domingo, 14 de abril de 2013

Game Over


O regimento 236 avançava para o estranho complexo, entrando em um labirinto misterioso. Os tanques, os caminhões e os soldados estavam prontos para a batalha, embora desconhecessem totalmente o inimigo.

Tensos, aqueles combatentes esperavam pelo pior. Todos olhavam para todos os lados, assustados. O general Golberys comentou com o coronel Sayllas ao seu lado: - Tem certeza que o inimigo esconde-se aqui?

- Sim, senhor. Segundo ouvi dizer, é um ser monstruoso, fantástico.

- Temos de descobrir até onde vai o seu poder. Não gosto de recuar, mas não arriscarei meus homens em uma investida inútil. Viemos para esta dimensão eliminar possíveis perigos, o que não significa que sacrificaremos qualquer coisa para isto.

- Entendo, general. Mas as lendas dizem que o monstro que habita aqui devora tudo pelo caminho... Se ele conseguir de alguma maneira atravessar para a nossa dimensão, estaremos todos correndo grande risco.

O general não demonstrava o medo que sentia. Não podia, pois afinal seus homens confiavam nele. Porém, Golberys sabia que seu coronel tinha razão: o monstro que vivia naquele complexo labirinto devia ser mesmo incomensuravelmente terrível e horrendo.

A tensão era grande. O que encontrariam? A infantaria caminhava lentamente, os soldados todos trêmulos, acompanhados de tanques e outros veículos, avançando de modo letárgico pelos corredores do labirinto. Estranhos retângulos atrapalhavam aquele avanço.

O olhar de cada um denotava o horror que percorria seus corpos. Seus corações queriam escapulir por suas gargantas agora secas.

O medo aos poucos se espalhava. O suor escorria das faces apavoradas dos soldados, e até do coronel e do general. Um suor frio. Uma estranha combinação de sons, como uma música irritante, fazia-se ouvir.

E foi então que a estes sons misturaram-se os ruídos do monstro a devorar coisas. Todos ficaram arrepiados, estarrecidos! Os mais covardes começaram a correr, e foi quando eles perceberam que os retângulos de algumas partes do labirinto haviam sumido...

O general ordenou a retirada. Mais era tarde demais. O monstro, um ser horripilante, os devorou... Devorou a todos sem exceção...

Um adolescente olhava a tela do monitor ao mesmo tempo que tentava espremer uma espinha. Não estava entendendo nada. Aquele jogo antigo, imitando em seu PC o arcaico PAC-MAN da Atari, de repente encheu-se de pontos pretos e o PAC-MAN devorou a todos e travou. Que merda de jogo!

domingo, 10 de março de 2013

Os Sentimentos da Alma


Era estranho aquilo que sentia, aquilo que o perseguia. Ele não sabia dizer o que era, não sabia definir, não sabia dar-lhe um nome, mas era um sentimento misterioso, algo que o estrangulava aos poucos.

Caminhava pela rua movimentada. As expressões nos rostos das pessoas que cruzavam com ele nada lhe diziam. Eram rostos nulos. Mas o sentimento o afligia. Algo dominava seus passos. Algo o segurava, e no entanto... No entanto estava ali, só, no meio da multidão.

Olhou os ônibus a expelirem o ar negro. Olhou os motoristas buzinando em fúria, as motocicletas serpenteando no trânsito estressante, mas ao mesmo tempo tudo aquilo não era nada, havia um vazio à sua volta, um silêncio ensurdecedor que o agitava.

Suas mãos tremiam. Sua boca estava seca. O que estava sentindo, o que o sacudia, o que o trepidava? Engoliu seu coração que estava à boca e seguiu pela faixa de pedestres.

Era o trabalho que o açoitava? Era a mulher que o atormentava? Era a amante, com seus pedidos estúpidos, que o torturava? O que estava acontecendo com ele...? Olhou os arranha-céus em direção ao céu que de seu nada tinha. Um cinza-negro que prometia chuva, mas aquilo não fazia sentido em sua alma.  Não fazia sentido algum. A vida não fazia sentido.

Ele queria algo. Mas o que era? Ele sentia algo, e este algo era ruim. Porém, onde obteria respostas? Olhou à sua volta: lojas, um açougue, uma padaria, gente, casas velhas e decrépitas, gente, a chuva começando a cair, gente, o que ele sentia, pelo amor de Deus???

Começou a correr. Queria ver se podia fugir do que lhe apertava o peito. Correu. A chuva aumentou. Correu. As pessoas lhe atrapalhavam, correu... E então ele, que corria, percebeu.

Estacou. O que lhe afligia, o que ele sentia, de súbito revelou-se, como se um véu ocre estivesse a tapar-lhe a visão e fosse repentinamente retirado.

Alguém estava atrás dele. Ele sentia sua respiração funesta. Ela agora sabia a resposta. Sentiu a mão gélida tocar-lhe o ombro. O sabor do desespero alimentou sua alma e ele entregou-se.

Era a morte. A morte viera buscá-lo. Libertá-lo dos fantasmas de suas ações ruins do passado, e levá-lo onde o inominável o esperava, para que fosse julgado sem piedade.

Entregou-se. Seu corpo caiu em meio à multidão indiferente, quem ligaria para um miserável?

Sua alma seguiu o ser negro e sua foice para a vermelhidão do inferno de onde, sabia, jamais sairia ou seria algo diferente do que fora em vida.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Sonhos Reais

SONHOS REAIS


Wilson era do tipo pacato. Era franzino, usava óculos e o cabelo nunca estava penteado. Era um solitário, sonhador e estudioso. Mas Wilson não era infeliz, pelo contrário, vivia sorrindo e em sua mente sempre era o audacioso cavaleiro em armadura brilhante que salvava a princesa.

Naquela manhã deliciosa o jovem rapaz caminhava pelos jardins do campus da universidade que frequentava, como sempre sonhando com alguma aventura audaciosa. Estava, como se diz, "longe". E aconteceu que passou desavisado por baixo de um andaime, pois o prédio de sua faculdade estava em reforma. E não foi que um tijolo caiu em sua cabeça? Wilson ficou desacordado.

E o que houve naquele momento? Não se sabe. O fato é que Wilson logo colocou-se de pé, para surpresa dos colegas que vieram socorrê-lo. Observou tudo ao redor com uma clareza nunca antes experimentada. Percebeu que não mais precisava de óculos, e deitou-os fora. Suas roupas rasgaram com os novos músculos. Seu cabelo endireitou-se sozinho. Até uma covinha em seu queixo apareceu.

Sentiu-se leve. Para espanto geral da platéia da universidade, Wilson começou a voar. Deu piruetas sob "oohhs". E então um senso de justiça o pegou de supetão.

            Agora podia, e devia, fazer a diferença. Deveria lutar contra o mal. Acabar com o sofrimento do mundo. Passou voando pela lanchonete da faculdade e roubou o avental da cozinheira, transformando-o em capa. E seguiu rumo ao Rio de Janeiro, onde em menos de um mês acabou com os traficantes. Enfrentou políticos corruptos e distribuiu o dinheiro deles aos pobres. Foi às cidades devastadas por furacões na América e as reconstruiu com sua força. Foi ao Iraque e, além de terminar com a guerra, mudou os conceitos dos terroristas e acabou com os atentados a bomba. Convenceu israelenses e palestinos a formar uma coalizão para reconstrução do oriente médio.
           
Reuniu as Coréias. Acabou com a fome da África. Até descobriu a cura da Aids e do Câncer. Descobriu maneiras de impedir a destruição da Amazônia e reduziu a poluição do  mundo todo, com suas soluções inteligentes. Impediu vulcões e terremotos de agirem, impedindo catástrofes naturais. Era um super-herói completo.

Toda a população da Terra o amava. O elegeram Presidente do Mundo. Ele era venerado pelos quatro cantos do planeta azul.

Mas então o que aconteceu? Sem desastres naturais ou tragédias, com a economia estável e com as doenças irradicadas, o povo começou a reclamar. Reclamar que a vida era muito calma, que havia desemprego para médicos, advogados e cientistas. Os militares reclamavam que não tinham a quem combater, os policiais queriam prender bandidos. Até os padres e pastores reclavam que Wilson acabara com as crenças de pessoas que não eram mais desesperançadas.

Ele foi destituído da Presidência. "Queremos o mundo como era antes", dizia a população. Wilson ficou triste. Triste em ver as pessoas como elas realmente são.

Com seu imenso poder, acabou com o planeta Terra e foi viver sozinho em Vênus.





sábado, 8 de dezembro de 2012

O Livro


Acabei de terminar com a minha namorada. Estávamos juntos há muito tempo e no começo era maravilhoso, mas ultimamente mais brigávamos do que qualquer outra coisa.
Na verdade ela terminou comigo, mas eu já esperava – ansiava – por isso. Então agora estou só. Acabei a faculdade há cerca de um ano e só passei por empregos pífios, e no momento estou desempregado... E só.
De certa forma sinto o gosto de liberdade. Difícil é ficar pedindo dinheiro para os meus pais para comer ou pagar o aluguel daquela quitinete horrível onde moro.
Agora caminho pelas ruas sem saber ao certo o que fazer. No momento não tenho vontade de procurar emprego ou continuar a estudar fazendo uma pós-graduação ou algo assim. Na verdade estou sem vontade nenhuma.
Paro diante de uma vitrine. Uma livraria. Observo meu reflexo no vidro, um rapaz com ar de cansaço, de derrota.
Entro na livraria e vou olhando as estantes sem nada específico em mente. Percebo um livro de capa chamativa, todo cor-de-rosa choque. Chamativo mesmo. Pego e o título, em negro, me intriga: “O Livro”. Mais nada. Nem autor ou editora na capa.
Abro-o a esmo, em qualquer página. Leio. “Lá estava Lilian, nua, sobre sua moto incrivelmente potente, fugindo dos carros da Gang do Armageddon. Ela sabia que se eles a pegassem, seria estuprada e morta barbaramente. Estava nua porque eles a encurralaram nos escombros do metrô, onde vivia após o apocalipse, e arrancaram violentamente suas roupas, mas ela soube fugir, roubar a moto e pegar aquela estrada.”
Uau, pensei. Dirijo-me ao caixa. Estranhamente aquele livro não estava no computador. O atendente, mesmo intrigado, cobra-me o preço escrito a lápis na contracapa e deixo a livraria. Procuro um canto livre na calçada ampla da Avenida Paulista, está uma manhã linda, e sento-me. Abro o livro na primeira página e... Meu nome está escrito por toda ela. Surpreso, ergo os olhos do livro e... A cidade... Está em ruínas. Não existem mais pessoas. O céu, antes azul, está coberto de nuvens negras.
- Se ficar aí sentado vão te matar.
Pisco uma, duas vezes. Uma mulher linda, morena, olhos castanhos que penetravam a alma, apenas sorria para mim. Estava seminua.
- O que está fazendo aqui?
- E-eu? Eu estava... Eu comprei esse livro e sentei-me para ler e de repente... O que está acontecendo? De repente os prédios ficaram em ruínas e as pessoas que estavam passando sumiram... Os carros...
- Venha. Não pode ficar aqui. A Gang do Armageddon domina a área. Consegui achar um lugar seguro em uma estação antiga do metrô, pode ficar comigo lá até seguir seu caminho... Ou cumprir seu destino.
- Quem é você? Como sabe que pode confiar em mim?
- Meu nome é Lilian. Eu sonhei com você. Na verdade, esta noite, eu sonhei que um rapaz como você, com um livro igual a esse que segura, iria aparecer e por algum motivo iria me ajudar... Vamos. Não podemos ficar mais neste lugar.
Eu sigo a morena, confuso. São Paulo agora é só ruínas. As avenidas estão com carros queimados e esburacadas e os prédios todos destruídos. Não vejo ninguém exceto aquela mulher estonteante.
Descemos as escadarias sujas. A estação Brigadeiro do metrô está depredada. Lilian me puxa para uma porta de alumínio e entramos em um corredor de concreto estreito. Logo estamos onde ela vive. Ela me encara.
- De onde você é? Como veio parar aqui, amigo? E o seu nome? E o livro...
- Calma, Lilian, uma pergunta de cada vez. Meu nome é Eric e sou do interior. Eu vou repetir, comprei esse livro, e quando o abri eu vim parar aqui... E eu sei que não estou sonhando, porque isto é real demais...
- Infelizmente não está mesmo; e depois das coisas que vi não duvido de mais nada, Eric. A guerra foi cruel com o mundo, o que todos temíamos aconteceu... Sobraram poucos de nós, sem lei, sem governo... Agora nós só dependemos de nós mesmos. Eu sonhei com esse livro em suas mãos, o que não me surpreende. Eu tenho o dom de sonhar com coisas que irão acontecer. Deixe-me vê-lo.
Entrego o livro de capa chamativa e ela o abre. Suspira.
- Aqui... – Ela fala com a voz embargada e lágrimas rolam de seus olhos. – Aqui diz que vou morrer hoje. Estuprada e barbaramente morta pela Gang do Armageddon. Eles vão me amarrar em um dos carros deles e sair acelerando e serei esfolada viva no asfalto...
- Como... – estou perplexo. Totalmente perplexo. – Como um livro pode descrever o que vai acontecer com você... Aliás, como eu vim parar aqui afinal? O que está havendo? Pode me explica, Lilian? – Ela é linda aos meus olhos, e seu corpo é escultural, maravilhoso. Seu olhar e sua voz me assassinam.
- As explosões nucleares pela Terra toda afetaram o espaço-tempo, Eric. Como eu sei disso? Desde criança tenho o dom de prever as coisas e saber algumas respostas...
- Então... Então deve saber como sair dessa encrenca, de como fugir dessa... Dessa gang. Eu li que você iria fugir deles em uma moto veloz.
- Sim... Posso roubar a moto de um deles. Mas veja você mesmo, eles conseguem me derrubar... E depois eles se servem de mim... E acabam comigo do jeito que lhe descrevi. Está aqui, neste seu livro.
Pego-o novamente em minhas mãos. As primeiras páginas mostram o meu nome ad infinitum. Mas o que ela diz é verdade, está no meio do livro. E então vejo que as páginas finais estão em branco.
- Mas... Lilian, me explica, o que é este livro?
Ela limpa as lágrimas com as costas da mão e se refaz. Suspira. Olha-me com ar de medo.
- Isso eu não sei, Eric. Não sei todas as respostas. Mas eu sei que só você pode me salvar.
- Como? Eu sou só um sujeito assustado e muito confuso. E de quantos caras essa gang é composta?
- Trinta... Armados até os dentes... Homens enormes e muito, muito maus.
- E o que eu posso fazer sozinho e desarmado contra um exército assim?
- Eu não sei, Eric, eu não sei...  – Ela me abraça e volta a chorar mais forte, e sinto o seu medo. E o que eu posso fazer? Eu? Contra uma gang?
A porta de alumínio é derrubada. Ouvimos passos vigorosos. Gritos.
Puxo-a para o outro lado do corredor estreito e encontramos uma escada de metal chumbada na parede, e ajudo-a a subir. No nível da avenida, corremos e entramos em um edifício aos pedaços.
Subindo as escadas, chegamos a um apartamento depredado. Conseguimos fechar a porta e com os móveis danificados o bloqueamos. Ela me abraça em seguida e nos entreolhamos. Trocamos um beijo lânguido.
Eu a admiro. Ela é linda. Ela me olha de forma elétrica. Eu nunca pensei que fosse possível encontrar alguém que combinasse tanto comigo, que fosse exatamente o meu número. Parece até que nós nos conhecíamos há muito, muito tempo. Coisa de alma gêmea ou então reencarnação de antigos amores. Eu a conheci há poucos minutos e já estava completamente apaixonado por ela. E ela por mim.
Eu não resisto. Tiro-lhe as poucas roupas. Ela as minhas. Não chora mais, e sim sorri para mim. Encontramos uma cama. Deito-a e sobre ela eu a beijo, tomo-lhe os seios, a barriga lisa, seu sexo... Eu a possuo com vigor, faço-a esquecer de tudo e chegamos ao clímax juntos... Ficamos abraçados ofegantes e voltamos a nos beijar longamente.
Descubro um chuveiro que ainda tem água, embora fria. Tomamos um banho juntos, rindo. Depois nos vestimos. Espiamos a avenida. Ninguém.
- Esqueci a porra do livro no seu esconderijo, Lilian! Vou lá pegar, fica aqui.
- Não, vamos juntos. Não quero mais ficar sozinha. Nunca mais.
Ela está determinada e acabo cedendo. Descemos e voltamos à estação do metrô.  Ninguém. Sorrateiros, chegamos ao esconderijo dela. Acho o livro. Ela pega algumas roupas. Decido que o melhor era se esconder em algum dos edifícios em ruínas da Avenida Paulista por enquanto.
Porém é tarde. Dois homens enormes estavam à espreita, esperando nosso retorno. Um deles me soca e apago.
Tudo escuro. Tudo dor.
Abro os olhos devagar. Sinto meu rosto inchado.  Sinto muita dor. Lilian não está mais lá.
Vejo o livro de capa cor-de-rosa no chão e o pego. Grito por Lilian. Nenhuma resposta.
Saio cambaleante em direção a avenida a tempo de vê-la, nua, acelerando uma moto e vários carros cheios de homens grandes e feios indo atrás dela.
- Lilian!
Caio de joelhos. Como poderei salvá-la? O destino dela estava escrito bizarramente naquele maldito livro. Eu o abro de novo. Meus lábios tremem. Meu corpo formiga. Minha boca fica seca.
- Ah, Lilian... O que eu faço? – Lágrimas brotam de meus olhos.
Abro o livro na página que descreve seu suplício. Com raiva, eu a arranco e a amasso. Olho para trás e vejo três daqueles homens enormes com pés-de-cabra e nunchakus aproximando-se. Raivosos. Olho para frente e outros três, armados e com rostos sádicos, vinham em minha direção. Ameaço correr para a entrada do metrô pouco adiante, porém mais dois emergem de lá. Eu ia ser trucidado.
Ainda ajoelhado começo a rezar. Abro o livro e encontro, estarrecido, descrito naquelas páginas amaldiçoadas, o meu futuro espancamento até a morte.
Arranco a página com raiva, tremendo, e a amasso. E os homens somem. Desaparecem. Evaporam como se nunca tivessem existido.
Ainda incrédulo, fico tonto. Atordoado. Baixo os olhos para o livro. O livro. Esse era o segredo. Vasculho os bolsos e encontro uma caneta. Coloco o livro nas páginas em branco, e, passando a língua por meus lábios ressecados, escrevo que Lilian retorna sã e salva.
E minutos depois ela para a moto ao meu lado. Nua. Maravilhosa. Arfando mas sorrindo. E ouvimos os carros da gang aproximando-se de nós em alta velocidade. Volto a escrever no livro e descrevo uma batida monstruosa entre eles, longe de nós, explodindo e matando todos.
E acontece. Uma labareda imensa sob aos céus nublados. Lilian encara-me completamente surpresa.
Suspiro. Sorrio para ela. Volto a escrever no livro.
Escrevo:
O apocalipse nunca aconteceu na verdade. As armas disparadas desapareceram, a vontade de combater se esvaneceu de todos os corações. Tudo fora um equívoco. Eric e Lilian se conheceram pouco após se formarem na faculdade e ambos têm excelentes empregos atualmente. Vivem juntos e se amam. E terão um futuro brilhante pela frente.
Em um piscar de nossos olhos a Avenida Paulista voltou a ser o que era. Movimentada, cheia de pessoas e carros. Olho para Lilian e ela larga a moto. Nos abraçamos e nos beijamos ali, em plena manhã em São Paulo.
Eu só me esqueci de descrever uma roupa para ela.

Vitor Hugo B. Ribeiro


quinta-feira, 15 de novembro de 2012


A Banda Mais Famosa do Planeta


Amanheceu com uma chuva fina e fria, contudo Scott Lorenzo sentia-se tão disposto e cheio de energia como sempre. Conhecia a sorte de John Morelli Braccelli e não seria uma chuvinha qualquer que atrapalharia mais um show da banda mais famosa do planeta.

- Ajudem-me aqui com esses amplificadores. – Lorenzo era especialista em P.A., coordenava toda a parafernália de áudio da banda, dos amplificadores Marantz ultra-pontentes aos mixers Galaxy que ficavam na “ponte de comando”, o pequeno estúdio que controlava toda a parte sonora e visual durante os shows.

Os operários, trinta ao todo, posicionavam caixas, colocavam microfones e pedestais, pedais para as guitarras e o baixo, conectavam plugs e puxavam a enorme fiação no gigantesco palco em São Paulo, no estádio do Morumbi. O pessoal da iluminação colocava as luzes enquanto a equipe de efeitos visuais testava os telões 3D, os jatos de vapos de gelo seco e os lasers. Várias explosões estavam preparadas, principalmente quando a banda principal tocasse uma música do AC/DC, “For Those About The Rock (We Salute You)”.

Os portões começaram a ser abertos por volta das 10:00, embora o show só começasse com as bandas de abertura às 17:00. Mesmo assim, os telões já começavam a exibir shows antigos e clips das bandas que iam se apresentar, até mesmo da principal, marcada para começar às 21:00.

O gramado foi sendo tomado às pressas e as tietes mais afoitas posicionaram-se grudadas na frente do palco que continha uma passarela na parte de baixo. Tribos de todas as idades sentavam-se nas arquibancadas, cerveja era vendida aos litros, cheiro de haxixe rondando o ar.

Scott Lorenzo almoçou rapidamente por volta das 13:30 e admirou-se ao ver o estádio totalmente lotado, com o pessoal cantando junto as músicas que apareciam em videoclips nos telões gigantescos de alta definição e com imagens 3D. Sua equipe já parava para um descanso. A primeira banda a abrir o megashow, a curitibana Os Catalépticos, já passava o som. O tempo começava a abrir e Lorenzo sorriu sabendo que faria uma noite deliciosa para a apresentação do Única.

17:00 em ponto e fogos anunciavam, ao cair da tarde, o início do que prometia ser um espetáculo fantástico e inesquecível. A adolescente feinha abraçava o pai tiozão que não parava de olhar a bunda da amiga gostosa da filha. O punk radical que odiava a banda principal confraternizava com o nerd que sabia todas as músicas de cor. A fã incurável abraçava o poster de John Braccelli já preparada para ficar nua na hora que ele passasse cantando pela passarela abaixo do palco. A romântica fanática abraçava o namorado desmiolado imaginando que quando se casassem ele seria como John, rico e famoso.

Os Catalépticos começaram a cantar “River of Blood”, mas foram recebidos com certa frieza pelo público. Mas eles melhoraram a partir de “One More Tattoo” e finalizaram o show às 18:30, no bis, com “Freaks”. Vlad, Gus e Cox foram muito aplaudidos e saíram satisfeitos do palco.
Às 19:00 entrou o AMP, banda de rock de Recife, arrasando com “Ensurdecedor”, que começou com explosões ao entardecer em São Paulo. Capivara pulava no palco com sua guitarra, dividindo os vocais com Djalma, em uma loucura que levou o público ao delírio. “Devil’s Prize” não ficou atrás, e o show continuou em um frenesi que parecia levar a multidão ao orgasmo. Saíram do palco após “Last Try”, e Scott Lorenzo, fazendo os últimos preparativos para a entrada do Única, sorriu sabendo que eles não eram nada perto da maior banda do planeta, mas tocaram bem. O público pediu bis e finalizaram o concerto com “Ataque dos Aliens”.

Chegara a hora do Única entrar. O público ficava cada vez mais agitado, a ansiedade crescendo, eles cantando músicas da banda após os telões silenciarem. O nervosismo tomou conta de Lorenzo, correndo como louco para a banda não atrasar. Os lasers não estavam sincronizados e o canal do baixo estava falhando. O computador de efeitos visuais foi reprogramado e o cabo do baixo foi trocado às pressas, e exatamente às 21:05 o Única estava à beira do palco, na escada, apenas aguardando a entrada triunfal.

Tudo ficou quieto. Até o público calou-se, a expectativa era imensa. Silvia engoliu seco pulando agitada,  Mário tremia de emoção, Jonas encoxou mais a namorada e Lilian tirou a franja dos olhos para ver melhor. Márcio caiu no gramado totalmente bêbado.

A conhecida imagem de um rosto estilizado surgiu em 3D, no meio do palco, projetada na cor verde em meio a densa fumaça de gelo seco. As mesmas palavras de sempre, que a vida vale a pena ser vivida e que todos deviam fazer amor o tempo todo, ditas em inglês com a voz grossa sintetizada de um apresentador famoso.

Depois uma enorme explosão. Fogos iluminaram a noite de São Paulo e o êxtase da platéia deu lugar ao Única: o performático John Braccelli nos vocais, com seus cabelos loiros curtos e espetados e seus olhos verdes enigmáticos, Gilberto Loredo como guitar leader, cabelos negros encaracolados e olhos castanhos nada comuns, Sthephanie  Braccelli, a mulher de John, vocalista e guitarrista, uma loira exuberante de cabelos escorridos até a cintura, olhos azuis impossíveis, roupas colantes pretas e guitarra cor-de-rosa adornada com uma rosa vermelha-sangue, a japonesa Tonya Suziaki no contrabaixo, sempre com sua mini-saia branca e seu instrumento branco com  o símbolo japonês da paz em preto, o filho do famoso Tom “Bum” Bunker como baterista, Tom “Bunker” jr., cabelos pintados de azuis até os ombros e porte atlético, usando camiseta de renda preta; a deusa dos blues que entrara este ano no Única, no piano, teclados e vocais, a belíssima negra Suzette Dempsey; nos teclados e sax nada menos que o famoso chinês Lee Chang e seu bigodinho mágico, e finalizando a polêmica morena de olhos cinzas na percussão, que por muito tempo apresentara-se totalmente calva, Anna Catsmann.

Começaram de forma arrebatadora, a bateria de Tom jr. compassada com o baixo de Tonya e o piano ritmico de Suzette, na deliciosa “Tonight is the only Night”, onde John começou cantando rápido entoando o refrão “You‘re my girl forever, but only tonight”, e o público cantava junto berrando, algumas se descabelando, outras chorando e pulando, histéricas, os rapazes invejando John que se requebrava sensualmente no palco, com sua camiseta branca estampada com o símbolo da banda, o leão alado, e a calça de couro colada ao corpo exibindo uma mala considerável.

Emendou “Sweet Little Rock and Roller” com o sax de Lee e os riffs inalcançáveis de Gilberto em sua “Helena”, a famosíssima guitarra Fender Stratocaster negra com detalhes cromados. O final foi sensacional e Tom jogou as baquetas pelas costas enquanto o público berrava alucinado. John gritou um “thanks” e mandou beijos.

Com o público berrando “Única, Única!”, o ritmo diminuiu com o blues “Roadhouse In My Heart”, fazendo Suzette esmerilhar no piano em cima da voz às vezes grave às vezes aguda do sensacional John Braccelli, que logo cedeu a vez a um solo de guitarra bem blues de Sthephanie, que molhava a palheta na língua de modo muito sensual.

O público aplaudiu, gritando entusiasmado, o final da música, e John berrou um breve “Obrrigadu, thanks, muchas gracias” e começou a pop rock “Is There Something You Should Know”, na batida eletrônica e nas peripécias tecladistas de Lee, no piano elétrico assumido por Suzette, no baixo bem tocado de Tonya e Sthephanie fazendo com Anna o backing vocals. John dando pulos e andando por todo palco emendou “Hungry Like a Bear”, com o solo do baixo de Tonya fazendo o público aplaudir junto pulando sem parar, e finalizou a sequência com “Boys on Film”, o hino gay que de modo esperto John cantava já sem a camiseta, mostrando os músculos bem definidos e a barriga tanquinho. A platéia berrava o refrão de modo enlouquecido e a música acabou entre fogos e explosões.

Uma voz sintetizada disse “Única” bem lentamente enquanto o nome da banda aparecia nos telões, e os lasers verde-azulados entre o gelo seco tornaram a atmosfera densa.  John surgiu vestido com outra camiseta, desta vez toda vermelha, e calça jeans bem velha. Sthephanie veio com seu violão de estrelas e uma mini-saia brilhante, Gilberto, todo de terno e gravata, de volta com a “Helena” e o resto da banda com outras roupas exceto Tonya, que não mudava o visual branco. Iniciaram a linda e suave “Save a Little Prayer For My Soul”, com o compasso lento de Suzette ao piano acústico emoldurando a voz de John doce e serena. Traduzindo:

“Reze ao entardecer, reze ao amanhecer, reze uma pequena prece por minha alma, pois agora eu estou perdido, perdido entre incertezas, perdido entre drogas, perdido para sempre, mas eu ainda te amo, e não sei o que fazer”

As garotas, mulheres, garotos e homens choravam balançando seus isqueiros e celulares piscantes, rapazes pegavam-se cantando o refrão a pleno pulmões, o velho roqueiro bebendo mais uma cerveja, a garota quase desmaiando. Ao final a histeria era enorme. John logo começou outra romântica, “Where Are We Now?”, e em certo momento a banda parou de tocar e ele cantou sem apoio, com todos na platéia cantando com ele, e foi quando apenas regeu e cada um cantava com alegria no coração, lágrima nos olhos e sentindo que nada mais havia no mundo além daquele estádio, e nada mais importava além de estar ali com amigos cantando canções que te levavam ao prazer de um modo único.

Aplaudiram. Aplaudiam e gritavam e John  soltou um “Thank You, Obrigaaaaduuu Brazil!”. E esperou o público recuperar-se e acalmar-se.

Então, de costas para a platéia, gritou “One, Two...” e a banda começou “Modern Times” e ele “I Want to believe in love” no refrão, e finalizando a música entre berros “Let's live there is to live!”. Sensacional. Antes do público acalmar-se começou “House” cantando “First it was vertigo, like any passion...” deixando Gilberto fazer um longo solo de guitarra, e houve desmaios na platéia com seus riffs arrasadores. John cantava “Light on, waiting at the gate...” e o show seguia em uma alegria e gritaria geral, todos cantavam junto e conheciam todas as músicas, de álbuns fantásticos como “The Golden Shower” ou “A Little Beat from My Heart”.

O ápice estava chegando. Iniciando apenas com o baixo de Tonya, “Totally Numb” arrasou, mulheres se despiam, homens gritavam, desmaios e histerismo tomava conta do Morumbi. “Crawling Sensation” deixou todos possuídos, e cada vez que o refrão chegava, John deixava o público cantar. Todos estavam em uma união onde não havia brigas, ódio, preconceito, somente a música. Não havia religião, raça ou nação, eram apenas homens e mulheres cantando o amor, a vida, a paixão, o que fosse, mas todos estavam se sentindo como se algo realmente valesse a pena. John os fazia sentir assim.

Mais para o fim do show, a sensual “Pistol Of Love” terminou com John fingindo um orgasmo e molhando a platéia próxima com borrifos de água, ótimo refresco no terrível verão brasileiro. A histeria era completa. Uma garota conseguiu subir ao palco e agarrar John, tentando beijá-lo e sendo levada por seguranças enormes, esperneando.

Sthephanie brincou ao microfone, em português bem brasileiro, pois essa era a sua nacionalidade:

- Parem de agarrar o meu marido senão jogo minha guitarra em vocês, suas malucas! – E tirou vários acordes de sua Gibson cor-de-rosa. Começou então a cantar “Big Girls Don’t Cry” fazendo um cover da Fergie, e as garotas a acompanharam no refrão. John ria e pegava calcinhas jogadas no palco à la Wando, jogando-as de volta.

Quando Sthephanie finalizou e foi aplaudida com veemência, John aplaudiu também e depois foi até ela e a beijou na boca, tirando vaias das mulheres e aplausos dos homens.

- All right, fellows. All right. I’m very happy to see Morumbi totally full tonight. Thanks for coming! – John pulava como se estivesse sendo atacado por pulgas. Desceu a passarela embaixo do palco, próximo ao povo que tomava o lugar, e levou todos à loucura.

Começou com a explosiva “Highway Eternal” e no refrão quase se jogava ao público: “Nobody will ever reach me”, e então veio o solo de teclado de Lee, seguido do duelo fantástico de guitarras de Sthephanie com Gilberto. Uma parada e Tom jr. mostrou que herdara do pai o talento na bateria. A música deu uma acalmada e o público batia palmas acompanhando o bumbo de Tom, depois o baixo de Tonya, mais tarde Anna nos atabaques, tamboretes e bongôs, e um solo quase blues de Gilberto que foi em um crescendo até virar um rock sincopado, quando Sthephanie entrou gemendo com sua Gibson. Subitamente o ritmo novamente diminuiu e entrou o piano acústico conduzido por miss Suzette e em seguida a voz arrasadora e aveludada de John, que parecia falar direto ao coração das garotas, que caiam uma a uma, e até os garotos estremeceram.

Aumentou a velocidade da música até o refrão, e tudo foi crescendo, as exibições performáticas, as explosões e os lasers, até um final apoteótico da música executada com vários improvisos em deliciosos quinze minutos. Todos gritavam, aplaudiam, berravam, alucinavam.

A banda então despediu-se rapidamente e sumiu. O palco ficou escuro. Hora de comprar cerveja, fumar o que desse, relaxar, comentar o show, namorar. Mas logo estavam todos gritando “Parou porque, porque parou?” ou “Única, Única!” ou ainda “John, John, John!”. Os berros foram ficando cada vez maiores.

No backstage, John foi dar uma mijadinha, Sthephanie e as mulheres retocar a maquiagem e trocar de roupa, Gilberto beber um pouco de tequila, Tom arrancar um beijo de Anna. Verificaram o set list e combinaram de alterar a última música do bis.

A catarse foi geral quando John surgiu sozinho e ficou olhando sorrindo para a platéia. Disse serenamente: - For Those About The Rock, We Salute You. – E a gritaria foi ensurdecedora. E todos da banda entraram e executaram o som do AC/DC, que atordoava com arranjos de piano elétrico e teclado, duas guitarras e percussão. Ao final John pulava como louco: “Shout!” e um canhão laser emitia um pulso ao céu da noite estrelada e ao mesmo tempo fogos explodiam em várias cores, deixando todos boquiabertos. “Shout!” e novamente o Morumbi estremecia. “Shouuuutttt!” e John ficou apoplético de tanto gritar no final estonteante da música, e o estádio parecia vir abaixo!

A reação atordoante da platéia não foi pouca, mas John não perdoou e mandou “Sweet Child O’Mine” do Guns com Sthephanie como guitarrista solo e Gilberto pegando sua guitarra cinza e fazendo a rítmica. E para surpresa de todos, foi a própria Sthephanie que começou cantando. Cantava acompanhada da voz do público com sua guitarra cor-de-rosa, e John pulava como a um doido de um canto a outro do palco, e depois provocando as tietes andava rebolando pela passarela. Arrancou beijos de língua de fãs e uma maluca apareceu totalmente nua na passarela, levada se debatendo pelos seguranças guarda-roupa.

Depois do solo de guitarra, John e sua mulher cantaram juntos até o final, agraciados com berros histéricos e aplausos mil.

- Thank you, people, thank you so much!
- Obrigada! Obrigada, galeraaaaaaaaa!

E  John preparou a última da noite inesquecível.

Só ficaram ele e Sthephanie no palco. Ambos sentaram-se em banquinhos e pegaram violões. E começaram a cantar sincronizados sorrindo um ao outro. O público não se conteve. A música escolhida foi o sucesso máximo da banda, que parara de cantá-la por algum tempo pois o público entrava em um estado de histeria máxima e chegara a invadir o palco em vários shows anteriores.

Mas eles decidiram mesmo assim cantar “There is One Angel for Every One”

Todos cantaram juntos. Cada um, seja o vendedor de cerveja, os seguranças, o guardinha ajudante de palco, todos cantaram cada sílaba de cada estrofe da música perfeita, onde cada palavra tinha o sentido do todo e toda a melodia fazia cada um ali presente sentir-se especial, sentir-se protegido, e todos percebiam a presença avassaladora de alguém único, um Todo Poderoso para quem a música servia de comunicação.

 O final foi... Não existem adjetivos para qualificá-lo. Mas todos, todos mesmo, choravam e se abraçavam, e a banda fazia reverências debaixo de uma chuva de fogos enquanto a gritaria e os aplausos eram ensurdecedores.

Foi o maior show da banda mais famosa do planeta.



quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Um conto Curto: Paraíso Perdido


Paraíso Perdido

A pequena nave desacelerou. Descrevendo um arco, desceu através da densa atmosfera daquele belo mundo até sua superfície. Pousou suavemente no interior do maior continente do planeta. Duas pessoas, bem equipadas e em trajes de segurança bastante reforçados, desceram pela rampa. Analisaram o lugar com pequenos aparelhos sensores.
        
O lugar onde estavam era como um imenso e maravilhoso jardim. Um relvado infinito estendia-se a perder de vista, bem cuidado. Flores de muitas cores abundavam. Árvores esparsas estavam carregadas de frutas das mais diversas matizes.

Aquele era o planeta que os terráqueos chamaram de Shangri-lá, e colonizaram com avidez, por suas qualidades visíveis. Mas o paraíso revelou-se traiçoeiro, e agora toda a população de colonos estava morta. Por quê?

Era o que aqueles dois cientistas vieram descobrir. Daijiro Sato e Collin McElis. Arriscaram suas vidas e desceram no pequeno planeta para saber o que matara oitocentas mil pessoas em questão de minutos.

         - Não há vírus ou qualquer outro agente contagiante na atmosfera, Collin.
        
         - A Equipe de Pesquisas da Deneva já tinha analisado todos os possíveis vírus ou outros seres microscópicos por aqui, Sato, sabe disso.

         - Foi apenas um comentário retórico, Collin. Resolvi conferir com meus próprios olhos.

         Analisaram pessoalmente, com o farto equipamento portátil que traziam, os corpos mais próximos, já em decomposição. Havia cadáveres espalhados por quilômetros naquela pequena vila de colonos. Não havia sinais de violência, não havia nada na comida que provocasse intoxicação, a atmosfera era melhor que a da Terra... E a pergunta persistia: do que morreram os colonos de Shangri-lá?

         - Captei algo estranho, Collin. Veja, o espectro aponta para o vermelho na faixa de neutrinos provenientes do sol deste planeta.

         - São apenas emissões comuns durante uma tempestade solar mais intensa... Neutrinos não tem massa, não podem interagir com um corpo... Mas, veja, observe a tela de monitoramente de radiação gama... Está nula... O planeta é perfeito! Veja o gráfico de composição atmosférica! Perfeita também! Shangri-lá é um paraíso completo, aquelas pessoas simplesmente não podiam ter morrido!

         Horas se passaram e os cientistas analisavam tudo o que podiam, e nada aparecia em seus sofisticados equipamentos que poderia dizer o que havia de errado no planeta. A nave-mãe de onde vieram, a Astronave de Pesquisas Deneva, entrou em contato. A resposta de Daijiro foi soturna:

         - Não encontramos nada, absolutamente nada, que possa ter exterminado uma população de oitocentas mil pessoas. Não há nada de errado com Shangri-lá! Os cadáveres estão tão sãos que era para todos levantarem, pularem e saírem dançando... Simplesmente não podem estar mortos!
         O Comandante da Deneva foi enfático:

         - Não é possível! Continuem pesquisando! Tem de haver uma resposta! McElis, Sato, estão me ouvindo?

         Mas não estavam. Ambos também caíram mortos.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012


Halloween


Era uma noite quente de 31 de Outubro e eu sabia que era Halloween, bem, pelo menos nos Estados Unidos, porque – dizem – no Brasil é o Dia do Saci. 

Não importa, o fato é que eu, sozinho em meu apartamento – ah, sim, A Carla me deixou e desde então vivia sozinho – liguei a TV para ver qualquer porcaria.

Estava um calor dos infernos e liguei o ventilador vendo um filme de terror, não me lembro direito o nome, algo como “A Morte Lhe Espera” ou “A Morte Te Pegou” ou qualquer coisa assim. 

No exato momento que o Serial Killer – e eu comendo flocos de milho velho, esse sim, um verdadeiro Cereal Killer – ia esfaquear a mocinha burra – sim, burra porque foi em um beco escuro sozinha à meia noite, só podia ser burra mesmo – bem, como eu ia dizendo, no exato momento que o assassino ia esfaquear a garota, eu tenso, tocou a campainha e voou cereal por toda sala no susto que tomei.

Levantei, mais bravo que touro espetado em touradas, abri a porta e um pirralho com cabeça de abóbora ergueu um saco preto:

- Gostosuras ou Travessuras?

- Ah, vai se catar.

Bati a porta.

Mas que melda! Bela tradição americana, esse Halloween, e os brasileiros, que só gostam mesmo é de festas, aproveitam. Bom, voltei a atenção ao filme. Agora o Serial Matador ia esfaquear outra burrinha quando de novo tocou a campainha. Boska!

Abri já preparado para uns berros quando notei que a fantasia do garoto era muito bacana. Um verdadeiro monstro gosmento.

- Gostosuras ou Travessuras?

Achei tão bacana a fantasia que fui pegar uma barra de chocolate – tão velha que a validade devia ser nos anos sessenta, mas garotos assim nem percebem – e entreguei para ele. Ele tirou a máscara e sorriu:

- Brigado, Tio!

Saiu comendo. Fechei a porta dando risada e voltei para o meu filmeco de terror. Mas nem bem eu sentei e de novo a maldita campainha.

E assim foi a noite toda, só acalmando lá pelas vinte e duas. Acho que toda a criançada do meu prédio veio pedir doces, mas eu só tinha dado aquele chocolate para o gordinho da fantasia de monstro. Que encheção de saco!

Tomei uma ducha fria para aliviar o calor estonteante e fui dormir, mas enquanto tirava a roupa, tocou de novo a campainha. Puto da vida, vesti a calça e fui abrir a porta. Era o garoto com a fantasia de monstro de novo.

- O que você quer, pentelho, já não te dei um chocolate hoje?

- Sua alma.

- Ah, vai te catar.

Bati a porta e tranquei. Que moleque idiota e atrevido!

Fui deitar, deitei e no que virei, a luz da lua cheia entrava enviezada pela persiana do quarto. Sorri, começando a pegar no sono... Quando notei uma sombra passar pela janela. 

Passou de novo. Como? Levantei a persiana, só a bela lua e estrelas no céu. Abri a janela e olhei... Dez andares e nada mais... Devo estar sonhando... No que fechei a janela, senti algo atrás de mim no quarto e me arrepiei.

Virei devagar com o coração acelerado. Nada... Fui ao banheiro, acendi a luz e joguei água no rosto, devo estar ficando doido, pensei, mas quando me enxuguei vi de relance alguém através do espelho. Virei-me depressa, o coração saindo pela boca...

Peguei o rodo que ficava ali no banheiro e saí devagar... O quarto na penumbra, parcamente iluminado pela lua cheia. Percebi que tremia. Um barulho veio da sala.

Corri para a sala. A TV estava ligada sem sintonizar nenhum canal, sem som. Como? Não sei. Com o rodo em mãos, olhei para os chuviscos na tela. Dei um pulo para trás quando um filme preto e branco surgiu.

Caí sentado no sofá, suspirando mais aliviado. Devia ser apenas obra da minha cabeça, pensei. Estava sozinho há tanto tempo que estava ficando doido.

O filme era estranho. Era uma sala com um cara sentado e... Mas, puxas que partiu, era eu... Minha sala, eu, meu sofá! Arrepiado até o fundo da alma, levantei e peguei o rodo. Olhei em volta. Meu Deus, o que é isso?

Tudo o que eu fazia acontecia no filme, mas era como a câmera estivesse na TV, era o ponto de vista da TV! Cruzes! Mesmo de cueca, decidi fugir, fui até a porta da frente e no que abri estava lá o gordinho de fantasia de monstro.
- Quero sua alma. - Repetiu, com aquela voz de criança.

Bati a porta da frente, com o coração pulando em meu peito, encostado de costas para ela. Segurei forte o rodo. E eu de cueca! A TV apagou.

Ouvi um barulho na cozinha. Fui, pé-ante-pé, até lá. O microondas estava funcionando sozinho. Deu o sinal e apagou. Fui até ele e quando abri a porta eu vi... Bom, dei um berro que era para ter acordado o prédio todo. Minha cabeça estava lá dentro, toda estraçalhada. Mesmo assim eu me reconheci.

Berrando como louco, na verdade com um medo que jamais senti antes, fui em direção a porta da frente, a abri de supetão, decidido a passar por cima do gordinho, mas saí mesmo em um lugar lúgubre.

De cueca e rodo na mão, olhei em volta, incrédulo. Abracei o rodo. Onde, porta que partiu, eu estava!?

Era o mesmo beco escuro onde vi, naquele filmeco de terror, a garota burra ser esfaqueada. Foi quando olhei para a lixeira e vi o Serial Killer. O mesmo do filme! E ele vinha em minha direção! Socorro! Juro que gritei como um bebê desmamado!

Larguei o rodo e saí correndo e quando me dei conta era uma tarde estranha. 

O céu estava laranja! O silêncio era terrível, nem uma mosca voava... E eu reconheci as ruínas em torno da rua esburacava onde eu estava.

Uma melda de um filme de zumbi que vira no dia anterior... E eles apareceram. Zumbis de todos os lados. Corpos putrefatos, braços caindo, cabeças viradas em ângulos impossíveis!

Corri como louco, e entrei em um túnel escuro.  Uma bruxa horripilante surgiu do nada com sua vassoura. De seu rosto desfigurado escorria uma gosma nojenta e tinha verrugas imensas.

- Vou transformar você em um rato e comê-lo, seu idiota!

Chorando como uma mulher traída, encolhi-me todo e quando me dei conta estava em cima de uma árvore.

- Pare, senhor! Pare!!! Desça daí!

- Hã, o quê...? – Foquei os olhos e era o Síndico.

- Para de gritar! Você está gritando como louco, alucinado, de cuecas ridículas em cima de uma árvore do jardim do nosso prédio! Ficou maluco, é?

- Como? Como eu vim parar aqui?

- E eu sei?

- Eu sei, seu filho de uma égua!

Era o meu vizinho médico que falava.

- Você comeu cereais de milho vencidos e mofados, seu idiota! O mofo fez você ter alucinações! Que viajem, hein? Eu fui reclamar por você ter dado chocolate estragado para o meu filho, que está vomitando até agora, e encontrei esses flocos que estava ingerindo, seu imbecil!

Eu apanhei. Não só do médico como de umas senhoras do prédio, e saí de cueca correndo pela rua, perseguido por uma delas...

Mas ela não queria me bater. A senhora de sessenta anos me abraçou.

- Ai, filho, você é tão gostoso... Venha para minha casa que cuido bem de você... Vou te alimentar bem, te dar cama, comida e amor.

Porque não? Estava sozinho há tanto tempo...                          

E fui... Por isso agora sou apenas um fantasma A danada era mesmo uma bruxa – elas existem! - e fez um ensopado comigo...


Esse texto foi psicografado por Matheus Borgalem Beretto para o escritor-místico Vitor Hugo B. Ribeiro


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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Um mini conto para refletir, de minha autoria:


            Rogério era um bombeiro de mau com a vida. Naquela semana de chuvas ininterruptas, Rogério havia batido o carro, brigado com a noiva e, pior de tudo, fora assaltado por um adolescente. Estava agora indo resgatar uma família de debaixo de um rio de lama, que soterrara seu barraco. Em meio a chuva forte, Rogério entrou nos escombros do casebre. Toda a família estava morta, exceto um rapaz. Ele clamava por sua vida, porém Rogério hesitou. Ele reconheceu o adolescente como sendo o que o roubara na noite anterior. "Maldito", pensou. "Não vou salvar este miserável. Ele perdeu a família, e é um ladrãozinho. Não merece perdão! Que morra!".
            Contudo, forçou-se a resgatar o rapaz. Não conseguiria viver em paz com sua consciência se não o fizesse. E o salvou. Ele agradeceu muito, entre lágrimas.
            Anos se passaram, e Rogério havia deixado a Corporação e dedicara sua vida à outras atividades. Casara-se, tivera filhos e aposentara-se. Seu filhos eram sua vida, dois belos rapazes. E tinha uma casa modesta onde todos viviam, e cujo destino era incendiar-se. Durante o incêndio tentou salvar seus filhos, mas não havia como... Ele era velho, e eles estavam presos no quarto. "Vou perder meus filhos! Meu Deus, me ajude, não deixe que eles morram!". Alguém chamara o Corpo de Bombeiros, mas estava impossível chegar até o quarto. Um homem, entretanto, aventurou-se a enfrentar as chamas. Era um bombeiro valoroso, pensou Rogério. Aquele homem arriscou sua vida, queimou-se, mas salvou os dois filhos de Rogério, que agradeceu-lhe imensamente.
            "Não se lembra de mim, velho homem?", perguntou o salvador.
            "Não, rapaz".
            "O senhor era bombeiro e resgatou-me do soterramento de meu barraco. E olhe que eu havia assaltado o senhor um dia antes! Quando salvou-me, decidi entrar para a Corporação... E estava de folga hoje, mas por acaso ouvi o chamado deste incêncio e decidi vir ajudar... Foi Deus quem me trouxe aqui. Agora eu retribuí o seu perdão".