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sábado, 3 de abril de 2010

A Churrascaria (Parte III - Final)

Ouviram automóveis.
- A estrada, Tel! Força, se a gente chegar na estrada a gente se salva!
Apesar de não conseguirem vê-la, ouviam os carros e caminhões cada vez mais perto na movimentada rodovia.
Um último arbusto vencido e subiram por um barranco de terra até o acostamento da estrada. Os veículos passavam zuinindo e o casal fez sinais e pulou, mas ninguém sequer diminuiu a velocidade.
- Tel, eles não vão parar. Vamos correr até um outro posto.
- Eu vou me jogar na frente de algum carro, Di. Ou então vou levantar o meu top e mostrar os peitos que alguém para, ah, se para!
- Não diga bobagem. Vamos!
E correram pelo acostamento. Avistaram um posto da Polícia Rodoviária e contentes apertaram as passadas.

Ofegantes explicaram aos solícitos guardas rodoviários tudo o que viram e ouviram. É claro que não acreditaram e um deles chegou a fazer teste do bafômetro tanto em Adilson quanto em Telma.
O tenente Villar finalmente concordou em pelo menos verificar a churrascaria.
- Subam na viatura. Eu sempre almoço no El Corazon e nunca soube de nada errado, a carne que servem lá é picanha, cupim, coração de galinha...
- Por favor, seu guarda, - Telma estava totalmente aflita - eu vi uma mulher sendo assada na churrasqueira, eles comem mulher lá!
Os outros guardas explodiram em risadas. O tenente Villar demonstrou paciência.
- Não se preocupe, cidadã, vamos averiguar.
A viatura parou no estacionamento lotado do El Corazon. Todos desceram. Telma estava relutante.
- Eu não quero voltar aí.... Chamem os meus pais!
- Eu vou com eles, Tel. Olha, seus guardas, vamos primeiro falar com os pais da minha namorada e ver se tá tudo bem, certo?
Villar e os outros dois policiais concordaram e os quatro entraram na churrascaria cheia de gente. Adilson avistou Jorge e Elza. Chegou até eles, nervoso.
- Eu explico depois. Por favor, saiam. A Telma está lá fora no carro de polícia.
Jorge ficou extremamente irritado e colocou-se de pé, apontando o dedo em riste para Adilson.
- O que você aprontou? Se machucou minha filha eu te mato!
- Calma, doutor – disse Villar. E contou tudo o que Adilson e Telma lhes dissera.
- Isso é um absurdo completo. Adilson, você deu drogas à minha filha?
Elza levantou-se e segurou os braços do tenente Villar.
- Nós nem almoçamos ainda. Estávamos aqui nervosos esperando esses dois que nunca voltavam. Estamos aqui à horas, o gerente saiu à procura deles. Será verdade essa história absurda?
- Claro que não, esses dois aprontaram alguma! – Jorge já gritava.
Villar fez um sinal e os outros dois policiais seguiram-no, as mãos segurando o cabo das armas no coldre.

Chegaram ao quintal da churrascaria. Não havia nada lá. Verificaram tudo. Um dos policiais checou a cozinha, outro experimentou as carnes.
Voltaram e sentenciaram aos pais de Telma e à Adilson:
- Não há nada de anormal aqui. Nada! Rapaz, quero que você e sua namorada me acompanhem até o posto, que quero interrogá-los. Essa brincadeira vai custar caro à vocês! Venham!

Dois dias depois e Telma acordou de um pesadelo. Lavou o rosto, escovou os dentes e desceu tomar café da manhã, já estavam em casa depois dos problemas e da longa viagem de volta.
- Ainda bem que você está de férias, né, filha? – Disse Elza ao servi-lhe o leite.
- Ainda bem, mãe. Não ia ter saco para ir à faculdade depois de tudo.
Elza saiu da cozinha. Telma passou geléia no pão e o devorou, ficara dois dias sem comer e estava faminta.
Seu pai entrou sorrindo.
- Bom dia, filha, tudo bem?
- Sim, pai. O Adilson ligou? Desde que voltamos ele não me liga.
- Ele está bem pertinho de você, agora, filha.
- Hein?
- Gostou da geléia?
- Eu... Gostei, tem um gosto diferente.
- Pois é. Essa geléia foi feita do cérebro do seu namorado. Em bem que disse que ele tinha o miolo mole.
Telma deu um pulo, cuspiu e teve ânsias. Olhou seu pai, chocada.
- Como? Pai, não brinca...
- Não é brincadeira. Veja ali naquele vidro em cima da geladeira.
Telma olhou aterrorizada o vidro enorme sobre a geladeira. A cabeça de Adilson, sem seu cérebro, olhava para ela com os olhos arregalados.
Seu grito foi de gelar o sangue. Ela desmaiou.

Quando acordou, estava amordaçada. Estava amarrada em sua cama.

Seu pai entrou com um açougueiro gordo, com o avental sujo de sangue e segurando dois enormes facões.
- Veja, Telma, este é o dono da El Corazon. Ele ensinou eu e sua mãe a apreciarmos carne de primeira. Seu namorado rendeu um belo churrasco.
Telma tentou soltar-se e gritar, mas estava bem presa e amordaçada. Ela começou a tremer violentamente.
- Bem, sr. Ruffinno, quero-a bem fatiada. Meus amigos vem para a churrascada amanhã e eu e Elza queremos serví-la mal-passada.
- Pode deixar. Já preparei a churrasqueira e meu churrasqueiro vai salgá-la bem, nós a assaremos viva em sal grosso.
- Adeus, Telma. Tente relaxar enquanto é cozinhada, senão sua carne fica muito dura.
Seu pai saiu e fechou a porta. Ruffino desamarrou-a.
- Tire suas roupas. Não dá para assar você de roupas. Se ficar calma morre mais rápido e não sofre tanto.
Telma mostrou-se passiva e fez que ia tirar a blusa. Mas virou-se, e com rapidez tomou um dos facões de Ruffinno e meteu-lhe no estômago.
- Morre você, filho-da-puta! – E enfiou-lhe o facão várias vezes. O açougueiro titubeou.
Então, para completa surpresa de Telma, ele se recompôs. Tirou o facão enterrado da barriga. – Tsc, tsc, tsc. Que feio. A comida querendo matar o cozinheiro.
Telma começou a chorar:
- O... O quê é você? Você não pode estar vivo, não pode!
- E não estou. Nem seu pai, nem sua mãe. A churrascaria El Corazon é o local de reunião dos zumbis carnívoros. Nós já morremos, mas um vírus nos fez levantar dos túmulos e viver de carne humana. Só a carne humana nos alimenta.
- Não... Não, por favor, não... É um pesadelo...
- Sinto muito, querida, mas não é. E não vou ficar discutindo com a comida. Agora, se for boazinha e despir-se, tudo fica mais fácil...

FIM

2 comentários:

  1. Olá Vitor.

    Interessante, como você disse é um teste, mas gostei... Mas fiquei na dúvida, se eles estão mortos como podem ter filhos? Só se eles tiveram a Telma antes de morrer e ela nem notou que os pais morreram e voltaram. Ou a Telma era adotada...

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  2. Na verdade estava tudo normal e a Telma era mesmo filha deles até entrarem na churrascaria. Enquanto esperavam serem servidos, quando o casal de namorados foi ao quintal da Churrascaria, eles foram contaminados pelo vírus e virarem zumbis canibais!

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