segunda-feira, 21 de março de 2011

Devagar.... Mais ativo

Devido ao volume de serviço, parei de escrever por um tempo o Diário Secreto de Solange, mas retomarei assim que as coisas acalmarem por aqui... Abraços!!!

sábado, 4 de dezembro de 2010

O Diário Secreto de Solange - Cap. 5

Capítulo 5:

Lembro que nas semanas seguintes eu estudei muito, embora minhas notas estivessem sempre na tangente do vermelho. Só ia bem mesmo em matérias que tinham a ver com programação de computadores.
Solange sempre frequentava os showzinhos do Antunes aos finais de aula e era quando eu via o namorado dela vindo buscá-la, os dois se beijando e ela indo embora abraçada com ele. E meu coração perdia mais um pedaçinho. Porém, até então, sequer podia imaginar o que iria acontecer no futuro. Creio que ninguém, nem mesmo o namorado dela, sabia dos segredos que Solange ocultava.

As férias de julho daquele ano foram frias e sem nada de especial que eu me lembre. Passaram voando. Agosto chegou sucessido por um monótono setembro. Mas em outubro, quando Aloísio, o rapaz que até então eu não conhecia, voltou a morar na nossa república, foi que a minha vida começou a mudar.
Aloísio era feio, cheio de cicatrizes, sua barba estava sempre por fazer e fumava sem parar. Tinha o olho esquerdo meio torto. Cheirava à álcool e era musculoso mas um pouquinho acima do peso.
- Então você é o Flávinho. Ai, cuidem do meu Flavinho... – ele desmunhecou e falou fininho. – Sua mãe falou assim, seu viadinho. Mas escuta aqui, é bom ficar na sua, entendeu... Flavinho?
- Eu tô na minha, cara. Deixa eu em paz.
- Tá. Só ouve o seguinte: se vir qualquer coisa aqui que ache estranha fica na sua e faz que não viu. Eu não ia querer ver sua mãe sofrendo por causa do filhinho, entendeu, ô viadinho?
Eu estava deitado na minha cama e virei-me de costas para ele, cobrindo-me.
- Entendi, sim, pode deixar. Deixa eu em paz e não sou viadinho.
Aloísio saiu da quitinete e quando voltou, estava com Natanael e do quarto ouvia eles rirem alto e conversarem na sala sobre as drogas que iam arrumar e quem dos amigos deles havia morrido baleado. Assustado e tremendo, me cobri mais ainda. E ouvi estarrecido que Aloísio estivera longe todo este tempo porque estivera preso. Que merda de república minha mãe arrumara para mim!
Mas no fim de semana seguinte eu nada comentei com meus pais de medo, puro medo. Meu irmão Fúlvio tinha quebrado meu fone-de-ouvido e fiquei muito irritado.
- Ful, cacete, isso aí me custou duas mesadas. Você vai ter que me dar outro!
- Ah, vai pedir pra mamãe. Eu não tenho nenhum pila, gastei tudo nuns modelos da Revell que vou montar. Foi sem querer.
Pedi o dinheiro para minha mãe. Sua resposta foi mais grossa que curta:
- Nós já pagamos sua república e sua faculdade e ainda te damos uma mesada que dá para você comer e passear. Não temos dinheiro sobrando, não.
- Mas, mãe! Foi o Fúlvio quem quebrou o meu fone-de-ouvido!
- Não tenho dinheiro para isso, Flávinho. Depois quando puder você compra outro. Agora não me atrapalhe que tenho de sair para ver umas amigas.
Naquele domingo eu saí cabisbaixo de casa indo ao fliperama jogar. Não vi os três rapazes, um branquelo e dois mulatos, que me seguiam. Quando entrei por uma rua deserta perto do cemitério, naquela tarde nublada, eles me atacaram e começaram a arrancar tudo o que eu tinha: meu relógio, carteira, meu tênis (que não era caro).
- Aí, moleque, fica na tua e sai correndo senão te arrebentamos! – Disse o branquelo, feio e magro.
Descalso, só de jeans, tentei correr mas um dos rapazes mulatos me passou uma rasteira e eu caí com o queixo na sarjeta. Levantei-me com um talho nos lábios. Passaram a me chutar e só me lembro que desmaiei.
Acordei em um pronto-socorro. Meu corpo todo doía. Meus olhos estavam inchados então olhei com dificuldade para os meus pais, aflitos.
- O que aconteceu, Flávio? – Perguntou meu pai, de mãos no bolso.
- Uns caras me assaltaram perto do cemitério. Depois me espancaram.
- Ai, filho! – Minha mãe estava chorando. – Já te falei para não sair por aí assim, sozinho. Cadê seus amigos?
- Eu ia encontrar com o Rafa no fliperama. Era de tarde, não tinha escurecido ainda, mãe. Não vi os caras chegarem em mim!
Um médico com cara chupada e de olhar indiferente aproximou-se com uma prancheta e disse ao meu pai:
- Ele vai ficar bem. Não quebrou nada. Tem apenas alguns hematomas, mas como desmaiou gostaria que ficasse sob observação aqui esta noite.
- Pai, amanhã tenho Educação Física logo cedo!
- Flávio! Você está bem machucado! Vai ficar aqui esta noite e amanhã não vai para Campinas.
- Mas, pai! Não posso perder a aula de Educação Física! Já tenho muitas faltas!
E não podia mesmo. Eu detestava Educação Física e falta muito. Não podia faltar mais sob risco de ficar com essa matéria como dependência.
O doutor sacudiu a cabeça. Minha mãe segurou minha mão.
- Flávio, você vai dormir aqui e amanhã vai descansar em casa. Terça eu te levo para Campinas e falo com o seu professor de Educação Física.
- Mas, mãe! Deixa que eu me viro na faculdade!
Dormi aquela noite internado no hospital, chorando de madrugada por tudo que estava acontecendo em minha vida, e na terça minha mãe me humilhou ao levar-me na faculdade tratando-me como criança em frente aos meus amigos. Mas salvou-me da reprovação em Educação Física, convencendo meu professor a anular minhas faltas.
Solange era a única que não caçoou de mim sobre as atitudes de minha mãe durante as aulas daquela noite. E quando ela me olhou com um misto de indignação pela atitude dos outros e pena de mim, decidi que estava mais do que na hora de mudar. Mudar de atitude. Mudar de vida.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O Diário Secreto de Solange - Capítulo 4

Capítulo 4:

Mesmo tendo vinte anos e alguns amigos, eu não saia de sábado. Não tinha carro, não tinha moto, não tinha papo, não tinha vontade. Colocava em alguma estação de FM e ficava gravando músicas em fita cassete e me imaginando em alguma danceteria dançando – coisa que eu não sabia – com Solange. Namorando a Solange.
Aquele domingo passou rápido com a visita costumeira da minha tia e a tarde eu sempre saía para jogar fliperama, uma das poucas coisas que sabia fazer bem.
Lembro-me de arrumar uns trocados para comprar uma Playboy e esconder sob a camiseta. Depois quando fui tomar um banho à noite, homenageei a Solange imaginando-a no lugar daquelas modelos das páginas da revista, solitariamente me satisfazendo, na primeira vez que ousei imaginar algo mais quente com ela.

Na aula de Álgebra I, com a professora “Crocodilo”, plena quinta-feira, lá estava ela. Concentrada, mordendo a ponta do lápis... Eu queria ser aquele lápis... Contudo, exceto pela entrada ou saída da aula, ela ignorava minha existência. O Márcio dissera que já a vira com um namorado que a vinha buscar de Voyage azul metálico.
No intervalo das aulas fui comer um X-Salada na lanchonete da faculdade e sentei-me com o Márcio e o Otelo, ambos devorando seus lanches com velocidade.
- E então, amigão. – Márcio falou com a boca suja de maionese. – Já conseguiu pelo menos conversar com ela? Ou ainda está só no “oi”?
- Acho que nem no “oi” – Otelo deu uma risadinha.
Eu apenas devolvi um sorriso sardônico.
- Ah, bom, acho que nem vale a pena. Ela tem um namorado, certo? Que tem um Voyage. Eu nem tênis bom tenho. Então, nem vou perder meu tempo.
- Mas é um tonto mesmo. Vai lá, Flávio. Ela é legal, não vai sair correndo de você. O máximo que ela pode fazer é te dar um pé na bunda.
- Márcio, você tá doidinho para falar com a Márcia Bellini e não tem coragem também, então não fica pressionando. A hora que eu sentir vontade de falar com ela, eu falo, tá?
Otelo deu outra de suas risadinhas em meio a mordidas em seu X-Tudo:
- Vontade você já tem, falta coragem!
Suzana Fontes, a milionária da classe, muito simpática por sinal, alegre e extrovertida - uma amiga para todas as ocasiões - aproximou-se com sua inseparável amiga Kássia, igualmente simpática.
- Então, povo, que tal a gente ir na Stratosfera hoje? Vai tocar um grupo novo lá que eu nunca ouvi falar, de New Wave, mas bem legal, parece que se chamam os Titãs.
- Ah, é – eu conhecia a nova banda – Tem aquela música legal deles, Sonífera Ilha. Eles vão tocar aqui? Que fera. Queria ir sim.
- Eu também – disse Márcio – E o nosso amigo Otelo vai querer também, mas nós vamos ter de ir de Mercedes com motorista.
Kássia ficou supresa: - Mercedes com motorista?
- Ele está falando do buzum da C.C.T.C. que é Mercedes, Kássia. – Disse Suzana, não achando graça na brincadeira. – Olha, eu pego vocês, tá? Vamos juntos.
- Mas eu tenho que ir para Jundiaí, o último ônibus é a meia-noite!
- Dorme na minha república, Otelo. – Márcio já se pôs de pé alisando a barriguinha proeminente. – Pode dormir no sofá que os caras não vão achar ruim. Bom, gente, vou pegar outro X-Tudo que aquele primeiro não deu nem para cova do dente.

No fim da aula daquela noite fui até a minha república, que estava vazia, e coloquei meu melhor jeans e uma camisa azul petróleo com gravata de crochê branca, bem na moda da época. Dos meus amigos de república, eu só havia conhecido o Natanael, o outro cara eu nem sabia quem era e até então não aparecera.
Suzana parou o seu Fiat Prêmio azul escuro novinho em frente ao meu prédio pontualmente às onze horas e Kássia, Márcio e Otelo já estavam nele. Excitado por sair com amigos, não vi a poça d’agua e sujei meu dockside e a barra do meu jeans, mas não me preocupei. Era uma das primeiras vezes que saia com amigos, embora em Salto, quando era pré-adolescente, saía muito à noite. Saia a pé, andar pela 9 de Julho, ver as lojas e ficar conversando bobagens de pré-adolescente.
A danceteria Stratosfera ficava na rua Paula Bueno em Campinas, e era incrível, pelo menos para mim, virgem em sair para lugares assim. Lembro que estava tocando Blitz quando entramos, Mais Uma de Amor. Começamos fingindo que dançávamos, nós cinco. Eu estava muito feliz! Saindo pela primeira vez!
Foi então que outro momento mais que mágico aconteceu. Ela!
Solange Pereira Carvalho. Ela entrou vibrante, vestida com um tubinho preto, glitter no rosto e de mãos dadas com um sujeito gostosão de cabelos espetados.
Meu mundo girou. Como uma menina podia ser tão bonita? Tão sensual?
- Acorda, bananão. – Márcio me sacudiu. – Ela é muito caminhão para sua areia.
- Não seria o contrário? – Otelo deu sua risadinha.
Kássia e Suzana já haviam nos abandonado à própria sorte, cada uma conversando com um rapaz diferente. Agora éramos só os três e fiquei com os olhos vidrados em Solange, que não me vira. Os Titãs em começo de carreira entraram no palco.
Eu pulava de qualquer jeito finjindo que sabia dançar. Meus olhos não conseguiam deixar de acompanhar Solange. Ela dançava muito bem junto com o rapaz, e em um momento fugas ela me viu, porém virou o rosto e fez que eu era um completo estranho. Mesmo no auge do show, quando os Titãs tocaram Sonífera Ilha, eu me sentia um morto-vivo com a auto-estima abaixo da linha do zero.
Voltamos a pé para nossas repúblicas na madrugada fria, abandonados pela Suzana e pela Kássia, que haviam arrumado dois “rapazes interessantes”.
Naqueles idos dos anos 80 do Século Vinte andar à noite por Campinas não era correr risco de ser assaltado ou até morto. Só sei que ao chegar em minha quitinete, encontrei Natanael de péssimo humor.
- Fica bem longe de mim, sua bichinha, porque hoje eu arrebento um se puder! - E socou a parede deixando um desnível nela. Passou a chutar tudo e então colocou um disco de vinil no três-em-um da salinha com uma música sertaneja horrível em alto volume. Simplesmente não pude pregar o olho a noite toda, e nem me atrevi a falar nada com medo de levar um soco e ter meu rosto amassado como a parede.
Eu soube depois que a namorada do Natanael o havia deixado.

sábado, 9 de outubro de 2010

O Diário Secreto de Solange - Cap. 3

Capítulo 3:

A parte que me interessava mais na faculdade era tudo que tinha a ver com computadores: programação, algoritmos, projetos. Detestava e ainda detesto matemática, cálculo, geometria e estatística. As minhas primeiras provas nestas últimas matérias eram tingidas de vermelho. Porém começava a me destacar entre os colegas no domínio dos novíssimos Cobra-320 e Cobra-520, os computadores do CPD da minha faculdade.
Eu aprendi com extrema rapidez a programar em Cobol, Mumps e a mexer no sistema operacional SOD tão bem que minhas notas eram 9,0 ou 10,0 nestas matérias.
E o semestre voava. Voltando à minha turma, logo fiz amizade com o Otelo, um grande amigo da Bolívia. E o Márcio, o sujeito que eu admirava porque parecia saber de tudo um pouco. Também era o nosso fornecedor de disquetes, programas “alternativos” para Apple II e picotex para furar disquetes de 5 ¼” e poder usar o outro lado.
Logo o trio estava sempre junto. Infelizmente não havia vaga na república do Márcio e o Otelo morava em Jundiaí, uma cidade próxima à Campinas, então tive de me contentar em viver em uma quitinete com mais dois desconhecidos que sequer faziam o mesmo curso que eu.

Lembro-me do primeiro dia na minha república. Claro como se fosse ontem. Cheguei às onze e meia da noite de uma sexta-feira, vindo da faculdade com o ônibus vermelho da C.C.T.C. e estava exausto. Aulas de Álgebra I e Cálculo I haviam reduzido meu cérebro a um amontoado de sinapses sem sentido.
A porta estava trancada. Eu tremia. Não conhecia meus dois novos companheiros porque todo o trâmite de alugar o apartamento fora feito por minha mãe. Eu só sabia o endereço que estava em um pedaço de papel e mais nada, então imaginem o que eu sentia naquela hora...
Abri a porta com minha chave e acendi a luz. Era uma quitinete cinza e comum no sétimo andar de um prédio na Barão de Itapura. Na pequena sala havia apenas um pequeno sofá verde escuro, um rack velho com uma televisão pequena e um aparelho de som antigo. O chão tinha um carpete cinza tipo forração.
Havia apenas mais uma cozinha minúscula, um banheiro apertado e um quarto um pouco maior com dois beliches e um guarda-roupa estreito. Senti-me deprimido... Eu teria de viver lá por pelo menos mais quatro longos anos. Joguei a mochila com minhas coisas em uma das duas camas vazias.
Tomei um banho rápido, coloquei meus ridículos pijamas e arrumei a cama que escolhera (as outras duas, de meus colegas de quarto, estavam todas bagunçadas). Era a parte de baixo do beliche da esquerda. Deitei e não conseguia dormir, agitado, com uma espécie de medo, sentindo-me sozinho. Porém em algum momento após a uma da manhã peguei no sono, um sono leve.
Acordei com risos. Ia levantar-me para conhecer meus dois novos colegas, mas ao virar-me na cama deparei-me com um casal bêbado.
O rapaz, um jovem alto, mulato e de cabelo pixaim cortado rente, reconheci como sendo um dos que iam compartilhar a república comigo. Eu o havia visto em uma foto e sabia que seu nome era Natanael. A garota, uma loirinha muito bonita e magricela, eu nunca tinha visto antes. Seus olhos verdes não demonstravam brilho algum.
Ela era bem pequena perto dele, que devia ter quase dois metros de altura.
- Quem é você, garoto? Eu te conheço? – Natanael parecia irritado.
- Eu sou o Flávio Maulson. De Salto. Você deve ter falado com a minha mãe.
- Ah, é... O Flávio. Sua mãe mandou ficar de olho em você! Já trocou as fraldas?
Eles riram e eu fiquei muito chateado, mas não respondi. A loira me encarou:
- Olha... Porque você não vai ali na esquina chupar um sorvete que eu estou querendo chupar outra coisa aqui... – E riram mais.
Levantei-me para colocar uma roupa e sair. Estava ficando insuportável permanecer naquele quarto. Quando me viram de pijama bege caíram na gargalhada.
Natanael chegou a chorar de tanto rir:
- Que é isso? Aqui não é o maternal não....
Peguei algumas roupas e me retirei, indo vestir-me no banheiro. Saí do apartamento humilhado e com muita raiva e desci para a rua, caminhando até uma agitada pizzaria ainda aberta ali perto. Nem lembro o que comi ou bebi de tanta raiva.
Voltei quanto a pizzaria fechou, duas e meia da manhã. O apartamento estava às escuras. Entrei vagarosamente no quarto e percebi, pela penumbra, que Natanael e sua namorada estavam dormindo no beliche da direita, na parte de baixo, juntos.
Tirei meus sapatos e dormi de jeans e camiseta mesmo, roendo-me de ódio.
Na manhã seguinte, um sábado atipicamente quente do final de abril, voltei para Salto, para minha casa. Um noite na república e já a detestava. Cheguei de mau humor e fui diretamente ao meu quarto, que compartilhava com meu irmão.
Coloquei meus fones de ouvido e fiquei ouvindo música, eu gostava de “mixar” fitas cassetes com músicas New Wave de bandas como Devo e B-52’s, minhas preferidas na época. Eu não tinha uma moto ou um carro, mas tinha uma senhora aparelhagem de som, com toca-discos, mixer, equalizador, os cambal.
Tirei os fones quando meu irmão, Fúlvio, tocou o meu ombro.
- Vem almoçar, Fla, que a mamãe tá chamando.
Desliguei tudo e fui comer, meio chateado, ainda lembrando da noite anterior. Eu não queria mais voltar para a minha república. Mas não tinha coragem de dizer isso aos meus pais. Sentei-me na mesa e minha mãe serviu macarrão com almôndegas.
- Como foi na república nova, Flávio? – Ela perguntou.
- Ah, foi bom – menti – dormi bem, foi legal.
Ela não perguntou mais nada e fiquei quieto. Meu irmão começou a reclamar da comida como sempre fazia. Minha mãe gritou para o meu pai:
- Jonas, vai almoçar aí ou vem comer aqui?
- Vou comer aqui na sala, beinhê. Vai começar um filmão com o Browson.
Tudo aquilo me deixava deprimido. Meu irmão reclamando, meu pai ausente, minha mãe pouco importando se eu ia bem na faculdade ou não, porque nem sequer sabia que notas eu tirava ou se havia alguma prova importante.
Comi bastante como um rapaz de vinte anos come e voltei à minha música. Afundei na poltrona com os fones de ouvido e coloquei no meu tape deck Foreigner cantando I Wanna Know What Love Is, curtindo uma leve depressão. Suspirei pensando na Solange. A linda, extrovertida e inteligente Solange Pereira de Carvalho.

sábado, 2 de outubro de 2010

O Diário Secreto de Solange - Cap. 2

Capítulo 2:

As aulas de fato começaram na semana seguinte e percebi que gostava muito de ir à faculdade. Sentava-me na verdade no meio da sala, não pertencendo nem ao grupo dos bagunçadores, os que ficavam na parte de trás, nem dos CDFs, que ficavam nas primeiras carteiras. Era médio em tudo. Não era bom em nada, mas também não era ruim em nada. Eu era médio.
Solange, o nome de minha paixão até então totalmente platônica, sentava-se a duas carteiras lateralmente de mim, à minha esquerda. Eu vivia com um olho na aula e outro nela. Vestia-se na moda da época, roupas coloridas, muito verde limão, amarelo ruidoso e vermelho queimado. Sempre com seus cabelos castanhos longos a combinar totalmente com aquele par de olhos vívidos e sensuais. Nisto estava fora de moda: na época a maioria das meninas da classe cortava os cabelos curtos, na moda New Wave.
No restante da classe, gordinhos, magrinhos como eu, gostosões, gostosinhas e muitas orientais, a maioria com o nome de Márcia. Acredito que naqueles anos de 1980 o costume entre os nipônicos era colocar o nome em suas lindas filhas de Márcia, com seus cabelos lisos e olhos negros misteriosos.
Logo um rapaz começou a se destacar entre a nossa turma. Parece que sempre deve existir alguém assim em qualquer comunidade. Seu nome era Valério, logo apelidade de O Terrível. Não apenas por ser o terrível com as mulheres, mas porque sabia tudo, e ninguém o via estudar. Devia ter um Q.I. muito alto. E o pilantra ainda era rico. Então acho que não é novidade que as garotas da classe orbitavam em torno dele. Menos Solange.
Ah, mas Solange conversava com ele, conversava com todos. Ela era expansiva, alegre, bem humorada e... Quando me deu um olá a primeira vez eu nem sequer consegui responder, perdi a voz. E, creio, não preciso dizer que meu coração disparou.
Mas voltando à nossa turma havia o Antunes. Ele tocava violão com maestria e logo, depois das aulas, sempre havia um showzinho onde ele cantava as de sempre, Te Amo Espanhola, Yolanda, ou Um Dia Frio...
Ficávamos ao redor dele, no chão mesmo ou no assento de concreto que torneava os canteiros, quase sem plantas, do andar de baixo de nosso prédio na faculdade. Eu tentava ficar perto de Solange, que cantava junto baixinho com uma voz doce, suave, mas não era páreo para o Antônio, o Pedro ou o próprio Valério, maiores e menos tímidos do que eu.
Mas eu sonhava. Sonhava muito com ela. Voltando para casa de ônibus sozinho - naquele começo de semestre eu ainda não fizera amigos – encostava a cabeça na janela (já devidamente tosquiada) e sonhava passeando pelo shopping com ela de mãos dadas e depois indo à sua república – eu já descobrira que ela morava em uma república com mais duas amigas – e a beijando e beijando, porque até então eu ainda só pensava em beijá-la, ingênuo que era.
Os dias pareciam passar cada vez mais depressa. Eu vinha de Salto, uma cidade também do interior do Estado de São Paulo, e meus pais que lá moravam resolveram que era melhor eu não ficar viajando todo dia. Agradeço à Deus por isso... Porque iriam procurar uma república em Campinas para mim, para ficar a semana toda em Campinas e só voltar à Salto de fim-de-semana... Bom, minha família era de classe média média e com um pouco de dor podia pagar um terço de aluguel de quitinete.

domingo, 26 de setembro de 2010

O Diário Secreto de Solange - Cap. 1

Escrevo estas páginas como forma de me liberar da culpa que tanto me atormenta. Tomei uma decisão que considero correta, porém... Não sei. Talvez a maior parte da sociedade não a considere assim. Por este motivo escrevo estas linhas, tentando limpar minha consciência. O que fiz? Antes de dizê-lo preciso contar toda a história... Colocar minhas ações em um contexto. Talvez assim eu seja absolvido por vocês, meus diletos leitores... Ou não.
Preciso começar do começo, bem do começo, para que entendam e procurem sentir minhas emoções, meu estado de espírito em cada momento. Que experimentem passar pelo que passei e procurem compreender porque tomei a decisão que tomei.

O ano era 1984. Eu havia passado no vestibular para o curso de Análise de Sistemas na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, a PUCCAMP. Lembro bem do meu primeiro dia como calouro, aquele mundaréu de gente sorrindo, gritando e eu procurando minha classe nas listas de papel, pregadas no concreto à vista dos edifícios do campus.
Entrei em minha classe. Havia muitos alunos e, tímido como sempre fui, sentei-me próximo aos fundos da sala, onde havia alguns sujeitos estranhos que riam muito. Uma jovem bonita trajando apenas camiseta branca e jeans entrou e começou a encher a lousa de fórmulas e uma lista de livros que deveríamos comprar.

- Aí, gente, sou a Laura, professora de Cálculo I de vocês. Estudem essas funções trigonométricas porque a prova é segunda que vem, ah, e também comprem esses vinte livros que listei aqui.
Começei a suar frio. Eu estava esperando já começar com aulas de programação de computadores e aquela professora, pouco mais velha do que eu, enche a lousa e manda comprar um monte de livros! E dinheiro? Onde eu ia achar dinheiro para tanto livro? E prova na próxima segunda? Minha vontade naquele momento era ir embora dali, sair correndo.
- Agora vamos passar recolhendo dinheiro para a apóstila.
Entreguei a grana que tinha para almoçar para pagar a maldita apóstila e então a tal professora apontou os alunos do fundo da classe, próximos à mim, que riam se parar:
- Estes sujeitos aí estão fazendo já à terceira DP comigo. Vocês não vão poder mais dormir à noite, vão é estudar, estudar e estudar, eu sou rigorosa, entenderam?
Uma caloura de feições orientais (aliás, a maioria dos alunos de minha classe naquela época era de orientais) ergueu a mão. Laura colocou as mãos na cintura e ralhou:
- Está pensando que aqui é o primário? O que você quer, menina?
- Eu... Eu queria saber o que é DP, professora...
- Quero que me chame de Doutora Laura, entendeu bem, aluna fraca da cabeça? E DP é Dependência, reprovação, coisa que tenho certeza você vai ter em minha classe!
O pessoal lá de trás caiu na gargalhada enquanto eu e a maioria da frente até tremia de medo. Aquilo era a faculdade?
- Mas... Mas eu não fiz nada professora!
- Sua imbecil e mentecapta! Já falei para me chamar de Doutora Laura!
Foi então que aconteceu um evento tão fantástico e precioso, que guardo com prazer em minhas lembranças, e que embora tenha se passado em minutos, levou horas em minha mente. Uma caloura levantou-se irritada e levantou a voz:
- Vamos parar com essa palhaçada, que de doutora você não tem nada, veterana!
Ela era maravilhosa, linda, uma garota em seus dezenove ou vinte anos emergindo, aflorando como mulher e seus cabelos esvaçoavam enquanto falava. Seus olhos castanhos tinham um brilho que jamais vira na vida. Ela voltou-se para nós, pobres colegas calouros.
- Vocês não vêem que tudo isso é uma encenação? Que o dinheiro que pediram para apóstila na verdade é para a cerveja desses safados no fundo que não passam de veteranos abusados passando um trote?
Um rapaz loiro, com o rosto coberto de cicatrizes de espinhas que deviam ter existido em seu rosto durante sua adolescência, subiu em uma cadeira:
- Ora, fique quieta sua bixa abusada. Quer ir para a diretoria levar umas palmadas do diretor? Eu ajudo a bater! – E riu junto com os companheiros hienas até que um deles até capotou entre as carteiras.
Eu estava evidentemente apaixonado, se é que alguém fica apaixonado apenas por olhar para outro alguém. Aquele garota era sensacional, e não apenas eu, mas os meus companheiros bixos e aqueles vets também notaram. E todos os rapazes (e porque não dizer algumas garotas também?) acompanharam ela sair, esplêndida, mas pisando duro, de nossa classe, daquela pseudo-aula.

Após aquele momento uma discussão começou ente os calouros e os veteranos, os calouros querendo reaver o dinheiro e alguém já chegando com uma tesoura para nos tosar. Tentei escapar, mas foi em vão. Não pelo fato que iam cortar-me os cabelos, que na verdade nunca ficavam direito em minha cabeça, mas para ir atrás daquela morena de olhos castanhos sensacional, queimada de sol e com um corpo com curvas tão bem feitas que até hoje sonho com elas.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Viagem - Crônica de minha nova viagem à Paris

Estou indo para Paris. Embarco amanhã. Postarei e darei "twits" sobre como está indo minha viagem. Durante a viagem continua escrevendo meu livro. Darei pistas sobre ele. Se será um "best-seller"? Não... Apenas escrevo o que eu gosto. Abraços à todos

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Não esqueci, apenas o tempo acabou

Com reviravoltas que surgiram em minha vida, o tempo para tuitar, orkutar, facebokar e blogar ficou escasso. Tenho de desenvolver mil programas e atender mil clientes, alguns chatos e que não pagam e te estressam. Já falei que tá cheio de gente de M... por aí? Pois é. Mas também tem gente legal... Enfim... Mas espero que tudo se acalme e eu consiga voltar à ativa... Na Web

domingo, 25 de julho de 2010

A Fórmula Um acabou

A Fórmula Um acabou. Desonestidade, resultados manipulados, poucas ultrapassagens, muita sacanagem, acabou. A ferrari para mim acabou. Vou fazer coisas mais produtivas como ver horário político. Tem menos sacanagens e menos ladrões e porcos.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Reforma

Vou reformar este Blog!!! Tá muito feio e tem mais textos que qualquer coisa, vou melhorar!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A Guerra dos Impérios - Prólogo (Final)

Meses depois

Atron ainda não havia conseguido uma nave para voltar à Égon, à cidade de Mégan e ao teletransporte espiritual que o devolveria à Tirênia. Não havia meios de driblar a rigorosa fiscalização em cima das poucas astronaves restantes em Tarrent.
Uma nave estelar era agora artigo de luxo naquela região moral e tecnologicamente decadente.
Durante todo aquele tempo em que vivera em Tevária, Atron K-Rosam’vev morara na pequena casa feita de restos de carbonite e concreto plástico queimado de Kim Kay-War. O pai da tarrentiana morrera no mar um ano antes, durante uma forte tempestade. Agora Atron, ou Argon como ela o conhecia, era tudo que lhe restava.
Apaixonaram-se. Kim admirava o corajoso e revolucionário Atron, lutando pela causa dos pobres tarrentianos contra a prefeita, o governador e o chanceler Adrin Duprek.
Roubava da elite, minoria, para dar aos miseráveis e famintos plebeus que um dia foram seus súditos. Já corria por todo o mundo de Tarrent que um último espécime lemântico trazia o terror para os ricos para dar de comer aos pobres.
Atron K-Rosam´vev casara-se com Kim Kay-War no fim daquele ano. Era idolatrado pela população carente e perseguido pelas milícias do chanceler.

Em uma manhã quente de verão, e Delta Majoris brilhava intensamente, aquecendo a praia agora limpa em um multirão organizado por Atron, o casal resolveu pescar um pouco, coisa que faziam com certa frequência.
Aventuraram-se no mar calmo e já longe da costa, molhados e com muitos peixes no porão, resolveram descansar sob o sol.
- Argon... Nunca me senti tão feliz. Só uma coisa me deixa triste.
- O que a deixa triste, amor? – Atron a encarou, com ares de preocupação.
- Nunca poderemos ter filhos. Você é um lemântico e eu, uma tarrentiana. Nossos DNAs são completamente diferentes. Totalmente incompatíveis.
Atron olhou o horizonte azul e deixou-se entregar ao balanço do barco.
- Isso é verdade. Mesmo que estivéssemos no auge do Império Lemântico, os médicos não conseguiriam fazer com que pudéssemos ter filhos.
- Ao menos podemos fazer amor... E você sabe amar uma mulher como poucos, meu querido.
Eles se beijaram. Porém Kim notou as lágrimas no rosto ovóide de Atron.
- O que houve? Sente-se triste por não podermos ter herdeiros?
- Sim, mas... Também porque meu único filho, o filho que já tive, desapareceu na batalha de Égon anos atrás, com minha falecida esposa. O corpo dela e de Betram nunca foram encontrados.
- Betram? O príncipe Betram? Seu filho... Espere um pouco... – Kim contornou o rosto de Atron com as mãos e então seus lábios tremiam, ela toda tremia.
- Porque nunca me contou? Eu sempre suspeitei, mas achava que não era possível... Você é o rei Atron. Atron K-Rosam´vev, nosso rei, nosso igni... Pelos deuses...!!!
Atron ficou algum tempo em silêncio, pensativo. Então contou tudo o que acontecera desde que Leman, que no futuro seria conhecido como o planeta Marte, fora arrasado e o Império Lemântico caíra. Contara também sobre Martogh, sobre Zonos, sobre Liany. Sobre seu poder de mudar de corpo.
Kim digeriu lentamente as palavras de seu marido. Podia entender porque escondera sua identidade dela e o perdoara por isso. Eles se abraçaram e depois trocaram um longo beijo.
Foi quando Atron K-Rosam’vev foi mortalmente atingido nas costas. As balas explosivas atravessaram sua grossa carapaça e provocaram uma forte hemorragia interna, perfurando os pulmões. Estava ainda consciente, nos braços de Kim, mas estava confuso e fraco.
Barcos da patrulha da Milícia Pública haviam localizado o casal. Em minutos estavam cercados. Kim Kay-War tentou proteger seu marido de todas as maneiras.
- Parem! Não podem fazer isso! Ele vai morrer!
- Sobreviverá até ser executado em praça pública daqui alguns minutos. – Disse um dos guardas. – Fique quieta ou atiraremos em você também.
- Ele sempre ajudou o povo de Tarrent em tudo! Isso é um absurdo!!
Kim levou uma forte coronhada de um dos guardas e caiu desfalecida. Atron, quase sem forças, avançou sobre ele e quebrou-lhe o pescoço com extrema rapidez. Tomou-lhe a arma e disparou, matando muitos dos homens da milícia e explodindo um dos barcos até ser dominado por doze soldados do exército do chanceler, que haviam acabado de chegar pelo ar.
O casal foi levado para a praia. Em fileira, alguns dos líderes da revolução promovida por Atron já haviam sido cruelmente executados e outros aguardavam a execução. Atron estava fortemente amarrado e muito fraco, cuspindo muito sangue e sabendo que não sobreviveria. Não naquele corpo, seu corpo original.
O povo se rebelera em muitos pontos de Tevária e em toda a Tarrent, pois a notícia que o nobre lemântico que ajudava a todos iria ser executado espalhou-se muito rapidamente.
Kim recobrou a consciência e foi segura por dois soldados longe do marido. Ela estava ofegante e começou a chorar, desesperada.
- Nãããoooo!!! Isso é um erro!!! Não! Não o matem, por favor...
Atron foi colocado de joelhos na areia, e cinco daqueles homens do chanceler o cercaram, apontando suas armas de balas explosivas para ele.
Um deles, que parecia ser o líder da tropa, disse.
- Tragam a mulher dele aqui primeiro. Ela será executada antes.
Atron cuspia sangue e mal pode protestar. Sua mente estava turva.
Kim Kay-War foi amarrada à um poste. Ela se debatia e chorava.
- Agora, lemântico, assista a execução de sua mulher. Logo se juntará à ela.
E o líder da tropa fez um sinal. Um soldado colocou sua pistola de balas comuns na cabeça de Kim. Ela parou de chorar e disse à Atron:
- Eu te amo muito, meu querido. Lembre-se disso. Agora eu me vou, mas quero que use este corpo para se vingar... – E piscou para ele, parando de se debater e ficando estranhamento serena diante da morte.
- Atire! – Ordenou o comandante.
- N...n..n... – As palavras do igni lemântico não saíam de sua boca.
O soldado atirou e Kim Kay-War estava morta.
Satisfeito, o comandante voltou-se para os soldados que cercavam Atron.
- Executem-no!
Os cinco homens tarrentianos atiraram e liquidaram o rei e igni do outrora poderoso Império Lemântico.
Confuso, Atron quase não pode se lembrar do rito de passagem. Assim como sua irmã, esquecera o que tinha de dizer e pensar, somando-se à isso o fato que estava muito ferido. Levou tempo demais. Passou dos quinze minutos que dispunha e parte de suas memórias foram esquecidas.
A Luz o chamava para o Além-Universo, a Terra dos Mortos. Sentiu-se feliz ao desencorporar e seguiu por um túnel brilhante e aquecido, deixando para trás a mesquinhez e ignorância dos seres de seu Universo.
Mas sabia que tinha uma missão... Mas qual seria? Sabia que era muito importante voltar. E, mais que tudo, sabia que tinha de vingar os justos que o ajudaram na Revolução Tarrentiana e também vingar a morte de sua mulher.
Tinha de voltar. Lutou contra o que o puxava para o Outro Lado. Fixou a mente no corpo de Kim, ainda amarrado ao poste. Sentiu um violento “puxão” e a encorporou. Imediatamente o cérebro de Kim expulsou a bala e se regenerou. A alma de Atron permeou aquele ser que pouco antes havia sido sua esposa.
Ficou calado, imóvel e de olhos fechados. A mudança de corpo sempre seria muito dolorosa e complicada para Atron e Liany, algo muito ruim de se experimentar haja visto a enxurrada de memórias e a personalidade da pessoa que ali vivera que comprimiam sua própria mente. Ainda mais sendo a primeira vez que fazia aquilo.
Mas agora Atron K-Rosam’vev estava vivendo no lugar de Kim Kay-War.
Não demorou muito e, ainda amarrado(a), com o rabo dos olhos viu, sem nada poder fazer, vários amigos e amigas que o ajudavam na revolução serem cruelmente executados naquela praia agora tingida de sangue vermelho e roxo.
Dois soldados se aproximaram dela.
- Vamos estuprar esta vaquinha antes que joguem seu corpo na fogueira!
- Vamos, hehehehe, tô sem nenhuma muié faz tempo!
Desamarraram Kim e assim que se viu solta usou as mãos para apertar com muita força o saco escrotal de cada um, que entre perplexos e doloridos nem puderam gritar. Caíram de joelhos, e Kim usou o próprio joelho para acertar o queixo de um enquanto desferia um violento soco no outro, pondo ambos fora de combate.
Arrumou suas roupas, tomou as armas dos soldados e, sabendo que não havia mais nenhum aliado seu vivo naquela praia amaldiçoada, deu uma última olhada em seu antigo corpo de lemântico jogado na areia, em meio à uma poça de sangue roxo, e fugiu por entre as casas que nos últimos anos ajudara a reconstruir.

Logo a população a acolheu. Olhando o movimento de tropas pela janela de uma casa no alto de um morro, Atron sentia-se estranho como uma mulher tarrentiana. A joelhada e o soco que dera nos soldados, que antes sendo lemântico não o faria sentir nem cócegas, agora provocava inchaço, roxidão e dores fortes.

Todavia agora era Kim Kay-War. E ainda assim continuava sendo Atron K-Rosam’vev. Iria se vingar de todos, ia libertar aquele povo oprimido e depois... Depois tentaria se lembrar quem fora Martogh. Onde ficava Tarínia, o lugar que recebera aquele estranho dom de mudar de corpo – pois suas memórias danificadas confundiram Tirênia com Tarínia – e quem fora Zonos, afinal. Tinha perdido boa parte das lembranças de sua vida anterior, Contudo, naquele momento, nada mais importava, pois perdera sua esposa e tinha um mundo inteiro para salvar.