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sábado, 4 de junho de 2016

O Livro de Solange - Primeira página



Capítulo Um


O rapaz magro e alto sorriu ao ver um sebo na avenida. Estava cansado demais, depois de passar o dia procurando emprego. Um livro, mesmo que usado, faria bem a sua alma naquele momento complicado por qual passava.
Entrou se deliciando com os milhares de livros de todos os tipos, grandes, pequenos, semi-novos, velhos, lidos e relidos.
Não tinha o que fazer a tarde toda, então decidiu explorar e esmiuçar as estantes atulhadas até encontrar algum tesouro. Seus olhos castanhos brilhavam com as aventuras ali encerradas, as histórias bem ou mal contadas, os ensinamentos sobre diversos assuntos. Ficção ou não-ficção, não importava. Ricardo Antônio Berille adorava ler. Lia até bula de remédio ou revista dos anos 1980 em consultório de dentista.
Seu rosto nada tinha de incomum, mas seu cabelo escuro, curto e bem cortado chamava a atenção. Fizera a barba para as entrevistas por qual passara naquele dia ensolarado e quente, mas sua ex-namorada sempre lhe dizia para deixá-la crescer, ou pelo menos, deixar o rosto com alguns pelos, de forma “bem máscula”, como ela costumava lhe dizer.
Suspirou. Marcinha era uma gata linda, mas seu romance com ela fora há séculos. Brigaram feio e ela acabou se casando com J. Pinto Fernandes, que não conhecia.
Depois de algum tempo, deparou-se com uma passagem estreita que levava a uma sala contígua. Passou de lado e deu uma risadinha ao ver alguns clássicos a preço de banana. Contudo, um livro de capa vermelha lhe chamou a atenção e ele o retirou com dificuldade de entre dois grossos volumes da “Enciclopédia Ilustrada Universal”.
O nome era estranho. “A Verdade Sobre o Amor”, escrito por um autor que nunca ouvira falar, H. G. Willians.  Na folha de rosto, estava uma dedicatória autografada para uma tal de Solange. A data era bem recente.
Solange - ou ele imaginara que era ela, pois a letra era diferente -, escrevera na página em branco, antes do primeiro capítulo: “Sei que este livro fará com que eu volte a ser eu mesma, que eu volte a amar”. Havia uma rosa seca grudada ao lado do texto. Surpreendido, Ricardo começou a ler o capítulo um:

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Poema para as Mães

Escrito por meu pai, João Ribeiro Júnior.

 

HOMENAGEM ÁS MÃES
                       
                                                                                              JOÃO RIBEIRO JUNIOR

O VOSSO AMOR, Ó MÃES, É INDULGÊNCIA,
 É SOMBRA, É ABRIGO,
É SALVAÇÃO À BORDA DO PERIGO,
É A MÃO SOBRE NÓS, DA PROVIDÊNCIA.
É  SOL AMIGO
É AGASALHO.
 É A ÁRVORE DA VIDA.
É TUDO QUANTO AQUI EU NÃO CONSIGO
EXPRIMIR O QUE ELE É NA SUA ESSÊNCIA.

Ó MÃES! VÓS SOIS COMO A ÁRVORE QUE FLORESCE
FLORES, TRATADAS COM CARINHO,
ORVALHADAS PELAS LÁGRIMAS DA ALEGRIA,
E PELO CALOR DE VOSSA MISSÃO.

Ó MÃES! VOSSA HUMILDADE É INFINDA
ACEITAIS TUDO QUE A VIDA OFERECE
SORRINDO ATÉ  NA DOR
NA ROGATIVA DA PRECE.

Ó MÃES! COMO SOIS SUBLIME, EM  VOSSO SOFRER
COMO SOIS SUBLIME EM VOSSA ALEGRIA
Ó MÃES! SIM VÓS SOIS A DIVINA ÁRVORE
QUE ESTENDE UMA SOMBRA IMENSA.
VOSSOS FRUTOS CONTEM A DIVINA ESSÊNCIA
QUE IRÁ ALIMENTAR OUTRAS SEMENTES
QUE ALCANÇARÃO OS CICLOS BENÉFICOS
DA VIVÊNCIA PURIFICADA.

Ó MÃES!  Ó ALMAS DILETAS!
SOIS A VISÃO PURA DE TODOS OS POETAS!

Ó MÃES! ACEITAI ESTES VERSOS
ESTA MINHA HOMENAGEM
TÃO RUDE EM SUA LINGUAGEM
MAS FRUTO DO CORAÇÃO.



 

sexta-feira, 15 de abril de 2016



A triste realidade gay no Brasil e no Mundo.


    Os últimos debates políticos têm mostrado que, infelizmente, ainda existe muito preconceito contra homossexuais e a comunidade LGBT no nosso país.    

    A decisão do Supremo Tribunal Federal de reconhecer uniões estáveis de casais homossexuais foi um avanço, porém as constantes notícias de gays e travestis sendo assassinados em todo o país é lastimável. 

    Uma pesquisa de 2013 mostrou que um homossexual é morto a cada 28 horas no Brasil,  certamente configurando triste recorde negativo. Nosso país é campeão mundial em assassinato de gays. Sociólogos tentam entender o porquê dessa violência insana.

    Na época do Brasil colônia, a sodomia era delito grave. A relação entre pessoas do mesmo sexo era considerada criminosa a até mesmo os familiares do homossexual eram punidos, perdendo todos os seus bens para o governo. Quando a homossexualidade deixou de ser crime, o preconceito continuou, só mudou de forma. Ficou um pouco mais velado.

    Esta claro que a homofobia já existia nos primórdios da civilização, onde era incutido desde cedo, na mente de homens e mulheres, que relações homossexuais seriam "pecaminosas". "É errado", diz o pai, completando: "prefiro um filho (ou filha) ladrão do que gay". Este tipo de pensamento, que ganhou força na idade Média - principalmente pelas mãos da Igreja Católica, que tinha muito poder à época - , continua a vigorar na cabeça de muitas pessoas, mesmo aquelas que se consideram "sem preconceitos" (mas apenas da boca para fora). 

    Homofobia é um termo inventado pelo psicólogo americano George Weinberg, para mostrar o medo (irracional) das pessoas em relação à comunidade LGBT. O Parlamento Europeu definiu a homofobia como totalmente fora da realidade, “um sentimento irracional de medo e de aversão em relação à homossexualidade e às pessoas lésbicas, bissexuais e transgêneros”, diz uma resolução emitida em 2006 pela comunidade europeia, explicando o termo. 

    Esta claro que o homossexualismo é natural, ao contrário do que dizem senadores, deputados, candidatos ou pastores, no Brasil e no mundo. Acontece até entre animais. Em 1999, uma pesquisa feita por Bruce Baguemihl, biólogo canadense, mostrou que foram observados comportamentos homossexuais em mais de 1.500 espécies diferentes, desde primatas até vermes intestinais (!). No mundo, assim como no Brasil, estima-se que de 10% a 16% da população seja homossexual ou bissexual, e esse número pode ser muito maior, pois existe um percentual não calculado de "enrustidos". Impossível que boa parte da população esteja "doente" ou não seja "natural". Deputados, senadores, pensem bem, são em torno de 20 milhões ou mais o número de gays eleitores, no nosso país... 

    "Dois iguais não fazem filhos". Verdade. Mas podem adotar o número imenso de crianças que esperam adoção neste e em outros países. "Vai reduzir a população mundial". Números de diversas fontes confiáveis mostram que a população no Brasil e no mundo só aumenta, e o planeta nem vai aguentar muito tempo essa imensa densidade populacional que cresce exponencialmente. Ou seja, um argumento totalmente inócuo.

    Afinal, o que importa se uma pessoa é gay, verde, feia, magra, obesa? Pessoas são pessoas. O sangue é o mesmo. Se não gosta de homossexuais, não quer dizer que precisa maltratá-los. Isso não vai reforçar seu lado hétero, e sim mostrar que talvez tenha um lado gay que quer ocultar. O verdadeiro ser humano é aquele que respeita a diferença e não se preocupa com a sexualidade do outro. A comunidade LGBT agradece.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A Irmandade do Espaço-Tempo

Por Vitor Hugo Brandini Ribeiro
Iniciado em 28/04/2015

Capítulo 01

            Rafael Kyllard admirou as estrelas apinhando o céu, na noite quente e úmida, da sacada do Hotel Belas Artes em São Paulo. Tinha acabado de chegar de sua última missão em Karez e estava apreensivo com o conteúdo da reunião secreta da Irmandade, que aconteceria dentro de instantes.          
            A Irmandade do Espaço-Tempo era uma entidade particular sem fins lucrativos que funcionava nos bastidores da UniCiv, a União das Civilizações, durante aquele período conturbado depois de 200 anos de paz e crescimento.
            Havia guerras em determinadas partes da galáxia da Via-Láctea, e a UniCiv já alcançava um terço dela, em uma expansão considerável. Porém suas fronteiras estavam ameaçadas por raças beligerantes e mesmo internamente, governos aliados estavam quase iniciando uma guerra civil. Com exceção da região da Terra e adjacências, havia muita instabilidade depois de anos de tranquilidade e prosperidade.
            Rafael nascera em Galileus, planeta que já fora colônia da Terra e onde a inteligência artificial de última geração havia sido criada. Descendia de italianos e seus olhos eram castanhos e belos. Tinha cabelos negros levemente encaracolados, um metro e noventa de altura e constituição forte. Sentia saudade de sua cidade natal, Nova Roma, já que fazia certo tempo que não retornava, devido às missões constantes que a Irmandade lhe dava.
            Seu computador avisou-o que estava na hora de ir à reunião. Por um instante fugaz pensou como teria sido difícil a vida no passado sem a tecnologia moderna, como aquele computador implantado em seu cérebro.
            A sala de conferências alugada do hotel pela Irmandade estava quase vazia. Apenas o Mentor estava sentado na ponta da grande mesa de carvalho e a bela Lindsey de pé anotando algo em um pad.
            Lindsey Tranley. A lindísisma tevariana de orelhas pontudas, olhos azuis e cabelos dourados usava uma mini-saia para lá de provocante. Rafael sorriu. Suspirou, mas conteve-se. Sabia que mais tarde teriam uma noite agitada de muito sexo na suíte em que estava hospedado. Sempre que voltava a Terra, ele e ela se entregavam furiosamente, como se mais nada existisse.
            - Sente-se, irmão-comandante Kyllard. Parabéns pelo sucesso na missão em Karez.
            - Obrigado, Mentor – o homem-máquina era alto, cabelos e barbas brancas espessas e olhos de um verde profundo. Pele negra como ébano e corpo muito grande, resultado da engenharia genética. Em seu cérebro havia apenas restos de engramas da memória de Rodrigo Maulson, criador da Irmandade há 120 anos. Agora mais androide do que humano, com uma sabedoria imensa, comandava a Irmandade.
            - Eu o chamei aqui por causa de uma nova descoberta da Espiral. Ao que parece, existe um planeta na Constelação de Tucana, mais precisamente no aglomerado estelar de 47 Tucanae, na estrela Tucana Beta, de formação curiosa.
            - Parece uma região sem grandes atrativos. Se não estou enganado, fica a 14.000 anos-luz da Terra e recentemente foi agregada à UniCiv. O senhor disse, “formação curiosa”?
            - Exato. A nave de pesquisa Hawking da Espiral esteve mapeando a região e encontrou esse planeta, um gigante gasoso imenso.
            - Muito comum no Universo, senhor.
            - Ah, mas com um detalhe. Seu núcleo é rochoso, e além das camadas gasosas normais de um planeta deste tipo, existe uma atmosfera estável de oxigênio e nitrogênio. E a gravidade é manipulada. Exatamente 1 g.
            Rafael observou o Mentor incrédulo. Levou segundos para assimilar a informação.
            - Eu ouvi direito?
            Lindsey finalmente interrompeu a conversa e sentou-se ao lado do irmão- comandante com um sorriso. Mostrou-lhe seu pad.
            - Olhe, querido. A Hawking obteve esses dados misteriosos no ano passado. Tudo indica uma civilização extremamente avançada, mas por algum motivo a Espiral  se afastou de lá e mantêm segredo sobre a descoberta. Até a Força Azul não se aproxima, e apenas patrulha a região.
            - Que estranho – Rafael tomou o pad em suas mãos e tocou a superfície para visualizar os dados que desejava. – Bom, o senhor quer que eu vá até lá, Mentor?
            - Exato – O mentor gesticulou no ar e imagens tridimensionais de alta definição apareceram sobre o tampo da mesa. – Observe como a região foi isolada, na surdina, por naves de patrulha da Força Azul. Tudo isso é cercado de muito mistério. Quero que leve sua tripulação para investigar este planeta, que a Espiral chama de Junia.
            - Junia? Parece um nome bíblico daquela antiga religião...
            Lindsey deu uma risada curta.
            - Na verdade é o nome da filha do capitão da Hawking. A Espiral está ficando sem inspiração para nome de novos planetas.
            Rafael Kyllard admirou a imagem tridimensional do planeta Junia. Era bonito, com pequenos anéis e muitas luas, como a maioria dos gigantes gasosos. As tempestades da atmosfera estavam lá, e era multicolorido, como Júpiter no próprio Sistema Solar. Intrigante. A Espiral, o braço científico da UniCiv, era conhecida por sua discrição. Se haviam descoberto algo inusitado, iriam pesquisar muito antes de divulgar informações sobre o planeta.
            Contudo, Rafael notou que não havia nave alguma da Espiral na representação gráfica tridimensional acima do tampo da mesa. Apenas naves da Força Azul, o braço militar da UniCiv.
            - Por que os cientistas da Espiral não estão pesquisando o planeta, se foi descoberto no ano passado?
            - Aí que está – o Mentor colocou-se de pé e aproximou-se do comandante, colocando a mão em seu ombro. – Não sabemos. Quero que entre camuflado no aglomerado e vá até Junia. Tente levantar o máximo de informações sobre o planeta. Descer à superfície solidificada em seu interior é quase impossível por causa da atmosfera gasosa externa, mas entre em órbita e obtenha o máximo de informação que puder.
            Rafael colocou-se de pé e deu um curto abraço no Mentor, como era de praxe.
            - Entendido. Partirei assim que a Ísis estiver reparada, abastecida e pronta. Acredito que poderemos partir em dois dias. Usaremos a demodulagem para nos camuflarmos como da última vez em que enfrentamos os devonianos em Ártica.
            - Está funcionando corretamente?
            - Sim, embora sempre iremos correr o risco de sairmos de fase do universo definitivamente e nos perdermos entre os multiversos.
            Lindsay revirou os olhos.
            - Comandante, sempre me fazendo tremer. Eu vou nessa expedição, sabia? Não precisa me assustar mais do que estou.
            Rafael encarou o Mentor e apontou a tevariana com o polegar.
            - Ela vai nessa missão?
            - Sim. A irmã Lindsey Tranley é especialista em novas culturas e primeiros contatos, o que pode ser importante nesta expedição. Ela trabalhou anos na Espiral, não sabia disso, irmão-comandante Kyllard? – diante da negativa do galeliano, o Mentor deu um sorriso discreto. – Pois deveria, afinal a leva para a cama todas as vezes que volta à Terra.
***
            A Ísis era uma nave civil moderna e bem equipada. De porte médio, com dez decks e tripulação de cinquenta pessoas entre operadores, seguranças e cientistas, tinha perfil aerodinâmico e bons motores interversais. O irmão-comandante Rafael Kyllard, além de chefiar o setor de expedições da Irmandade, também era o capitão da nave. Além disso, servia como braço direito do Mentor, sendo seu homem de confiança no espaço profundo.
            Lindsay, sempre toda sorridente e faceira, entrou na Ísis pelo tubo de ligação entre a bela nave e o estaleiro orbital Lunar 5. Sempre se admirava com o conforto e a decoração luxuosa da mais importante das três astronaves da Irmandade, e foi direto à ponte de comando, reencontrar Rafael, depois de uma noitada tórrida com ele no hotel em São Paulo.
            O comandante falava com o imediato Lucas Silvar, o fechado e turrão terráqueo que sempre estava ao lado de Kyllard e morreria por ele, se necessário. Nascido no distrito do Brasil, mulato de olhos negros, parecia estar sempre de mau humor e algumas pessoas afirmavam que ele nunca sorriu na vida, o que não era verdade.
Lindsay Tranley entrou de supetão.
            - Oi, meu amor. Quando partimos e onde vou ficar, na sua cabine?
            Rafael ficou surpreso. Não que não gostasse de Lindsay, mas estava atraído apenas pelo corpo dela, e apesar de ser uma socióloga respeitada e ter cargo importante na Irmandade, dava impressão que era uma desmiolada. Era o jeito dela. Quando precisava, se concentrava e ficava séria, mas na maior parte das vezes, era meio... “maluquinha”, nas palavras do Mentor.
            - Tem uma cabine designada para você, srta. Tranley, no deck 4, o dos cientistas, e, por favor, dentro desta nave exijo respeito e comportamento adequado.  Aqui dentro e em missão você deve me tratar como irmão-comandante Kyllard ou simplesmente como capitão.
            Ela bateu continência, como os antigos militares faziam.
            - Sim senhor, senhor capitão! – virou-se e saiu pisando duro em direção ao turbo-elevador.
Irritada, a tevariana roeu as unhas enquanto descia até o deck dos cientistas. Disse em voz alta, ralhando os dentes.
- Eu o odeio, Rafael Kyllard!
***
            Luciana Katnik recebeu a informação que precisava em seu computador. Como a maioria dos cidadãos da UniCiv, tinha chips integrados ao seu cérebro como computador  pessoal, e em sua retina apareceram os dados que ela desejava. Seguiu o corredor de decoração espartana até o portão do tubo que ligava Lunar 5 à Ísis.
            Identificou-se com o robô-porteiro e aguardou, admirando pelas amplas janelas a Lua embaixo do estaleiro. Quando lhe foi permitida a entrada, suspirou. Estava nervosa em partir para o que os terráqueos chamavam de espaço profundo. Nunca saíra do Sistema Solar em todos os seus 32 anos de vida.
            Achou a Ísis muito ampla, iluminada e bem decorada. Porém, isso não diminuiu suas preocupações e torcia as mãos. Seu computador indicou a direção da ponte de comando e para lá se dirigiu.
            Esguia, longos cabelos ruivos e olhos verdes - de uma beleza invulgar -, tinha um Q.I. elevado e uma voz doce e aveludada. O Mentor a contratara para a expedição à Junia porque tinha poderes psíquicos como clarividência, percepção extrassensorial e uma fraca telepatia – apesar de os telepatas terem sido banidos da UniCiv há muito tempo. Nascera em Gammarod, mas tinha descendência humana.
            - Bem-vinda a Ísis, senhora Katnik. O Mentor já transmitiu todos os seus dados ao meu computador pessoal. Agradeço muito que tenha aceitado o convite da Irmandade.
            Luciana achou o capitão muito atraente. Estremeceu sob seu olhar e engasgou-se:
            - O-Obrigada. Eu confesso que estou um tanto receosa. Nunca viajei tão longe.
            - Não se preocupe. Será apenas uma expedição de exploração da Irmandade. A nave é bastante segura e terá todo o conforto que pudermos oferecer. Seu marido, o coronel Pillar, foi enfático quando falou que deveríamos cuidar muito bem da senhora.
            Luciana fechou a cara. Seu casamento estava abalado, e a prepotência de Amon Pillar estava ficando insuportável. Estava feliz de poder ficar longe dele durante aqueles dias da missão à Junia.
            - Lucas, acompanhe a senhora Katnik até sua cabine – Rafael não tirou os olhos de Luciana, achando-a extremamente sensual. – Sua bagagem já está lá e a sua disposição, senhora.
            - Muito obrigada por sua hospitalidade, capitão.
***
            A Ísis partiu no horário previsto, dois dias após a reunião com o Mentor e a tripulação já trabalhava com vontade enquanto a nave se afastava da órbita da Lua.
            Na ponte de comando, bastante convencional, Rafael observava seus monitores e ordenou que fosse traçada a rota para a constelação de Tucana. Naquela época, 14.000 anos-luz com uma astronave rápida como a Ísis seria uma viagem de dez dias.
            Além de usar os conhecidos e comuns wormholes, buracos no espaço que atravessavam a galáxia, as naves avançadas da UniCiv no ano 3.000 usavam propulsão de fase, obtendo uma colossal energia da fusão de átomos de multiversos diferentes. A Relatividade de Einstein era driblada com a chamada compressão temporal, onde o tempo era transformado em pacotes-crono.
            O conhecido torvelinho do wormhole surgiu à frente da Ísis e a nave mergulhou no anti-espaço, em direção ao planeta Junia.
            O engenheiro denebiano Alfen Ak-Tab cuidava dos motores da Ísis. Como todo ser nascido em Deneb, tinha pele verde, olhos vermelhos e antenas. Quando a nave já se encontrava em velocidade de cruzeiro, horas depois de terem deixado o Sistema Solar, o capitão Kyllard foi vê-lo.
            - Como estão as coisas por aqui, meu velho?
            - Motores funcionando normalmente, consumo de sal dentro dos parâmetros, meus cinco auxiliares são uns incompetentes e espero que o senhor não enfie a Ísis de novo perto de um buraco negro. Se eu morrer nessa viagem pedirei demissão!
            - Entendido – Rafael segurou a risada. – Até que ponto você acha que a nave aguentaria mergulhando na atmosfera de um planeta gigante gasoso?
            - maluco? Onde o senhor vai enfiar a Ísis desta vez?
            - Eu agradeceria se fosse um pouco mais objetivo, meu velho. Estamos indo a um planeta misterioso que tem uma atmosfera normal sob uma outra, típica de gigantes gasosos.
            O denebiano agitou as antenas.
            - Nunca vi nada assim, tem certeza que isso é possível? Só pode ser algo artificial.
            - Acredito que sim. Uma civilização bem avançada deve estar escondida lá e iremos investigar. Então, você acha que a Ísis aguentaria atravessar as camadas de gás ionizado e tempestades até alcançar a superfície do planeta?
            - Claro que depende da espessura dessas camadas, mas eu posso reforçar os escudos transcinéticos. Verei o que posso fazer, capitão.
            - Sei que fará o melhor, meu velho.
***
            Luciana Katnik entrou na luxuosa sala de jantar do capitão da Ísis um tanto nervosa. Rafael a convidara para jantar com ele e com outros oficiais da nave.
            Observou já à mesa, além de Kyllard, um thoriano que não conhecia, o imediato Lucas Silvar e - para seu alívio -, a doutora Prester Lings.
            Lings era a médica-chefe da Ísis e velha amiga de Luciana. Japonesa de Marte, tinha senso de humor aguçado e podia diagnosticar uma doença só olhando para o paciente. Era empática. Fora muito perseguida pela Espiral por causa disso e se refugiara na Irmandade.
            - Ah, Prester! Que bom revê-la! Não tinha ideia que estaria aqui nessa nave.
            Colocando-se de pé, a japonesa abraçou a amiga. Rafael colocou-se de pé também e fez uma mesura para Luciana. Apontou os outros convidados.
            - O senhor Lucas Silvar a senhora já conhece, é meu braço direito e cuida da segurança da nave, além de ser imediato. E aqui temos o cientista-chefe da Ísis, Tariv. Por favor, sente-se, senhora Katnik, pedirei para o jantar ser servido.
            Conversaram amenidades enquanto degustavam a farta refeição. Rafael não tirava os olhos de Luciana. Até Tariv percebeu e sussurrou para Lings.
            - Creio que nosso capitão irá fazer mais uma vítima.
            A médica segurou o sorriso e sussurrou de volta:
            - A Lu é casada, mas não duvido nada que o capitão irá galanteá-la. E pare de ser fofoqueiro, Tariv, não pega bem para um thoriano.
            Tariv e seu cabelo negro, que parecia ter sido cortado com uma tigela na cabeça, olhos escuros como breu, pele muito alva e orelhas pontudas iguais aos da Lindsey, não se portava como um thoriano comum. Apesar de ser um tanto pragmático, como qualquer um nascido em Thor, não continha as emoções e falava demais. Porém era um excelente cientista, expulso da Espiral por ser muito... “Fofoqueiro”.
            Luciana se divertia, e sua leve capacidade telepática a fez perceber as intenções de Rafael. Corou e abaixou a cabeça. Sorriu. O achava extremamente atraente e sensual. Mas era casada, pensou, e tinha que se comportar.
            A voz do computador da nave soou nos alto-falantes.
            - Capitão, sua atenção é exigida na ponte. Recebemos comunicado da Força Azul direto de Zeta Herculis.
            - A sobremesa estava ótima, mas o dever me chama. Lucas, venha comigo, os outros, por favor, fiquem e conversem mas um pouco, entretenham nossa convidada.
            Subindo à ponte de comando com seu imediato, o capitão logo pediu que a mensagem fosse repassada.
            No meio da ponte a imagem sólida do almirante Rogério D’Ambrosio surgiu. Um humano calvo, olhos minúsculos castanhos, de muita idade e olhar sagaz.
            - Irmão-comandante Kyllard fazendo mais uma das suas. Recebi informação do Alto Comando da Força Azul que se dirige para o sistema estelar de Tucana Beta. O que vai fazer em um sistema desabitado?
            - Pesquisas, que eu saiba Tucana Beta agora faz parte da UniCiv.
            - Sim, mas está fechado para visitações. Não tem permissão para entrar lá.
            - Bem, iremos então para Tucana Alfa.
            O olhar de D’Ambrosio estreitou-se.
            - O que vai fazer em uma estrela gigante azul sem planetas? Não vai enganar a Força Azul desta vez, Kyllard.  Se chegar perto do aglomerado 47 Tucanae vai ter uma frota de fragatas esperando por você, com canhões quânticos pronto para transformar sua nave em átomos.
            - Entendido almirante. Iremos nos comportar.
            - É bom mesmo, Kyllard. Estou por aqui com você – e fez um sinal com a mão sobre a cabeça. - Fim da transmissão.
            Rafael Kyllard ficou furioso.
            - Quero saber quem passou nossa rota para o Controle de Tráfego Interestelar.
            Danii Trescott levantou-se da poltrona do piloto. Alta, cabelos azuis que chegavam até sua cintura, olhos violetas assustadores e pele queimada de sol, era uma das amazonas de Séprika, o planeta dominado pelo gênero feminino.
            - Eu, capitão, pois sem uma contra-ordem informei nosso destino para o C.T.I., como de praxe.
            - Nunca gostei do seu tom desafiador, Danii. Se não fosse a melhor piloto de naves estelares que já conheci, metia um pé na sua bunda.
            O pessoal na ponte conteve a risada. Menos Lucas, com a cara sempre fechada.
            - O que quer que eu faça agora... Capitãozinho?
            Ela chegou perto de Kyllard. Com seus dois metros e dez de altura, gostava de olhar o capitão de cima.
            - Informe o Controle de Tráfego que mudaremos nossa rota para Tucana Alfa e é para lá que iremos. E veja se me respeita!
            - Ou vai me dar um pé na bunda?
            Rafael deu um sorrisinho.
            - Não. Vou fazer você ir limpar as latrinas. Eu mesmo posso pilotar essa nave. Aliás, é uma boa ideia. Lucas, escale a senhorita Danii Trescott para limpeza das latrinas de todas as cabines do deck 5, desativando os robôs-faxineiros.
            Danii ralhou os dentes, mas ficou quieta, vendo Kyllard sair da ponte. Sabia que o Mentor a tinha em alta conta por ser uma piloto fantástica, mas sabia também que se desafiasse Rafael Kyllard, o Mentor a despediria. E Danii não queria isso. A Irmandade era tudo para ela.
***
            A Ísis chegou a Tucana Alfa depois de nove dias e algumas horas. A estrela gigante azul nada tinha  de especial, mas estar próximo a ela daria cobertura para a nave da Irmandade entrar no sistema adjacente, Tucana Beta, e chegar até Junia.
            Rafael Kyllard estava em sua poltrona de comando, na ponte.
            - Preparar a demodulagem para nos camuflarmos – tocou um botão em seu console. – Alfen, acione os escudos transcinéticos para demodulagem.  Prepare para sairmos de fase. Desligue os motores interversais.
            - Entendido, capitão.
            A Ísis desapareceu visualmente, estando fora de fase com o universo normal. Seguiram pelo anti-espaço passando por um wormhole até dentro do sistema estelar de Tucana Beta, que pertencia a uma estrela amarela comum, Tucana Beta-A, e a uma anã-vermelha, Tucana Beta-B. Instantes depois estavam em órbita de Junia.
            - Órbita padrão implantada, capitão – Danii Trescott ainda se ressentia de ter tido que limpar latrinas, dias atrás.
            - Ótimo. Agora vamos iniciar nossos trabalhos. Tariv, lance satélites de pesquisa e sondas ao planeta. Quero tudo varrido minuciosamente. Chamem a Katnik para...
            A Ísis sacudiu violentamente.
            - Informações! – berrou Rafael.
            Lucas Silvar olhou estarrecido para seus monitores.
            - Capitão, estamos sendo atacados por naves devonianas!
            - Como isso é possível? Estamos no espaço da UniCiv e muito longe das fronteiras da União Devoniana!
            - Eu não sei, capitão. Estão por todos os lados, são muitos, não podemos com tantos cruzadores pesados.
            Rafael ficou de pé olhando para as naves que apareciam na imensa janela-vídeo frontal. Atiravam diretamente na Ísis, e só o fato de terem modernos escudos de proteção transcinéticos impedia a nave de virar lixo espacial.
            Lillian Azek, a dary no painel de operações, informou, tremendo:
            - Escudos caíram para cinquenta por cento. Não resistiremos por muito tempo em órbita, capitão.
            - E não podemos sair de órbita, as naves devonianas nos cercaram – Danii Trescott mantinha a calma, como era comum para ela em situações de perigo.
            Kyllard sentou-se e segurou fortemente nos braços de sua poltrona. Ele tinha que tomar uma decisão rápida ou seriam destruídos.
            - Danii, mergulhe a nave no planeta, agora!
            Lucas virou-se para Rafael.
            - Isso é loucura, capitão, vai nos matar.
            - Se ficarmos aqui estaremos mortos de qualquer jeito. Danii, execute!
            A piloto não vacilou e mergulhou a Ísis na direção de Junia.



Capítulo 02
           
            Os devonianos eram seres medonhos para os humanos e outras raças humanoides.  Se pareciam com aranhas gigantes, com altura de dois metros e cumprimento de três, em média. Possuíam quatro “pernas” e duas “mãos”, corpo peludo, de pelos negros, castanhos ou avermelhados, e suas cabeças se assemelhavam a de seres humanos, e não a de aranhas, pois tinham apenas dois olhos, duas orelhas, nariz e boca.
            No entanto, antenas parecidas com chifres nasciam em suas cabeças oblongas e de suas bocas se projetavam presas, que usavam para devorar carne, de preferência fresca.
            Essa era uma das razões de serem tão temidos. No primeiro contato entre a UniCiv e Devônia, os exploradores foram devorados vivos. Além disso, os devonianos eram impiedosos e beligerantes ao extremo. A guerra era tudo para eles. A luta, a morte e a conquista era o que cada devoniano almejava em sua longa vida.  Devorar seus inimigos tratava-se de um ritual tradicional.
            Na civilização das “aranhas do demônio”, apelido dado a eles pelos humanos, o desenvolvimento tecnológico se deu unicamente em razão das guerras. Embora se intitulassem União Devoniana, na verdade eram um império, e o Kjank, seu imperador supremo. O Kjank  (pronuncia-se quijânque) conquistava seu poder através de feitos em batalha. Quanto mais batalhas vencia, mais honra um devoniano conquistava, até chegar ao poder supremo. Contudo, eram extremamente leais entre si e não havia disputas internas. Esta “união” era o motivo de seu império ser tão extenso e eles serem quase imbatíveis em confrontos diretos.
            As patentes e as posições políticas abaixo do Kjank eram similares às da UniCiv, portanto neste livro daremos o nome uniciviano à elas, além de traduzir quase todas as palavras devonianas para o solanês, a língua oficial da UniCiv.
            O capitão-de-frota Lukor-At, da nave capitânia Astrugh, observou a Ísis mergulhar em direção ao planeta que os unicivianos chamavam de Junia, sem espanto.  Era o que teria feito se fosse o comandante daquela astronave.
            Não iria persegui-la. Sabia que as chances deles sobreviverem na atmosfera densa do gigante gasoso eram mínimas. No entanto, o fato de seus cientistas dizerem que havia uma atmosfera comum e gravidade de 1g abaixo daqueles gases em turbilhão do planeta o intrigava. Continuariam a explorá-lo, a despeito das investidas da Força Azul.
            O Kjank em pessoa tinha ordenado à pequena frota de combate devoniana que explorasse aquele curioso sistema estelar, invadindo o espaço da União das Civilizações. A UniCiv e a UniDev estavam em guerra não-declarada desde os primeiros contatos.
            Mas Lukor-At não estava preocupado com os humanos e seus aliados. Claro que ansiava batalhar com eles e galgar o posto de contra-almirante, porém naquele momento sua preocupação era estudar o planeta abaixo deles.
            - Já obteve alguma informação sobre Junia, Kark-Li?
            - Negativo, capitão, senhor, capitão. A primeira atmosfera é muito densa. Aquela nave da UniCiv deve ter se desintegrado ao mergulhar nela. Lançarei algumas sondas, ó capitão, senhor.
            Kark-li era imediato, cientista e amigo de Lukor-At. O líder devoniano então voltou-se para o tenente Priscol-Pá, responsável pelos sensores.
            - Alguma atividade da Força Azul?
            - Nenhuma, capitão-de-frota Lukor-At. Curiosamente estão mantendo distância. Não entendo o motivo, senhor, ó, senhor.
            - Devem estar tramando alguma coisa. E em relação à nave que mergulhou em Junia, algum sinal dela?
            Priscol-Pá digitou alguma coisa em seu console.
            - Nada, senhor capitão-de-frota. Eles sumiram entre as nuvens da tempestade eterna da alta atmosfera, meu senhor.
            - Veja se identifica destroços. O Kjank iria ficar furioso se unicivianos chegassem ilesos à superfície de Junia.
            - Entendido, ó capitão, meu senhor. Farei uma varredura de campo de alta intensidade.
***
            As tempestades eternas na alta atmosfera de Junia faziam os gases aquecidos ficarem sempre rodopiando, provocando grande turbulência, além da pressão descomunal e a radiação severa. Mesmo com escudos transcinéticos, a Ísis era jogada de um lado a outro e pedaços do casco começaram a se desprender. O calor interno da nave não era mais dissipado com eficiência, e explosões se seguiram em vários painéis e consoles.
            Os amortecedores inerciais falharam e muitos tripulantes foram jogados contra as paredes ou o teto. Incêndios irromperam em várias seções, e Alfen, na Sala de Máquinas, lutava para manter os motores e outros sistemas da nave em funcionamento.
            Na ponte, os cintos de segurança automáticos prenderam os tripulantes em suas poltronas, porém a luz normal caiu e tudo foi tingido de vermelho com as luzes de emergência. O capitão berrou por sobre o ruído dos alarmes:
            - Informações!
            Tariv permanecia calmo e concentrado. Não tirava os olhos dos sensores.
            - Estamos sem controle navegacional, motores e sistemas falhando, escudos caíram a dez por cento e tivemos rompimento do casco em várias seções. Já as vedei. Incêndios começaram nos decks cinco e seis. 
            Acionando um botão em seu console, Rafael berrou:
            - Controle de Danos, verifiquem incêndios nos decks cinco e seis – olhou para seu imediato. - Lucas, aumente a energia de coesão das paredes externas.
            Kyllard limpou o suor da testa. A turbulência e os ruídos eram terríveis, e a nave chacoalhava de forma intensa. Lillian Azek gritou:
            - Perdemos todo o setor B do deck três. O computador principal caiu. Controles navegacionais em colapso.
            Nos alto-falantes, a voz de Alfen foi severa:
            - Motores pararam. Os reatores estão falhando, capitão.
            - Alfen, ligue os motores auxiliares. Lillian, vede o setor B do Deck três, mande todo o pessoal que não esteja a trabalho para a enfermaria, o lugar mais protegido da Ísis. Lucas, direcione toda a energia restante dos reatores que ainda funcionam para os escudos transcinéticos.
            Danii Trescott tentava pilotar a nave, que era como um palito de fósforo no meio da correnteza de um rio revolto. Mas os manobradores falharam.
            - Sem navegação – a seprikana estremeceu. – Não tenho mais controle da nave, capitão. Estamos caindo e vamos nos desintegrar. Não posso fazer mais nada.
            Um forte baque fez a Ísis ficar às escuras. Até as luzes de emergência se apagaram. Totalmente descontrolada e com muitas avarias, a nave da Irmandade saiu do meio das camadas de nuvens coloridas e despencou pela atmosfera comum – semelhante a da Terra -, até se chocar contra o solo, dentro de uma floresta tropical.
            Pela enorme velocidade com que pousou, a Ísis deslizou por muitos metros arrancando árvores e deixando um grande rastro de destroços atrás de si. Só foi parar, partida ao meio, no sopé de um morro. O incêndio que se seguiu foi eliminado pelos robôs-bombeiros.
            Alguns mortos, muitos feridos. A maioria da tripulação desmaiou durante a aterrissagem, menos o pessoal da ponte e os que estavam na enfermaria.
            - Informações! – Rafael Kyllard estava totalmente atordoado.
            - Danos por toda a nave, capitão – Lucas falou com a voz rouca. – Temos muitas baixas. Escudos no zero, atmosfera comprometida, casco bem avariado e corrompido. – Digitou alguma coisa no seu console, que tinha voltado a funcionar. – A Ísis se partiu ao meio, senhor. Está condenada.
            - Merda. Merdaaa!! – Rafael deixou sua poltrona. As luzes normais voltaram a funcionar, assim como a maioria dos painéis, monitores e consoles. No entanto, a ponte estava coberta de fumaça e alguns instrumentos pegaram fogo, logo debelado por Tariv e Danii Trescott.
            Rafael tocou em uma tecla em seu painel.
            - Como estão as coisas aí, Alfen?
            - Um desastre, capitão. Perdi dois bons homens. Reatores com problemas, motores inúteis por enquanto. Logo terei mais detalhes.
            - Aguardarei, meu velho – Rafael apertou outra tecla. – Lings, informações!
            - Estou recebendo feridos agora, capitão. Contabilizei cinco mortos mais os dois da Sala de Máquinas.
            - A senhora Katnik está aí com você?
            - Sim, ela está bem. Assustada, mas bem. Ela me disse que previa que algo assim poderia acontecer.
            Kyllard detestava coisas como premonição, telepatia e clarividência. Não acreditava nesse tipo de coisa. Fechou a cara.
            - Mantenha-me informado, Lings.
            Tariv pigarreou.
            - Sim, senhor Tariv, o que descobriu sobre o lugar onde caímos?
            - Capitão, é incrível. Parece que estamos na Terra ou em Thor. Atmosfera totalmente limpa e isenta de agentes nocivos, gravidade exatamente 1 g, nenhuma radiação. Podemos sair lá fora e andar normalmente, sem qualquer proteção.
            - Hum, isso é bom. Descobriu mais alguma coisa?
            - Sim. Além de muita vida animal, uma forte atividade ao norte de onde estamos, talvez uma cidade. Não consegui ainda detectar vida inteligente no planeta, mas é bem possível que haja algo lá ao norte, mas...
            - Mas...?
            - Os sensores não podem ir além de alguns metros da nave. É como um bloqueio. Não, não foram danificados na queda da Ísis. Estão operando normalmente, mas não a nada que eu possa registrar além de 500 metros.
            - Isso é muito estranho. Bom, não podemos ficar aqui, parados, chorando nossa falta de sorte – foi até onde estava seu imediato. – Lucas, coordene os reparos e o atendimento às vítimas. Verifique os mortos, quero uma lista de quem são eles.
            - Mas, capitão, a nave está destruída. Partida ao meio. O que iremos reparar?
            - Alfen faz milagre com sua equipe. Veja com ele alguma forma de fazermos a Ísis voar de novo. Eu irei montar uma equipe para explorarmos este planeta.
            - Senhor, sinto muito – Lucas baixou os olhos. – A subnave que usamos para exploração foi destruída na queda. O nosso gravicar de superfície está preso nas ferragens da garagem. Não trouxemos p-jets nem nada. Essa exploração terá que ser feita... A pé.
            Rafael Kyllard passou a mão pelos cabelos.
            - Eu disse ao Mentor para comprarmos aqueles jatos individuais, os p-jets, e sairmos voando por aí, mas ele só ficava adiando. E agora que precisamos... Não importa, vamos andar.
            O capitão voltou para conversar com seu cientista-chefe e notou que ele ficara, de repente, triste e desolado.
            - Tariv, você está bem?
            - A Lings acabou de me informar que meu amigo Toriav morreu na queda.
            - Toriav era um grande cientista, sinto muito.  Faremos uma bela cerimônia para ele – suspirou, depois mudou o tom de voz. -  Vou precisar de você, na exploração deste planeta.
            Embora quase impossível para um thoriano, geralmente frio, Tariv tinha lágrimas nos olhos.
            - Capitão, o senhor é muito insensível. Caímos e perdemos sete pessoas além de termos muitos feridos. Estamos perdidos em um planeta desconhecido. A nave está destruída. O senhor não tem coração?
            Kyllard ficou irritado.
            - Tariv, estou surpreso diante de sua reação. Nunca vi um thoriano emotivo. Não sou insensível. Mas do que adianta chorarmos agora? Temos que sobreviver! Sair daqui! Avisar a UniCiv que há devonianos lá em cima. E descobrir o que este planeta esconde. Quero você na minha equipe de exploração. Iremos para o norte, onde você me disse que havia uma estranha atividade. Quem sabe damos de cara com uma nova civilização?
            Danii Trescott levantou de supetão ao ouvir a conversa e aproximou-se do capitão e do cientista.
            - Quero ir nesta exploração. Não tenho o que fazer aqui, com a nave avariada, e sei lutar muito bem. A civilização que talvez encontremos pode ser hostil.
            - Certo, Trescott. Vá pegar armas e preparar uma equipe, quero seguranças e cientistas, e chame a senhora Katnik também.
            Lucas, que estava próximo, ficou irritado ao ouvir o nome da sensitiva.
            - Vai levar Luciana Katnik? Não acha muito arriscado, senhor?
            - Não – Rafael deu um meio sorriso. - Eu a quero perto de mim. Ela pode ser muito útil nessa exploração.
            O capitão olhou para a janela-vídeo mostrando a superfície de Junia. Voltou-se para sua piloto, com um olhar determinado.
            - A equipe de exploração deverá ter nove pessoas, Trescott. Eu, você, Tariv, Katnik, um cientista, alguma enfermeira que Lings possa ceder, e três seguranças. Escolha aqueles que tenham experiência em superfícies planetárias e novas civilizações.
            - Entendido, capitão. Prepararei a equipe agora mesmo.
            - Tem duas horas, Trescott. Tariv, vá com ela, selecione um cientista apto. Eu farei uma vistoria na nave com Lucas. Azek, a ponte é sua.
***
            Rafael Kyllard e seu imediato, Lucas Silvar, ficaram perplexos diante das avarias da Ísis. Provavelmente ela não voaria mais. Alfen disse que tentaria trazê-la de volta, mas não dava muitas esperanças.
            Estava partida ao meio e com danos extensos.
            Depois passaram na enfermaria, mais um dos tripulantes havia morrido, totalizando oito mortos. Vinte e dois feridos. Lings corria de um lado a outro.
            - Capitão, isso aqui está uma loucura!
            Rafael olhava a lista de mortos que a doutora lhe passou. Não havia ninguém que conhecesse pessoalmente, exceto o ótimo cientista Toriav. Então encarou Prester Lings.
            - Está fazendo um ótimo trabalho, como sempre, com o pouco pessoal que dispõe. Mas preciso de uma enfermeira para a equipe de exploração.
            - Já cedi um enfermeiro excelente para sua equipe, capitão. Está aguardando junto com os outros selecionados por Trescott, na escotilha dois.
            - Entendido, Lings – ia deixar a enfermaria quando a médica o deteve.
            - Cuide bem do Pedro, ele é meu filho. É um ótimo aprendiz. Quero que prometa que o trará de volta inteiro, capitão. E quanto tempo essa exploração vai demorar?
            - Não sabia que selecionara o próprio filho, Lings. Eu cuidarei dele, mas sabe que não posso prometer nada. Espero que não demoremos mais que cinco dias.
            Com um aperto no coração, a médica-chefe viu Kyllard e Silvar saírem da enfermaria.
***
            Na escotilha dois da Ísis, Danii Trescott e Tariv aguardavam Rafael. O restante da equipe já deixara a nave e testava a atmosfera do planeta, na superfície.
            - Aqui está seu equipamento para esta exploração, capitão – a seprikana entregou armas e uma mochila antigrav, preparadas especialmente para Rafael. Enquanto ele se arrumava, disse à Lucas.
            - Você fica no comando da nave até eu voltar. Ajude Alfen no que puder para reparar a Ísis.
            - Farei o meu melhor, capitão. Mas gostaria muito de acompanhá-lo.
            Rafael deu um meio sorriso e tocou o ombro de seu imediato.
            - Você será mais útil aqui, Lucas. Confio em você. Cuide bem do que restou da nave e da tripulação. Voltarei assim que puder.
            A escotilha dois foi aberta, dando acesso a uma escada bem inclinada. Kyllard inspirou fundo, sentindo o ar agradável de Junia. Estava quente.
            Tomou um susto ao reparar que o céu era azul e tinha um sol brilhante no poente.
            - Mas... Como? Acima de nós deveriam estar as nuvens da atmosfera de Gigante Gasoso que Junia possui! E Tucana Beta-A não está tão perto assim para aparecer forte no horizonte!
            Tariv começou a descer a longa escada de alumínio-duranium e soltou uma risadinha curta. Definitivamente ele era um thoriano bem diferente.
            - Não sei explicar porque o céu é azul aqui em Junia, e porque as nuvens da atmosfera superior desapareceram, ou não estão visíveis. Não sei explicar também porque Tucana Beta-A aparece tão forte daqui. Deveria ser um pontinho distante, pela órbita do planeta. E tudo deveria estar congelado.
            Rafael Kyllard sacudiu a cabeça.
            - O Mentor disse que você é um excelente cientista, Tariv, então trate de descobrir o que é tudo isso, afinal.
            Mesmo intrigado, o capitão desceu à superfície. Admirou-se com a quantidade de árvores que circundava a Ísis.
            - Nunca vi um gigante gasoso ter uma floresta tropical!
            Trescott ficou ao lado de Rafael e soltou um longo suspiro.
            - Muito semelhante às florestas de Séprika. Eu nasci e passei minha infância caçando em florestas como estas, capitão.
            Depois de devolver um olhar de entendimento, Kyllard foi conhecer a equipe.
            - Você deve ser Pedro Lings. Sua mãe é a melhor médica com quem já trabalhei. Ela pediu para ficar de olho em você e eu o farei.
            Pedro era alto, belo, queixo quadrado e olhos puxados orientais como a mãe. Cabelos lisos e curtos, negros. Sua voz era grossa e máscula.
            - Minha mãe é superprotetora, capitão. Mas eu sei me cuidar. De todo modo, agradeço sua preocupação pela minha pessoa.
            Depois Rafael aproximou-se de Luciana, que parecia bem amedrontada.
            - Senhora Katnik.
            - Porque me chamou para essa expedição, capitão?
            - Temo que irei precisar de seus poderes mediúnicos.
            - Eu não tenho poderes mediúnicos, capitão, eu sou levemente telepata, e em certos momentos posso ver o futuro, mas não controlo isso. Não sei o que vou fazer nessa equipe além de atrapalhar.
            - Você não vai atrapalhar, Katnik. No momento certo, saberá como nos ajudar. Fique perto de um dos seguranças, e qualquer coisa me chame. Estarei sempre ao seu lado – Rafael disse isso olhando-a de modo enigmático. Depois foi até a mata densa e a examinou. Pediu ao segurança-chefe da expedição vir até ele.
             - Taylor, abra um caminho com seu xaser em direção ao norte. Nós o seguiremos de perto.
            Emprenharam-se na floresta virgem de Junia durante aquele curioso entardecer do planeta, que teoricamente não deveria existir.
            Logo a noite os atingiu, sem nenhuma nuvem no céu.
             Rafael Kyllard seguiu Mark Taylor bem de perto, com uma lanterna, enquanto o segurança disparava raios azuis de seu xaser abrindo uma vereda. Olhou para o céu, e se admirou com a miríade de estrelas que não deveriam ser visíveis dali. Porém, chegou à conclusão que nada mais o surpreenderia em Junia.
            Foi nesse momento que um grito agudo cortou o ar.


Capítulo 03

            Priscol-Pá agitou suas antenas. Seu pelo castanho estava ouriçado.
            - Encontrei indícios de que a nave da UniCiv conseguiu pousar na superfície de Junia, capitão-de-frota Lukor-At, meu senhor.
            Repousado na teia central da ponte de comando da Astrugh, Lukor-At regurgitou o inseto gigante que devorava.
            - O quê? Repita!
            - Meus sensores conseguiram penetrar na densa atmosfera do planeta, com a ajuda da sonda que enviamos. Posso detectar humanos e outros seres unicivianos vivos, embora a nave deles esteja bem avariada. Não consigo mais definição nos dados, senhor capitão, meu senhor.
            - Excelente trabalho, Priscol-Pá, logo será agraciado com uma promoção – Lukor-At virou-se para o seu imediato.
            - Kark-Li, temos meios de chegarmos à superfície do planeta?
            - Acredito que podemos criar um escudo de alto poder em torno da nossa nave e tentarmos a descida, mas não sem perigos, ó senhor, capitão, senhor.
            - Tentemos! À glória da União Devoniana!
            - Tentemos! – bradaram os outros tripulantes da ponte de comando da Astrugh.
***
            Rafael Kyllard e um segurança correram ver o porquê do grito. Encontrou Luciana Katnik pálida e Pedro Lings, caído, com um corte no rosto.
            - Ele, ele... Ele...
            - Acalme-se, Katnik. O que houve?
            Pedro levantou-se com a ajuda de Corco, o segurança gliesiano que se parecia com um enorme gato gordo, com pelos castanhos e olhos verdes.
            - Ele... Ele foi engolido.
            - Quem foi engolido?
            Pedro endireitou-se e pegou um spray de saradene, que usou em si próprio para curar o corte no rosto, que sumiu em instantes. Limpou o sangue com um lenço. Parecia calmo quando falou, em tom baixo:
            - O terceiro segurança, aquele auroriano Lev-Or. Algo apareceu do nada e o engoliu inteiro.
            - Uma cobra... Uma cobra gigantesca engoliu o homem de uma vez! – Katnik tapou o rosto com as mãos. Chorava.
            Rafael sacou seu xaser e, junto com Corco, emprenhou-se na mata sob a luz de três luas cheias.
            O capitão olhou para cima e sacudiu a cabeça.
            - Não deveríamos ver os satélites naturais de Junia daqui, mas eu desisto de tentar entender esse planeta. Vamos atrás da criatura que pegou Lev-Or, rápido!
            A “cobra” era veloz, mas deixou um rastro de destruição e gosma pela mata que sob a forte luz das luas - e das lanternas - foi facilmente alcançada. Corco destruiu sua cabeça com um tiro certeiro de xaser, quando já podia visualizar a barriga cheia, talvez com Lev-Or dentro.
            Rafael tirou de sua mochila uma faca linda, presente antigo, e cortou a pele da cobra. Com a ajuda de Corco, puxou Lev-Or para fora, mas o auroriano já estava morto.
            Pedro os alcançou em seguida. Tentou de todas as formas ressuscitar o segurança, sem êxito.
            - Sinto muito. O veneno dessa “cobra” gigante é poderoso demais. Não pude salvá-lo.
            Kyllard ficou furioso, e passou a mãos pelos cabelos segurando a raiva. Já controlado, ordenou:
            - Corco, regule seu computador para detectar animais assim de agora em diante, e ordene aos demais que façam o mesmo. Atenção redobrada! Caminhamos pouco, vamos avançar mais mesmo à noite, porém quero todo mundo em alerta máximo, com as lanternas ligadas e as roupas protetoras ativadas.
            - Entendido, capitão.
            O gliesiano saiu em disparada, estranho para um ser de corpanzil e modos rudes.
            - O que faremos com o corpo de Lev-Or? O levamos de volta à nave?
            - Ele sabia o que aconteceria se fosse morto em ação, Pedro, pois se inscreveu como soldado da Irmandade – Rafael sacou um pequeno aparelho, um sensor-analisador – chamado senalis - , e registrou todos os dados de Lev-Or além de coletar seu DNA. Depois pediu para Pedro se afastar e apontou seu xaser. Desintegrou o corpo do auroriano com um raio azul que emitia forte som grave.
            Pedro Lings fechou a cara.
            - Prometa que se eu morrer aqui irá levar meu corpo de volta para minha mãe.
            - Você não vai morrer. Embora eu não tenha prometido nada à Prester, eu jamais teria coragem de olhar na cara dela de novo se você fosse morto nessa expedição.
***
            O cronômetro de Rafael Kyllard exibia meia-noite no planeta. Conseguiram avançar bastante pela mata sem mais incidentes. As luas estavam agora espalhadas pelo céu, mostrando que realizavam órbitas bem distintas.
            - Podemos descansar agora e montar acampamento. Vamos tomar drazene para ajustar nossos corpos ao fuso horário de Junia e regular nosso sono. Corco, Taylor, ajudem o pessoal a montar as barracas, Tariv, faça uma varredura de campo completa para vermos se estamos seguros aqui e grave tudo o que puder. Peça ajuda à nova cientista que está conosco, como é o nome dela?
            - É Ana Rojas, capitão. Começarei o procedimento agora mesmo.
            - Alguém me chamou?
            Ana Rojas era uma mulher exótica e rechonchuda. Humana, cabelos encaracolados sem cor definida e pele albina, tinha 38 anos e olhos grandes verdes.
            - Você é a nova cientista que o Mentor contratou a peso de ouro, certo? Vai substituir o falecido Toriav direitinho agora, está promovida. Ajude Tariv a fazer uma grande varredura de campo por aqui.
            - Obrigadinha capitão – a cientista sumiu do jeito que apareceu. Kyllard sacudiu a cabeça. Depois se ajeitou, limpando o uniforme.
            - Katnik, venha aqui, quero conversar com você.
            A bela ruiva aproximou-se de Rafael, cabisbaixa. O capitão a fez levantar o rosto. Perguntou:
            - Você está bem?
            - Se quer mesmo saber, não estou. Estou com medo. Vi um homem ser devorado vivo por uma cobra gigante, estamos no meio da selva de um planeta desconhecido, à noite. Você nem parece ter se importado com o coitado. Todos aqui são tão frios assim? Quero voltar para a Terra, não devia ter entrado na Ísis e nem ter aceitado esse serviço, para começo de conversa.
            - Olha... Estou triste sim por Lev-Or. Mas somos profissionais. Estamos em uma missão importante. Quando acabar, lamentaremos e vamos chorar pelo pobre auroriano. Agora mesmo, antes de dormirmos, faremos uma oração por ele. Contudo, não adianta ficar chorando pelas beiradas. Não vai trazê-lo de volta. Respeitaremos sua memória.
            - Vocês da Irmandade são todos loucos. Bem que meu marido me avisou. Ele não queria que eu viesse. Estou com medo e com raiva de vocês. Quero voltar para a nave!
            - Não vamos voltar à nave agora, avançamos bem esta noite – Rafael tentou tocar Luciana, mas ela se afastou. – Olha... Preciso de você. Pode predizer algo sobre esta expedição? Pode enxergar alguma coisa sobre este planeta ou se existe alguma civilização por aqui?
            - Todos temos computadores nas nossas cabeças, avançadíssimos, eles não podem explicar o que existe neste mundo esquisito?
            - Sabe que não. Junia é complexo, radiações e sinais estranhos estão por todo lado. Preciso de algo mais...
            - Mediúnico? Sobrenatural?
            - Sim, chame do que quiser. Preciso de seus poderes.
            - Pois eles me dizem para ir embora daqui e voltar para a nave, capitão. Tenha uma boa noite!
            Rafael ficou olhando Luciana ir para sua barraca e trancá-la. Suspirou.
***
            Amanheceu em Junia. O céu estava azul, o que era estranho, contudo Ana Rojas e Tariv haviam desistido de tentar explicar o porquê da alta atmosfera do planeta gasoso não ser visível da superfície.
            Rafael Kyllard espreguiçou-se. Estava um tanto sonolento, mas o drazene estava fazendo efeito, regulando seu Jet lag, termo que havia sido mantido mesmo nas viagens interplanetárias.
            Luciana Katnik o evitou. Mark Taylor fez café no aparelho portátil que sintetizava comida e bebida através de massa alimentar em pequenos discos, tudo trazido na mochila de Corco.
            - Está ótimo Taylor. Gostei. Vamos comer rapidamente e partiremos em quinze minutos. Alerte o pessoal.
            O segurança concordou e foi reagrupar a expedição. Exatos quinze minutos depois, partiram com Mark liderando e abrindo caminho, seguido de Rafael, Ana, Tariv, Pedro Lings, uma agitada Danii Trescott, Luciana Katnik emburrada e fechando o grupo, Corco, bem atento.
            A selva fechada deu lugar a uma floresta de coníferas e a temperatura caiu de repente.  Começou a fazer muito frio. Rafael gritou:
            - Casacos! Todos usando. Ana, Tariv, podem me explicar essa queda brusca de temperatura?
            Tariv andou em círculo com um senalis e logo disse à Kyllard:
            - Senhor, se voltarmos para a selva tropical, a temperatura sobe. Aqui esfria. Ou seja, dependendo da área onde nos posicionamos, a variação de temperatura é brutal. Não há explicação para isso, capitão.
            - Entendido. Vamos prosseguir em direção ao norte. Agora ficará mais fácil avançar, já que aqui parece um bosque e é até bem agradável, fora o frio.
            Passaram o dia atravessando a floresta de pinheiros e araucárias, seguindo por um gramado verde e bonito. Tudo era belo. Havia borboletas coloridas e grandes aves de tons diversos, que cantavam em uma sinfonia ímpar.
            Finalmente atingiram o sopé de uma montanha, ao entardecer. Rafael Kyllard a avaliou com Tariv e Ana Rojas. Haveria uma longa escalada.
            Os computadores e os sensores-analisadores ainda indicavam estranha atividade ao norte, além das montanhas. Era para lá que seguiriam até descobrir o que emanava a energia incomum que detectavam.
            Rafael reuniu o grupo.
            - Vamos descansar e dormir um pouco. Logo ao alvorecer iremos escalar essa montanha até a passagem que podemos ver daqui. Aqueles que tiverem dificuldades com a escalada falem comigo – ele olhou para Luciana.
            A ruiva devolveu um sorriso. Aproximou-se e encarou Kyllard.
            - Eu sei escalar. Adoro escalar morros e montanhas. Meu marido e eu praticamos alpinismo, capitão. Quanto a isso não precisa se preocupar.
            - Excelente! Então vamos comer alguma coisa e descansarmos para amanhã.
            Depois do jantar, quando a noite avançava, Rafael entrou em contato com seu imediato.
            - Lucas, aqui é Kyllard. Quero informações de como estão as coisas aí na Ísis.
            - Capitão, seu sinal está muito fraco – realmente a voz de Lucas Silvar estava quase inaudível, entre chiados e estalidos. – Aqui estamos reconstruindo a nave e captando estranhos sinais vindos da atmosfera superior. Também recebemos uma mensagem indecifrável, até agora, de algum lugar ao norte.
            - Mensagem? Que tipo de mensagem!?
            - Recebemos uma sequência de palavras esquisitas via frequência de rádio comum. O tradutor universal descobriu correlação com números na língua de uma antiga civilização extinta...
            - Uma antiga civilização extinta!? Explique melhor, Lucas.
            - A civilização que existiu nos sistemas estelares do Corredor de Luz, a Civilização Perdida de Tonkskan. Aquela que desapareceu sem explicação. As cidades estão lá até hoje, em ruínas, e nunca descobrimos muita coisa sobre eles, exceto que eram humanoides, como nós.
            - Entendi. E como era a mensagem? Fale alto que o sinal está sumindo.
            - Como eu disse antes, o tradutor universal traduziu a mensagem como números: 35, 56, 47, 12, 84. Não sabemos o que significa. Repetiram a mensagem mais algumas vezes e depois o sinal de rádio sumiu.
            - Certo. Mantenha-me informado. Verifique as antenas da Ísis para melhorarmos nossas comunicações. Aqui tudo bem, exceto o que lhe comuniquei ontem, a morte do segurança Lev-Or. Amanhã iremos escalar uma das montanhas visíveis daí. Kyllard desliga.
            - Entendido capitão. Tenha uma boa noite.
***
             Rafael dormia profundamente em sua barraca quando foi acordado pelos sussurros de Luciana Katnik. Deu um pulo.
            - Não queria assustá-lo, capitão.
            Luciana estava linda, como sempre. Seus longos cabelos ruivos mostravam-se bem escovados e usava uma camiseta térmica cumprida, deixando-se ver belas pernas torneadas, queimadas de sol.
            - Pare de olhar minhas pernas, capitão, e me escute. Tive um sonho muito incomum. Sonhei com um homem alto, velho e com aparência sábia. Estava quieto de pé sobre um pedestal e apontava ruínas de uma cidade que brilhava muito.
            - Hum, sonho estranho, como tudo aqui em Junia.
            - No sonho, o homem olhou para mim e depois escreveu no ar uma sequência de números, 35, 56, 47, 12, 84. Aí acordei.
            Kyllard deu um salto, ficou de pé e puxou da memória de seu computador cerebral o que ouvira de Lucas, hora antes.
            - Pelas estrelas! Anotei aqui – apontou para a cabeça - , essa sequência numérica foi transmitida de algum ponto ao norte deste planeta para a Ísis!
            Luciana olhou-o, perplexa.
            - E mais, foi em uma língua antiga, de uma civilização extinta chamada Tonkskan. Luciana, esse homem com quem sonhou escreveu em algarismos arábicos, como os que usamos na UniCiv?
            - Sim, sim, facilmente legíveis, escritos no ar com linhas douradas.
            Rafael passou a mãos pelos cabelos.
            - O que significa isso? E o que são esses números?
            - Eu não sei, capitão. Apenas sonhei. Não tenho ideia do que significam.
            - Venha, vamos tomar um café, não vou conseguir dormir depois do que me contou.
            Luciana o acompanhou, pensativa. Na mesa montada no centro do acampamento, Rafael clicou em café na sintetizadora, e logo dois fumegantes saíram e foram degustados com prazer. O frio era cortante.
            - Capitão, o homem não me deu medo, me passou confiança. Mas ele não parecia de todo humano, era muito alto, olhos que pareciam saber o que eu pensava, uma barba que podia jurar que era dourada. Tudo nele parecia ser dourado, na verdade.
            - Creio que este ser queria se comunicar com você, e através de sua mente usou os números que conhecemos, porém, o que não entendo é porque passar essa sequência numérica e não uma mensagem clara?
            - Não tenho ideia. Eu soube de raças que podiam invadir nossos sonhos...
            - Sim, existem, e não são nada amigáveis. No entanto, acho que quem habita Junia não me parece hostil. Precisamos chegar ao lugar de onde transmitiram via rádio para a Ísis e onde detectamos grande atividade. É logo depois dessa cadeia de montanhas... – Kyllard apontou para o alto.
            - Capitão, acho que vou tentar dormir mais um pouco, está muito frio e logo vai amanhecer.
            - Certo, eu vou analisar estes números e ver se encontro alguma correlação com coordenadas ou jogos de loteria.
            - O que? – Luciana riu.
            - Boa noite, durma bem, Katnik.
***
            Lindsay Tranley estava exausta. Fugir da Ísis e do olhar astuto do velho Lucas Silvar, entrar naquela floresta tropical, seguir a trilha deixada pela expedição de Rafael e escapar de ser engolida por uma cobra gigante, tudo aquilo a deixou acabada.
            Contudo, alcançara a expedição. Lá estavam eles, ao amanhecer, levantando acampamento. Ficou a espreita. Observou o homem que amava, atrás de um pinheiro.
            - Mark, tente novamente entrar em contato com a Ísis usando o equipamento de alta potência. Meu intercom não está conseguindo contato.
            - Tentarei, capitão.
            - Desde hoje cedo não consigo contato com Lucas. A interferência está forte demais. Até os senalis estão falhando.
            Luciana arrumava sua mochila quando estacou. Levantou devagar, evitando olhar para os lados, e foi até Rafael.
            - Capitão... Sinto uma presença.
            - Presença do homem com quem sonhou?
            - Não... Uma mulher... Eu diria...
            - Ok, certo, sou eu. Aqui estou – Lindsay apareceu com um sorriso amarelo no rosto.
            Rafael fechou a cara. Suspirou e passou a mão pelos cabelos.
            - Lindsay Tranley. O quê a senhorita a está fazendo aqui!?
            - Senhorita? O que aconteceu com “ah, meu amor, ah, minha putinha”, que você falava quando transávamos?
            Todos na expedição seguraram a respiração.
            Se emitisse raios pelos olhos, Lindsay seria desintegrada pelo olhar de Rafael.
            - Estamos em uma missão pela Irmandade, ou se esqueceu disso, Lindsay? Aqui eu exijo respeito. Eu fui contra o Mentor mandar você vir aqui para Junia desde o começo.
            A tevariana ia responder, mas Kyllard foi mais rápido.
            - Trescott não a chamou para esta expedição, devia ter ficado na nave, Lindsay. E não é porque eu como você que lhe dou o direito de me desrespeitar na frente de meus subalternos.
            Luciana levantou as mãos.
            - Eu não sou sua subalterna, e não tenho nada a ver com isso, mas acho que essa conversa poderia ser reservada, capitão.
            - Também acho... Mark!
            - Sim, senhor!
            - Prenda a senhorita Lindsey, algeme-a e...
            - Não vai fazer isso, Rafael! Você faz isso na cama, me amarra, mas aqui...
            - Algeme-a e coloque uma mordaça nessa boca, depois vou decidir o que fazer com ela.
            - Eu sei o que vai fazer comigo. Vai me bater na bunda e me co...
            - Mark, agora!
            Mark Taylor aproximou-se e Lindsay não ofereceu resistência, mas estava às lágrimas. Além de algemá-la, o segurança a amordaçou.
            A raiva do capitão era tanta que ele sacou de sua faca trabalhada e, com um só golpe, cortou um pequeno pinheiro ao meio.
***
            Já haviam subido parte da montanha quando chegaram à um trecho muito íngreme. Só mesmo escalando com as mãos e cordas iriam conseguir subir mais.
            Rafael Kyllard deveria decidir sobre o destino de Lindsay Tranley.
            Fazê-la voltar sozinha ou com um dos seguranças seria arriscado demais. Além disso, precisava de Mark e Corco com ele. Mais uma cientista no grupo ajudaria, e a tevariana era muito boa em artes marciais. Se ela fosse obediente e o respeitasse, talvez valesse a pena mantê-la na expedição.
            Luciana puxou Rafael para o lado e sussurrou-lhe.
            - Capitão, é desumano algemar e amordaçar aquela mulher daquele jeito. E ela não vai conseguir subir isso aí – apontou para o penhasco.
            - Ela não é humana. É tevariana.
            - O senhor entendeu. Não pode...
            - Mark, solte a senhorita Tranley e traga-a aqui.
            Lindsay, instantes depois, estava livre, fuzilando Rafael com seu olhar.
            - Olha, eu não vou pedir desculpas.
            - Desculpas aceitas, Lindsay – o rosto irônico do capitão não atenuava sua raiva. - Não quero mais brigar com você, temos uma missão muito importante. Se você cooperar comigo e me obedecer, me respeitar, pode seguir conosco, do contrário mandarei Mark ou Corco levar você de volta à Ísis, fui claro?
            - Claro como água... Capitão. Vou me comportar, prometo. Obrigada.
            Ela deu um sorrisinho e o encarou. Rafael suspirou profundamente.
            Virou-se e ordenou que Danii Trescott prepara-se os equipamentos para a escalada, além de organizar o pessoal.
            A seprikana obedeceu prontamente. O dia estava claro, frio e com poucas nuvens, então não tiveram dificuldades no começo da longa escalada, seguindo até um platô, muitos metros acima.
            Todos usavam ganchos automáticos, sapatos com grampos e estavam presos uns aos outros por cordas.
            Na metade do caminho, Mark Taylor liderando, avistaram algo grande voando na direção do grupo.
            Os senalis deixaram de funcionar, por causa de forte interferência eletromagnética, assim como os binóculos eletrônicos e até mesmo os xasers.
            Danii Trescott tinha uma visão aguçada, melhor que a dos outros humanoides. Foi a primeira a perceber o que era a criatura alada.
            - Pela Deusa! Um dragão!