto atingiam as nuvens esparsas e a Lua cheia iluminava a noite de forma magnífica.

Ele apenas fez sinal de silêncio com o dedo diante da boca e continuaram a subir.

Repentinamente uma névoa forte os engolfou. Um forte brilho azul os envolveu. Quando emergiram estavam em uma cidade vazia e em ruínas, que flutuava nos céus acima de uma nuvem negra que parecia sólida. Relâmpagos faziam brilhar as colunas em pedaços e o mármore do chão estava todo riscado.

O cavaleiro tirou a máscara prateada e sorriu. Seus cabelos eram grisalhos e seus músculos bem definidos. Seus olhos castanhos eram fortes e penetrantes. Igraine o encarou surpresa, ela mesma lindíssima, olhos verde-jade e lábios convidativos.

- Sou Émer, o último dos Guardiães da Lua. Nossa cidade foi destruída por... Não importa. O fato é que vi o que houve lá embaixo, em sua aldeia. Como podem querer executar uma garota tão linda como você?
- São ignorantes. Tudo que não entendem é bruxaria. Obrigada por me salvar, eu... Eu nunca mais vou querer voltar àquela aldeia.

Ele sorriu.

- Não a levarei de volta, princesa. Como é seu nome?

- Igraine. – Ela olhou em volta. – Você mora aqui?

- Sim. É uma longa história, que não quero lhe contar agora, haverá tempo para isso depois. Eu a salvei porque a quero como minha amante.

Ela olhou-o de olhos arregalados. Ia dizer alguma coisa, mas ele tapou-lhe a boca.

- Não existe mais ninguém da minha espécie. Antes que fale, quero que saiba que é livre para ir embora, e eu a levarei para onde você quiser.

Destapou-lhe a boca. Ela apenas o observou por um longo momento. Depois olhou para baixo, não dava para ver nada na escuridão da noite, além das nuvens e relâmpagos.

Voltou a olhá-lo. Mediou de cima abaixo.

- Eu não tenho mais nada nesse mundo, mas... As coisas estão indo rápidas demais, não acha? Você me salvou da morte horrível de ser queimada viva e é lindo... Porém pode ser pior que meu marido lá embaixo.
- Isso você descobrirá com o tempo. O que posso dizer-lhe é que tenho pressa. Estou morrendo. Minha espécie não vive mais que vinte anos. Meu tempo está acabando. Não tenho mais que um mês de vida.
Igraine mordiscou o lábio, assustada. Estava certo que aquele cavaleiro era maravilhoso e a salvara, porém entregar-se a ele sabendo que ele morreria em um mês...

- E então? Quero que me ajude a salvar minha linhagem. Mesmo mestiço, nosso filho carregará minha herança.

- E depois? O que será de mim?

- Se aceitar minha oferta, terá a riqueza de meu povo. E será acolhida pelos zereus, um povo aliado. Será uma rica rainha. Por favor, seja minha amante, nem que seja por apenas uma noite e nada mais.

Ela o encarou e ficaram em silêncio por um tempo que parecia infinito.

- Está bem. Serei sua amante. Mas será por uma noite. Cuidarei de seu herdeiro – ou herdeira – você me salvou a vida e lhe devo isso.

Émer foi muito romântico. Candelabros iluminaram uma refeição saborosa regada a vinho. Ele era divertido, contava piadas, e dizia coisas que ela sempre quis ouvir, que seu próprio marido jamais lhe dissera. Não tardou para que se apaixonassem, em tão pouco tempo. O primeiro beijo deixou ambos enebriados.

Quando ele a despiu, ela sentiu-se um pouco envergonhada, porém ele logo a deixou a vontade. Ele era hábil e Igraine sentiu coisas que nunca sentira na vida. Beijavam-se com vontade. Amaram-se no início lentamente, sem pressa, porém logo faziam amor de forma exuberante, em todas as posições, e Igraine simplesmente estava nas nuvens, embora literalmente estivesse realmente nas nuvens.

Quando amanhecia e os raios solares entravam enviesados pelas enormes janelas do quarto luxuoso – embora em ruínas – de Émer, eles finalizaram o jogo de amor e se entregaram a um sono profundo.

Nos dias que se seguiram apenas comiam quando lhes dava fome, bebiam quando lhes dava sede, riam lendo manuscritos, cantavam e se amavam. Faziam amor em todos os quantos da cidade, de todos os jeitos, se beijavam, se abraçavam, contavam histórias maravilhosas um para outro.

Eles viviam. Apenas os dois. Faziam o que gostavam. E faziam amor.

Tempos depois, as regras de Igraine atrasaram. Ela correu procurar Émer, não se continha de felicidade. Estava grávida!

Contudo, apenas encontrou uma carta;

Chegou a minha hora. Mas não chore, minha rainha. Cuide bem de nosso filho. E, agora que aprendeu a viver, viva intensa cada momento. Nascemos para sermos felizes. Faça o que gosta. Viva! Deixe para trás tudo que lhe estraga a alma, esqueça tudo que lhe traga infelicidade e viva! Eu sempre te amarei e te esperarei na Eternidade, e quando chegar a hora juntar-se-á a mim para todo o sempre”
            

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Dois Blogs sensacionais que recomendo:

Da Andressa Santos:

www.leituradeouro.blogspot.com

E do meu amigo Aldemir:


Ambos muito bons!

Queria dizer tantas coisas, muito mesmo, anda direi, queria poder fazer tantas coisas e espero que um dia ainda faça, porque infelizmente a vida e muito curta e a espera é torturante.

Existem coisas que não esperamos. Muitas vezes achamos que a trilha é uma reta e nos acomodamos seguindo sempre em frente, porém de repente aparece um caminho lateral que não sabemos onde terminará. Olhamos em frente e só vemos a mesma paisagem. Olhamos para o novo caminho e divisamos uma paisagem enevoada que parece maravilhosa, mas não podemos distinguir com certeza.

Suspiramos. Para onde seguir?

Para permanecermos confortavelmente anestesiados - como a música do Pink Floyd - seguimos em frente.

Para sentirmos vivos de verdade, independente do que haverá além, seguimos o novo caminho.

E Depois?

domingo, 23 de setembro de 2012


PAGANDO OS PECADOS



                Olá, pessoal. Hoje está quente aqui. Estou num dos meus raros momentos de descanso, observando esta maldita prisão de um dos seus pavimentos superiores. Vejo os meus colegas prisioneiros sofrendo, milhares deles, em torturas indescritíveis. Já lhes disse o quanto está quente hoje? Mais do que nos outros dias. Que calor! Mas veja lá, aquele pobre homem, tendo de carregar aquela enorme bola de ferro maciça... Ele era jogador de futebol. E aquela garota linda? Foi currada tantas vezes que agora só olha o vazio... Prisão dos infernos! Ah, ah, ah, ah, só rindo mesmo.

                Aqui é claustrofóbico. O suor me arde nos olhos. Ei, vejam ali um amigo meu, sujeito infeliz. Era advogado. Agora é obrigado a ficar preso, ajoelhado todos os dias, o dia todo. E aquele outro lá embaixo, vê? Era o garanhão da turma... Aqui nesta prisão que o Universo esqueceu, ele é sodomizado a cada duas horas... Pobre coitado... Mas como está quente, hoje!

                Maldito lugar dos infernos! Ah, sim, você quer saber como eu acabei aqui? Bem, primeiro preciso dizer-lhes que mereci. Mas vamos à minha estória...

                Era uma manhã qualquer de um dia qualquer e eu caminhava em direção ao prédio onde ia atender um cliente... Que cliente? Não importa... Eu fazia consultoria administrativa, sabe? Dizia que impostos pagar, quais sonegar, que funcionários cortar... Enfim, como eu ia dizendo, caminhava em direção aquele enorme edifício na Avenida Paulista, em São Paulo, de terno e gravata, segurando minha maleta 007 e feliz porque ia comprar um carro importado... Um sedã de luxo... Lembro-me bem que um menino maltrapilho pediu dinheiro na porta do prédio e eu lhe dei "um chega para lá", irritado... Esses mendigos... Deviam morrer todos, não acham?

                De qualquer forma, entrei no prédio e fui ao escritório... Ah, que linda manhã... Tenho saudades de manhãs assim, azuis, frescas, com aroma de café. Aquele dia foi um dia agitado, porém comum. Reuniões, decisões, oh, aquele funcionário precisa do emprego? Que se dane. Mandei que o boicotassem até que pedisse demissão... Para que pagar os direitos dele? Vive de aluguel com quatro filhos? Idiota, quem mandou fazer tantos filhos?

                A Glorinha do setor de cobrança era, como direi? Uma penosa. Passei uma cantada nela e fomos almoçar juntos. A jumenta amiga dela bem que queria ir junto, mas mandei a mocréia passear. Minha família? Lembro-me que sorri de modo maquiavélico quando deixamos o motel, à tarde... Minha mulher nunca descobriria...

                Enfim, um dia comum. Até a hora de sair, onze da noite. Várias coisas me detiveram no serviço, e eu detestava sair tarde. Tinha medo. Andei depressa até a estação do metrô, estação Trianon. A avenida estava agitada, mas São Paulo era assim mesmo, nunca dormia... Desci as escadas correndo, comprei o bilhete magnético, mas na plataforma quase vazia nada do trem aparecer. Consultei meu Rolex de ouro: quase meia noite! Cadê o maldito trem? Um funcionário do metrô surgiu para anunciar que as operações de trens estavam suspensas devido à um acidente, e que só amanhã as linhas estariam restabelecidas.

                Estarrecido, perguntei-lhe o que deveria fazer, uma vez que eu precisava chegar ao Terminal Barra Funda. Meu ônibus saía de lá, eu morava no interior, em Itapetininga. O bom homem sugeriu que pegasse um ônibus urbano, três quarteirões descendo a Paulista. Subi às pressas ao nível da avenida, caminhando a passos largos à procura de um táxi. Mas então notei, nervoso, que tinha esquecido de tirar dinheiro e dispunha apenas de vinte reais na carteira... Um táxi para Barra Funda ficaria mais caro do que isso. Meu cartão de banco ficara com minha mulher.

                Caminhei pela larga calçada à procura do ponto de ônibus, e de fato estranhei que a avenida estava agora um tanto vazia. Muito vazia? Sim, suponho que nem em feriados estivesse tão calma... Os carros estavam cada vez mais raros, transeuntes escasseavam, e meu lábio superior tremia enquando eu divisava um papel solitário, carregado por um súbito vento quente, naquele início de madrugada.

                Uma pessoa veio em minha direção e a idéia de assalto assaltou-me a mente, então comecei a correr. Mas o sujeito veio atrás de mim! Incomodado pelo peso de minha maleta, sentia meu coração a participar de uma corrida de fórmula um, tão acelerado que estava. Porém logo aquele sujeito de óculos grandes segurou-me e vi que estava tão ou mais assustado que a minha miserável alma.

                - Olha amigo, estamos os dois aqui sozinhos... - E estávamos mesmo, agora não havia ninguém, exceto os paquidermes e dinossauros de concreto que nos olhavam com suas janelas. - Amigo, ouça-me... - Era o rapaz, um tanto jovem, um tanto de cabelos encaracolados. - Precisamos ficar juntos. Algo estranho está acontecendo! Vamos pegar o primeiro ônibus que passar e sair daqui. Estou com medo!
                E eu também estava, claro, mas nada disse ao infeliz. E, juntos, achamos um ponto de ônibus, ledo abrigo com seus cartazes publicitários numa ode ao capitalismo. E eu estava tremendo e suando frio, a Avenida Paulista vazia, agora total e completamente vazia. Ninguém!

                - O que será que está havendo? - Perguntei eu. - Nunca vi São Paulo tão quieta.
                - Algo de muito sério, amigo. Algo de muito sério...
                E nada de ônibus, e nem sequer um automóvel mais passava por ali. Apenas algumas luzes nos prédios enormes e os semáforos, testemunhas silenciosas de nosso crescente pânico.
                Uma hora da manhã. Temendo pela vida de meu Rolex de ouro, disse ao meu novo amigo:
                - Vamos andando. Ficar parado aqui é loucura. Vamos descer a avenida e procurar alguém, ou até mesmo algum restaurante aberto, loja ou shopping.
                Dessa forma começamos a andar depressa, olhando para todos os lados em sobressalto, e confesso que estava com muito, muito medo. Não andamos muito e ouvimos uma enorme gritaria e muito barulho.
                - O quê será isso, amigo? - Perguntou meu sócio na Desgraça S/A.
                - Vidros quebrados, gritaria... - E então engoli a saliva que se juntara em minha boca: - Ah, meu Deus! Um arrastão! Rápido, corra!
               
                Bandidos, facínoras, criminosos, pivetes, todo o tipo de marginal subia a avenida, quebrando e saqueando tudo o que viam pela frente, e corremos na direção oposta, eu, de terno, gravata e maleta pesada, meu Sancho Pança quase chorando, num ato desesperado. Estávamos aflitos... Se nos pegassem... Oh, como fiquei com medo naquele instante! Ah, será que eu estaria vivo para comprar meu carro novo amanhã?
               
                Eles estavam nos alcançando, e corremos por nossa vidas. Larguei a pasta... Só documentos e CDs de dados mesmo... Corremos, um coração é capaz de passar pela garganta? Corremos, corremos, tirei minha gravata, corremos... A turba enfurecida quebrava vidros, arrasava carros, saqueava vitrines, e gritavam como selvagens, como vândalos.
                Sem mais conseguir correr, entramos pelos jardins de um prédio de apartamentos e nos escondemos em uma reentrância, enxugando o suor de nossos rostos e nossas línguas podiam sentir o sabor sujo daquele chão.
                - Ah, meu Deus, nós vamos morrer... O que está havendo em São Paulo? Cadê a polícia?
                Eu respondi e minha voz saiu entrecortada pela minha respiração acelerada: - Eu não sei... Vamos ficar quietos... Talvez não nos tenham visto e não nos achem aqui...
                Porém logo começaram a quebrar a portaria, próximos a nós, que estávamos na lateral do edifício. E não demorou muito para nos encontrarem.
               
                Novamente correndo. Uma porta lateral! A salvação? Não! Era de vidro, quebrado sem piedade por nossos algozes, homens de cores que eu detestava, com meias nas cabeças, a gritar. Que horror!
                Tomamos o elevador. Tenho agora a nítida impressão que aquele realmente não era meu dia de sorte. O elevador ficou descontrolado e começou a subir com muita rapidez, fazendo com que caíssemos no chão, e observei, horrorizado, os números mudando em alta velocidade em direção aos céus. Pensei que estava vivendo um pesadelo e belisquei-me, mordi-me e meu inusitado amigo olhou-me, talvez pensando que eu havia enlouquecido.

                Com um baque surdo paramos no último andar. Eu estava em frangalhos. Mas estávamos a salvo, por enquanto. A porta abriu-se e aquele lugar era onde ficava a maquinaria do edifício, onde as máquinas de ar-condicionado funcionavam e as caixas d'agua descansavam
                - Meu Deus... Será que podemos nos esconder aqui? - Perguntei, sentindo minha boca seca, e larguei longe meu terno. Abri minha camisa. Meu Barney tremia das cabeças aos pés.
                Contudo, antes que tomássemos alguma decisão, a porta do elevador ao lado do nosso abriu-se. Mais marginais. Urravam com facas e facões em punho, ávidos de sangue. Corremos de novo, desesperados, aflitos, quase a chorar e a suplicar por ajuda. Abrimos uma porta e as escadas se ofereceram, e foi por elas que descemos, e descemos, e descemos... Já tentaram descer escadas infinitas perseguidos por pessoas que querem seu escalpo? Não? Experimentem, faz a adrenalina saltar pelo seus olhos...
               
                Gente subindo. Ajuda, pensei. Mas qual! Mais bandidos. Vi nos olhos de um deles a morte que queria nos pegar. Hoje não, Dona Morte! Entramos por uma porta em um dos andares, vigésimo, creio eu. Andamos, batemos nas portas daqueles apartamentos cegos, surdos e mudos.
                Meu comparsa no desespero ajoelhou-se diante de uma daquelas portas e chorou, esmurrando a madeira. Ergui-o, ainda me restava a dignidade, arrastei-o pelo corredor, pois que agora os Homens do Mal estavam próximos. Corremos. Dobramos a esquina do corredor. Corremos pelo corredor... Redundante, não? Vocês podem imaginar a minha aflição, o meu medo ali, naquele lugar? Ah, não, acho que não. Sabem, o temor de morrer estraçalhado, ser humilhado por pessoas horrendas é algo indescritível, então apenas tentem imaginar, porque não perderei meu tempo em descrever meu pânico. Só digo-lhes que meu Starsky tinha se mijado todo.

                Havia um corredor cheio de portas, uma na sequência das outra, sem fechaduras. Fechávamos uma e eles abriam outra, facas entre os dentes. Que estranho, lembro-me que pensei na hora com meus botões de minha suada camiseta Armani, esse corredor parece não ter mais fim, parece na verdade que nem estamos mais naquele edifício que havíamos entrado! Nossa mente pode pregar peças quando estamos em perigo.

                Então uma linda mulher, de pele negra luzidia e cabelos curtos cortados tipo tigela, emoldurando um rosto de olhos de jabuticaba, estava à nossa frente. Vestia uma saia de classe e estava tão assustada quanto nós.
                - Puxa vida... O que está acontecendo?!! - Perguntou.
                Respondi-lhe, tentando ser o homem corajoso que eu não era:
                - Um arrastão monstruoso atrás de nós. Tem alguma saída daqui?
                - Sim, venham, existe uma escada de emergência contra incêndio atrás daquela porta, podemos descer e sair pelos fundos do prédio!
                Eles estavam nos nossos calcanhares agora. A última porta tinha um trinco daqueles de girar. Eu tremia tentando fechá-la, eles empurravam a porta, a negra e meu amigo tentando ajudar-me, seríamos pegos, a porta não fechava, a maldita!
                Mas fechou. Teríamos algum tempo antes que aqueles malvados conseguissem arrombá-la... Descemos então a estreita escada de emergência, meu amigo Garfunkel perdera os óculos, minha deusa negra segurava a minha mão... Aquela mulher salvadora e linda fizera com que eu esquecesse temporariamente meus preconceitos.
               
                Pelos fundilhos do prédio, calmo e tranquilo na madrugada quente do verão paulista, saímos. Estávamos salvos, afinal.
                Andamos por um jardim escuro e saímos em uma rua bem iluminada e agora alguns carros passavam ao longe. Caminhamos apressadamente, em silêncio, minha Dama de Ébano a tremer, meu Tonico enxugando o rosto com seu lenço.
                Avistamos então uma rua mais movimentada e uma praça de táxis. Suspiramos intensamente. Salvos, afinal. Livres. Libertos do pesadelo.
                Perguntamos ao primeiro da fila:
                - O que está havendo em São Paulo?
                O motorista, um senhor grisalho, magro e de óculos frágeis, pareceu não entender:
                - Havendo? Que eu saiba, nada...
                Segurei o nobre homem pelos colarinhos da camisa puída:
                - Mas estava tendo um arrastão na Avenida Paulista!
                - Um arrastão? Ué... Eu não estou sabendo de nada... O rádio está ligado e não houve nenhuma notícia. Não está havendo coisa alguma, amigo... Olhem em volta, vêem alguma coisa de anormal?
                E não havia nada mesmo, apenas o trânsito, buzinas, pessoas, tudo na mais santa paz. Nós três nos entreolhamos.
                Bem, pensei, talvez estivesse mesmo ficando louco. Ou talvez a notícia não tenha chegado às rádios. Ou até aquela praça, embora estivéssemos à poucos metros da Paulista...

                Virei-me para Pérola Negra e para Robin:
                - Escutem, você viram o mesmo que eu, não viram?
                - Claro... - Disse o doutor Watson. - Até me mijei todo... Eu não estava sonhando...
                - Nem eu! - Desta vez foi Olhos de Jabuticaba quem falou. - Aqueles marginais iam me estuprar, com certeza! Não, temos que ir embora daqui, nunca mais volto à São Paulo!
                - Mas eu só tenho vinte reais! - Afirmei, exibindo para eles minha carteira que eu comprara em Paris.
                - E eu não tenho nenhum tostão! - Disse Barrichello.
                - Eu tenho uma nota de cem!
                Salvo novamente pela Orquídea Negra. Preciso rever meus conceitos...               Tomamos o táxi. Finalmente pude relaxar. Decidi que no dia seguinte iria entrar com um processo contra a prefeitura por tudo aquilo. E aquela mulher linda no banco da frente, eu lhe passaria uma cantada, levaria para um motel e depois a chutaria...

                Andamos alguns quilômetros quando entramos no túnel do Anhangabaú. Mas aquele túnel apenas descia, e descia... Algo estava errado, cadê o fim do túnel? Meus novos amigos também perceberam que aquilo não era normal.
                - Motorista! - Bati em seu ombro. – Motorista! O que houve com este túnel? Ele está diferente!

                A Whitney Houston berrou... Um grito estridente. Posso afirmar-lhes que fechei os olhos com o som agudo martelando em meus ouvidos.
                O suave senhor motorista daquele táxi virou-se. Tinha a pele vermelha, chifres e língua bipartida. Sorriu com os caninos enormes de fora, e tudo tornou-se quente. O túnel teve as paredes tingidas de sangue.
                - Olá. Sou um dos filhos de Lúcifer, e este é o táxi para o inferno!
                Dos bancos, tentáculos vermelhos e quentes saíram do nada e começaram a nos espremer. Donna Summer berrava enquanto era estraçalhada no banco da frente, Póllux ao meu lado olhou-me com desespero até que seus olhos espirraram para longe.
                Antes de morrer esmagado pelos tentáculos, em meio a uma dor lancinante, ainda ouvi nosso motorista dizer:
                - Viemos buscar toda a Humanidade. Duvido que alguém preste neste mundo, concorda comigo?
                Mas, como poderia responder-lhe, se meu corpo transformara-se em apenas orgãos retorcidos?

                Pois é, amigos. Eu lhes disse que esta prisão é dos infernos! Bem, é o próprio inferno... Nem Dante imaginou algo tão horrendo. E como faz calor aqui! Como eu me sinto? Hã... Sei lá... Nada de mulheres, móteis, carros de luxo... Apenas sentar no colo de um demônio todos os dias... Hummm, vou lhes dizer, é bem dolorido... Ser todo cortado com lâminas e depois passar sal pelo corpo, e então tomar banho de álcool... Ah, não se preocupem, a gente não morre... Já estamos mortos, de qualquer forma...

                Bom, até logo. Vejo vocês por aqui em breve, hein?