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quarta-feira, 31 de outubro de 2012


Halloween


Era uma noite quente de 31 de Outubro e eu sabia que era Halloween, bem, pelo menos nos Estados Unidos, porque – dizem – no Brasil é o Dia do Saci. 

Não importa, o fato é que eu, sozinho em meu apartamento – ah, sim, A Carla me deixou e desde então vivia sozinho – liguei a TV para ver qualquer porcaria.

Estava um calor dos infernos e liguei o ventilador vendo um filme de terror, não me lembro direito o nome, algo como “A Morte Lhe Espera” ou “A Morte Te Pegou” ou qualquer coisa assim. 

No exato momento que o Serial Killer – e eu comendo flocos de milho velho, esse sim, um verdadeiro Cereal Killer – ia esfaquear a mocinha burra – sim, burra porque foi em um beco escuro sozinha à meia noite, só podia ser burra mesmo – bem, como eu ia dizendo, no exato momento que o assassino ia esfaquear a garota, eu tenso, tocou a campainha e voou cereal por toda sala no susto que tomei.

Levantei, mais bravo que touro espetado em touradas, abri a porta e um pirralho com cabeça de abóbora ergueu um saco preto:

- Gostosuras ou Travessuras?

- Ah, vai se catar.

Bati a porta.

Mas que melda! Bela tradição americana, esse Halloween, e os brasileiros, que só gostam mesmo é de festas, aproveitam. Bom, voltei a atenção ao filme. Agora o Serial Matador ia esfaquear outra burrinha quando de novo tocou a campainha. Boska!

Abri já preparado para uns berros quando notei que a fantasia do garoto era muito bacana. Um verdadeiro monstro gosmento.

- Gostosuras ou Travessuras?

Achei tão bacana a fantasia que fui pegar uma barra de chocolate – tão velha que a validade devia ser nos anos sessenta, mas garotos assim nem percebem – e entreguei para ele. Ele tirou a máscara e sorriu:

- Brigado, Tio!

Saiu comendo. Fechei a porta dando risada e voltei para o meu filmeco de terror. Mas nem bem eu sentei e de novo a maldita campainha.

E assim foi a noite toda, só acalmando lá pelas vinte e duas. Acho que toda a criançada do meu prédio veio pedir doces, mas eu só tinha dado aquele chocolate para o gordinho da fantasia de monstro. Que encheção de saco!

Tomei uma ducha fria para aliviar o calor estonteante e fui dormir, mas enquanto tirava a roupa, tocou de novo a campainha. Puto da vida, vesti a calça e fui abrir a porta. Era o garoto com a fantasia de monstro de novo.

- O que você quer, pentelho, já não te dei um chocolate hoje?

- Sua alma.

- Ah, vai te catar.

Bati a porta e tranquei. Que moleque idiota e atrevido!

Fui deitar, deitei e no que virei, a luz da lua cheia entrava enviezada pela persiana do quarto. Sorri, começando a pegar no sono... Quando notei uma sombra passar pela janela. 

Passou de novo. Como? Levantei a persiana, só a bela lua e estrelas no céu. Abri a janela e olhei... Dez andares e nada mais... Devo estar sonhando... No que fechei a janela, senti algo atrás de mim no quarto e me arrepiei.

Virei devagar com o coração acelerado. Nada... Fui ao banheiro, acendi a luz e joguei água no rosto, devo estar ficando doido, pensei, mas quando me enxuguei vi de relance alguém através do espelho. Virei-me depressa, o coração saindo pela boca...

Peguei o rodo que ficava ali no banheiro e saí devagar... O quarto na penumbra, parcamente iluminado pela lua cheia. Percebi que tremia. Um barulho veio da sala.

Corri para a sala. A TV estava ligada sem sintonizar nenhum canal, sem som. Como? Não sei. Com o rodo em mãos, olhei para os chuviscos na tela. Dei um pulo para trás quando um filme preto e branco surgiu.

Caí sentado no sofá, suspirando mais aliviado. Devia ser apenas obra da minha cabeça, pensei. Estava sozinho há tanto tempo que estava ficando doido.

O filme era estranho. Era uma sala com um cara sentado e... Mas, puxas que partiu, era eu... Minha sala, eu, meu sofá! Arrepiado até o fundo da alma, levantei e peguei o rodo. Olhei em volta. Meu Deus, o que é isso?

Tudo o que eu fazia acontecia no filme, mas era como a câmera estivesse na TV, era o ponto de vista da TV! Cruzes! Mesmo de cueca, decidi fugir, fui até a porta da frente e no que abri estava lá o gordinho de fantasia de monstro.
- Quero sua alma. - Repetiu, com aquela voz de criança.

Bati a porta da frente, com o coração pulando em meu peito, encostado de costas para ela. Segurei forte o rodo. E eu de cueca! A TV apagou.

Ouvi um barulho na cozinha. Fui, pé-ante-pé, até lá. O microondas estava funcionando sozinho. Deu o sinal e apagou. Fui até ele e quando abri a porta eu vi... Bom, dei um berro que era para ter acordado o prédio todo. Minha cabeça estava lá dentro, toda estraçalhada. Mesmo assim eu me reconheci.

Berrando como louco, na verdade com um medo que jamais senti antes, fui em direção a porta da frente, a abri de supetão, decidido a passar por cima do gordinho, mas saí mesmo em um lugar lúgubre.

De cueca e rodo na mão, olhei em volta, incrédulo. Abracei o rodo. Onde, porta que partiu, eu estava!?

Era o mesmo beco escuro onde vi, naquele filmeco de terror, a garota burra ser esfaqueada. Foi quando olhei para a lixeira e vi o Serial Killer. O mesmo do filme! E ele vinha em minha direção! Socorro! Juro que gritei como um bebê desmamado!

Larguei o rodo e saí correndo e quando me dei conta era uma tarde estranha. 

O céu estava laranja! O silêncio era terrível, nem uma mosca voava... E eu reconheci as ruínas em torno da rua esburacava onde eu estava.

Uma melda de um filme de zumbi que vira no dia anterior... E eles apareceram. Zumbis de todos os lados. Corpos putrefatos, braços caindo, cabeças viradas em ângulos impossíveis!

Corri como louco, e entrei em um túnel escuro.  Uma bruxa horripilante surgiu do nada com sua vassoura. De seu rosto desfigurado escorria uma gosma nojenta e tinha verrugas imensas.

- Vou transformar você em um rato e comê-lo, seu idiota!

Chorando como uma mulher traída, encolhi-me todo e quando me dei conta estava em cima de uma árvore.

- Pare, senhor! Pare!!! Desça daí!

- Hã, o quê...? – Foquei os olhos e era o Síndico.

- Para de gritar! Você está gritando como louco, alucinado, de cuecas ridículas em cima de uma árvore do jardim do nosso prédio! Ficou maluco, é?

- Como? Como eu vim parar aqui?

- E eu sei?

- Eu sei, seu filho de uma égua!

Era o meu vizinho médico que falava.

- Você comeu cereais de milho vencidos e mofados, seu idiota! O mofo fez você ter alucinações! Que viajem, hein? Eu fui reclamar por você ter dado chocolate estragado para o meu filho, que está vomitando até agora, e encontrei esses flocos que estava ingerindo, seu imbecil!

Eu apanhei. Não só do médico como de umas senhoras do prédio, e saí de cueca correndo pela rua, perseguido por uma delas...

Mas ela não queria me bater. A senhora de sessenta anos me abraçou.

- Ai, filho, você é tão gostoso... Venha para minha casa que cuido bem de você... Vou te alimentar bem, te dar cama, comida e amor.

Porque não? Estava sozinho há tanto tempo...                          

E fui... Por isso agora sou apenas um fantasma A danada era mesmo uma bruxa – elas existem! - e fez um ensopado comigo...


Esse texto foi psicografado por Matheus Borgalem Beretto para o escritor-místico Vitor Hugo B. Ribeiro


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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Um mini conto para refletir, de minha autoria:


            Rogério era um bombeiro de mau com a vida. Naquela semana de chuvas ininterruptas, Rogério havia batido o carro, brigado com a noiva e, pior de tudo, fora assaltado por um adolescente. Estava agora indo resgatar uma família de debaixo de um rio de lama, que soterrara seu barraco. Em meio a chuva forte, Rogério entrou nos escombros do casebre. Toda a família estava morta, exceto um rapaz. Ele clamava por sua vida, porém Rogério hesitou. Ele reconheceu o adolescente como sendo o que o roubara na noite anterior. "Maldito", pensou. "Não vou salvar este miserável. Ele perdeu a família, e é um ladrãozinho. Não merece perdão! Que morra!".
            Contudo, forçou-se a resgatar o rapaz. Não conseguiria viver em paz com sua consciência se não o fizesse. E o salvou. Ele agradeceu muito, entre lágrimas.
            Anos se passaram, e Rogério havia deixado a Corporação e dedicara sua vida à outras atividades. Casara-se, tivera filhos e aposentara-se. Seu filhos eram sua vida, dois belos rapazes. E tinha uma casa modesta onde todos viviam, e cujo destino era incendiar-se. Durante o incêndio tentou salvar seus filhos, mas não havia como... Ele era velho, e eles estavam presos no quarto. "Vou perder meus filhos! Meu Deus, me ajude, não deixe que eles morram!". Alguém chamara o Corpo de Bombeiros, mas estava impossível chegar até o quarto. Um homem, entretanto, aventurou-se a enfrentar as chamas. Era um bombeiro valoroso, pensou Rogério. Aquele homem arriscou sua vida, queimou-se, mas salvou os dois filhos de Rogério, que agradeceu-lhe imensamente.
            "Não se lembra de mim, velho homem?", perguntou o salvador.
            "Não, rapaz".
            "O senhor era bombeiro e resgatou-me do soterramento de meu barraco. E olhe que eu havia assaltado o senhor um dia antes! Quando salvou-me, decidi entrar para a Corporação... E estava de folga hoje, mas por acaso ouvi o chamado deste incêncio e decidi vir ajudar... Foi Deus quem me trouxe aqui. Agora eu retribuí o seu perdão".

sábado, 20 de outubro de 2012

A Churrascaria



A Churrascaria


Parte I:

Telma e Adilson estavam se beijando pela quinta vez no banco de trás, e pela quinta vez o pai de Telma pigarreou forte, olhando nervoso pelo retrovisor do carro. Elza era a mãe de Telma, sentada do lado do passageiro, e sorriu ao observar o marido apertar forte o volante do carro.

            - Calma, benhê, eles não estão fazendo nada demais.

            Jorge ficou quieto. Telma e Adilson tentaram se conter e cada um olhou para o seu lado na janela do sedã, enquanto passavam pela rodovia movimentada em direção à capital. Os caminhões eram ultrapassados e na pista contrária os veículos passavam zunindo causando um efeito letárgico em Adilson, que segurava forte a mão de sua namorada, sentado do lado esquerdo do automóvel.

                        Assim que o pai de Telma tornou a se distrair com a rodovia, Adilson puxou Telma para si e voltaram a se beijar lânguidamente, trocando saliva, Adilson explorando a boca doce de sua namorada enquanto sua mão sorrateiramente deslizava sobre as coxas da garota de apenas dezoito anos.

                        Mais uma ultrapassagem e Jorge olhou pelo retrovisor e novamente viu o casal trocando amor. Ficou irritado. Olhou o relógio do carro no painel: onze horas.
                        Viu o anúncio de uma famosa churrascaria cerca de dez quilômetros adiante.
                        - Elza, vamos parar na El Corazon, já estou com fome.
                        - Benhê, falta uma hora pro meio-dia. Porque parar tão cedo?
                        - Não tem mais nenhum restaurante bom na estrada até a capital. E estou cansado de dirigir. Vamos parar, já decidi.

                        Jorge deu seta e entrou na via de acesso ao posto e a churrascaria de estrada, bastante conhecida, cheia de caminhões, ônibus e carros estacionados. Achou um canto para estacionar o sedã e logo estavam descendo, Jorge grato por esticar as pernas e tentar separar um pouco aquele casal, raivoso por achar que sua filha estava no cio.           

                        Adilson não desgrudou da namorada. Ambos não tiravam os olhos um do outro, abraçados, enquanto entravam na lotada, mesmo às onze horas da manhã, churrascaria rodízio.

                        Sentaram-se em uma mesa perto do bufê de saladas. Jorge limpou seus talheres com o guardanapo de pano. Observou sua filha, através dos grossos óculos de aro de tartaruga: uma linda jovem de seios como pêras e curvas audasiosas e sentiu raiva por ela já ser uma mulher. Ele a preferia como uma menina ingênua que fora há alguns anos, e não como aquela garota maliciosa que não soltava do namorado estúpido que arrumara.

                        “Eu vou fazer Comunicação. Vou ser jornalista”

                        “Jornalista o cacete” – Jorge olhava com ódio o rapaz de risada fácil. “Nem escrever direito você sabe, e quer ficar com a minha filha?”

                        O garçom aproximou-se:
                        - Desculpe, senhor – disse à Jorge – o rodízio vai atrasar um pouco, coisa de uns vinte minutos, não esperávamos estar lotados logo cedo. Posso trazer as bebidas? Aconselho um passeio pelo nosso jardim nos fundos enquanto esperam. Uma cervejinha, senhor?

                        Jorge ficou ainda mais irritado, mas Elza e seu sorriso bondoso fizeram com que se acalmasse. Bufou.
                        - Traga uma Hervage bem gelada, o que vão pedir?
                        - Pai – Telma fez cara de anjo – eu e o Di vamos dar um passeio no jardim e já voltamos.
                        - Isso, papai, pede um suco de laranja para ela e para mim uma Cola light.
                        Ao ouvir Adilson, Jorge só não espumou porque Elza o deteve.
                        - Querido, deixa os pombinhos passearem e vamos relaxar um pouco, tá?

                        Telma e Adilson saíram pelos fundos caminhar nos belos jardins. O cheiro de carne se sobrepunha ao da vegetação, o que não era muito agradável.
                        - Vem – puxou Adilson – vamos até aqueles calips.
                        - Eucaliptos, ‘mor. Você vai ter de melhorar o português para estudar Comunicação e Jornalismo.
                        - Tanto faz. Vamos.
                        Passaram pelo belo bosque de eucaliptos e araucárias angustifólias e adentraram a vegetação cada vez mais densa até uma pequena cabana de paredes de taipa e teto de sapé.
                        - Aqui, vem. Ninguém vai nos ver atrás da cabana.
                        Trocaram beijos densos e molhados. A mão de Adilson deslizou pela bunda em forma de coração de Telma.
                        - Para, alguém pode vir aqui.
                        - Não vem, não. Seu pai ficou lá bebendo cerveja com sua mãe.
                        Beijaram-se mais com Adilson explorando o corpo da garota.
                        - Tel... Faz uma coisa...
                        - Já disse que quero ficar virgem até casar. Meu pai é muito bravo.
                        - Não é isso. Porque você não ... – E cochichou no ouvido da menina-mulher.
                        - Ah, Di! Eu... Eu acho que nem sentiria prazer fazendo isso. Tenho nojo.
                        - Mas você vai me levar à nuvens, vai me dar muito prazer, e eu sou limpinho.
                        Telma sorriu maliciosa. Porque não? Decidiu que seria divertido. Ajoelhou-se diante dele, na folhagem, atrás da cabana. Abaixou seu ziper, mas antes, lhe disse:
                        - Não vá terminar na minha boca que eu morro de nojo, tá?

                        Fazia o trabalho, sentindo mais prazer em dar prazer ao seu namorado, que arfafa e estremecia, do que a si mesma, mesmo assim estava bem molhada, mas não tirara uma peça de roupa sequer, não tinha coragem, embora desejasse.
                        Então parou e tirou o instrumento da boca.
                        - Não, não para, Tel, não para, por favor!
                        - Escuta, Di, tem alguém gemendo!
                        Adilson ficou meio impaciente mas ouviu o gemido de mulher.
                        - Tem sim. Será que é alguém transando?
                        - Não, seu tonto. Só pensa bobagens! Parece que a pessoa tá gemendo de dor.
                        Adilson vestiu-se e Telma levantou-se e foram mais dentro da mata. Os gemidos ficaram mais fortes, assim como o bater do coração de ambos.

Parte II

                        Devagar, Adilson foi afastando as folhagens avançando mais para os fundos do grande terreno da churrascaria, puxando Telma pela mão. Tentou segurar a respiração acelerada e sentia que sua namorada estava tremendo.
                        Os gemidos e murmúrios de dor ficavam mais fortes a cada passo. Adilson engoliu seco. Telma segurou forte a mão do namorado.
                       
                        Ouviram, estarrecidos, uma voz grossa dizendo:
                        - Essa aqui ainda tá viva, parece que não morre. Tapa a boca dela, que eu não aguento mais ficar ouvindo choradeira.
                        Antes que vissem o que estava acontecendo, Telma deteve seu namorado e sussurou.
                        - Vamos embora daqui, Di.... Vamos embora. Vamos chamar a polícia. Coisa boa não é.
                        - Vamos só dar uma espiada. Nossa, que cheiro forte de carne assada.
                        Ignorando o puxão de Telma e seus avisos, Adilson avançou mais no meio do mato e por fim viram, do alto do morrinho onde estavam, o pequeno vale, nos quintais da churrascaria.

                        O choque daquela visão deixou ambos paralisados e sem reação em um primeiro momento.

                        Vários espetos enormes giravam sobre fogueiras em grandes churrasqueiras. Amarrados e enfiados nos espetos, homens e mulheres nus iam assando lentamente. Alguns visivelmente ainda estavam vivos. Mais além, uma gaiola onde alguns homens e mulheres, também já despidos e bem amarrados, aguardavam serem assados e grelhados nas chapas, amordaçados e desesperados ao assistirem o que lhes aguardava.
                        A mulher que gemia mais alto e que chamara a atenção do casal teve a boca tapada com um guardanapo de pano, com o símbolo da churrascaria bordado nele. Ela estrebuchava espetada no espeto que girava lentamente sobre o fogo.
                       
                        - Corta os bagos do marido dela e joga na chapa que tostado é muito saboroso, você sabe, e serve para o casal na mesa 4 que pediu o couvert especial... – deu uma risadinha. – Se eles soubessem o que é o couvert especial....

                        - Essa mulher não morre, vou jogar óleo quente no lombo para servirmos à pururuca, aí quem sabe ela expira de uma vez. – E assim o fez.

                        Telma desmaiou. Ao cair pesadamente sobre o mato, soltando da mão de Adilson, ela rolou e quase caiu do barranco em direção às churrasqueiras. Seu namorado foi rápido e a segurou, mas a terra caindo e o barulho foi suficiente para atrair a atenção dos churrasqueiros.

                        - Ei, vocês aí!

                        Adilson tentou reanimar Telma, ele mesmo tremendo e engolindo seco, arfando, mas desta vez de puro medo. Batia no rosto dela, que inconsciente parecia pesar uma tonelada. Pegou-a nos braços quando viu os três homens com garfões e espetos na mão começarem a subir na direção deles, e saiu em disparada de volta à churrascaria.
                        Mas naquela direção já vinham dois homens musculosos brandando facões.
                        Virou-se e meteu-se no meio do mato denso em direção à um morro, a adrenalina fazendo com que pudesse correr e segurar Telma em seus braços.
                        Atravessou parasitas e teias de aranha entre galhos espinhosos, que lhe cortavam a testa, e começou a subir o morro com um desespero crescente.

                        Tropeçou em um cupinzeiro e caiu no mato, derrubando Telma entre os arbustos. Ela recobrou a consciência, totalmente desorientada.
                        - Tel, Tel, levanta, temos que fugir, correr o máximo, porque se aqueles caras nos pegam nós vamos acabar nas churrasqueiras!
                        “Caiu a ficha” de Telma e ela entrou em pânico, chorando desesperada.
                        - Eles servem carne humana na churrascaria! Meu Deus! Adilson! Meus pais...
                        - Eles devem estar bem, só vi gente jovem nos espetos, eles não querem carne velha. Nós temos que fugir, sei lá, chegar na estrada, estou ouvindo eles chegando, levanta, Tel!!!!!!
                        Adilson ajudou Telma a levantar-se e ambos emprenharam-se cada mais na mata profunda, subindo o morro, ele mesmo passando a chorar, ela tentando não gritar de pavor e soluçando, ambos correndo o tanto que suas pernas aguentavam.

                        Subiram entre a mata fechada sem um rumo definido, apenas tentando salvar suas vidas. De certa forma a fuga e a adrenalina serviram para acalmar ambos, que agora só se focavam na preservação e em manter distância dos assassinos. Fugiram por muito tempo até o topo do morro e além, mas não conseguiram achar a estrada ou nenhum outro indício de civilização. Duas horas e meia de corrida depois e estavam completamente perdidos. A boa notícia é que não havia sinal dos churrasqueiros.

                        - Di, preciso parar, preciso de água. – Telma tombou na grama da pequena clareira, do outro lado do morro que os separava da churrascaria.
                        Adison caiu de joelhos, totalmente exausto.
                        - Acho que desistiram de nos procurar. Tem água aqui perto, estou ouvindo uma caichoeira.
                        - Eles não vão desistir, Di. Ai, meu Deus, se eles nos pegarem nós vamos ser espetados e colocados naquelas churrasqueiras e vamos ser assados, e os clientes da churrascaria vão comer a gente! – Telma começou a chorar descontroladamente novamente, em pânico.
                        Adilson não disse nada, apenas puxou com violência sua namorada na direção do barulho que escutava e acharam uma pequena cascata. Saciaram a sede na água limpa que descia das pedras do morro. O sol estava implacável naquele fim de tarde e sentaram-se à sombra de uma árvore. Telma agarrou-se ao namorado.
                        - Adilson, me salve, eu não quero morrer! Eu ainda nem vivi, eu quero curitr a vida, e ainda não quero morrer daquele jeito horrível! Por favor, se eles nos pegarem me mata antes, não quero ser queimada viva e ser servida em fatias!
                        Eles ouviram ruídos e berros na mata adiante.
                        Adilson não esperou mais e puxou sua namorada, sem parar e sem olhar para trás, e ambos os jovens voltaram a atravessar o mato como se este fosse de seda. Espinhos e aranhas não eram nada diante do temor aos churrasqueiros.
Parte III:

                        Ouviram automóveis.
                        - A estrada, Tel! Força, se a gente chegar na estrada a gente se salva!
                        Apesar de não conseguirem vê-la, ouviam os carros e caminhões cada vez mais perto na movimentada rodovia.
                        Um último arbusto vencido e subiram por um barranco de terra até o acostamento da estrada. Os veículos passavam zuinindo e o casal fez sinais e pulou, mas ninguém sequer diminuiu a velocidade.
                        - Tel, eles não vão parar. Vamos correr até um outro posto.
                        - Eu vou me jogar na frente de algum carro, Di. Ou então vou levantar o meu top e mostrar os peitos que alguém para, ah, se para!
                        - Não diga bobagem. Vamos!
                        E correram pelo acostamento. Avistaram um posto da Polícia Rodoviária e contentes apertaram as passadas.

                        Ofegantes explicaram aos solícitos guardas rodoviários tudo o que viram e ouviram. É claro que não acreditaram e um deles chegou a fazer teste do bafômetro tanto em Adilson quanto em Telma.
                        O tenente Villar finalmente concordou em pelo menos verificar a churrascaria.
                        - Subam na viatura. Eu sempre almoço no El Corazon e nunca soube de nada errado, a carne que servem lá é picanha, cupim, coração de galinha...
                        - Por favor, seu guarda, - Telma estava totalmente aflita - eu vi uma mulher sendo assada na churrasqueira, eles comem mulher lá!
                        Os outros guardas explodiram em risadas. O tenente Villar demonstrou paciência.
                        - Não se preocupe, cidadã, vamos averiguar.
                        A viatura parou no estacionamento lotado do El Corazon. Todos desceram. Telma estava relutante.
                        - Eu não quero voltar aí.... Chamem os meus pais!
                        - Eu vou com eles, Tel. Olha, seus guardas, vamos primeiro falar com os pais da minha namorada e ver se tá tudo bem, certo?
                        Villar e os outros dois policiais concordaram e os quatro entraram na churrascaria cheia de gente. Adilson avistou Jorge e Elza. Chegou até eles, nervoso.
                        - Eu explico depois. Por favor, saiam. A Telma está lá fora no carro de polícia.
                        Jorge ficou extremamente irritado e colocou-se de pé, apontando o dedo em riste para Adilson.
                        - O que você aprontou? Se machucou minha filha eu te mato!
                        - Calma, doutor – disse Villar. E contou tudo o que Adilson e Telma lhes dissera.
                        - Isso é um absurdo completo. Adilson, você deu drogas à minha filha?
                        Elza levantou-se e segurou os braços do tenente Villar.
                        - Nós nem almoçamos ainda. Estávamos aqui nervosos esperando esses dois que nunca voltavam. Estamos aqui à horas, o gerente saiu à procura deles. Será verdade essa história absurda?
                        - Claro que não, esses dois aprontaram alguma! – Jorge já gritava.
                        Villar fez um sinal e os outros dois policiais seguiram-no, as mãos segurando o cabo das armas no coldre.
                       
                        Chegaram ao quintal da churrascaria. Não havia nada lá. Verificaram tudo. Um dos policiais checou a cozinha, outro experimentou as carnes.
                        Voltaram e sentenciaram aos pais de Telma e à Adilson:
                        - Não há nada de anormal aqui. Nada! Rapaz, quero que você e sua namorada me acompanhem até o posto, que quero interrogá-los. Essa brincadeira vai custar caro à vocês! Venham!

                        Dois dias depois e Telma acordou de um pesadelo. Lavou o rosto, escovou os dentes e desceu tomar café da manhã, já estavam em casa depois dos problemas e da longa viagem de volta.
                        - Ainda bem que você está de férias, né, filha? – Disse Elza ao servi-lhe o leite.
                        - Ainda bem, mãe. Não ia ter saco para ir à faculdade depois de tudo.
                        Elza saiu da cozinha. Telma passou geléia no pão e o devorou, ficara dois dias sem comer e estava faminta.
                        Seu pai entrou sorrindo.
                        - Bom dia, filha, tudo bem?
                        - Sim, pai. O Adilson ligou? Desde que voltamos ele não me liga.
                        - Ele está bem pertinho de você, agora, filha.
                        - Hein?
                        - Gostou da geléia?
                        - Eu... Gostei, tem um gosto diferente.
                        - Pois é. Essa geléia foi feita do cérebro do seu namorado. Em bem que disse que ele tinha o miolo mole.
                        Telma deu um pulo, cuspiu e teve ânsias. Olhou seu pai, chocada.
                        - Como? Pai, não brinca...
                        - Não é brincadeira. Veja ali naquele vidro em cima da geladeira.
                        Telma olhou aterrorizada o vidro enorme sobre a geladeira. A cabeça de Adilson, sem seu cérebro, olhava para ela com os olhos arregalados.
                        Seu grito foi de gelar o sangue. Ela desmaiou.
                       
                        Quando acordou, estava amordaçada. Estava amarrada em sua cama.

                        Seu pai entrou com um açougueiro gordo, com o avental sujo de sangue e segurando dois enormes facões.
                        - Veja, Telma, este é o dono da El Corazon. Ele ensinou eu e sua mãe a apreciarmos carne de primeira. Seu namorado rendeu um belo churrasco.
                        Telma tentou soltar-se e gritar, mas estava bem presa e amordaçada. Ela começou a tremer violentamente.
                        - Bem, sr. Ruffinno, quero-a bem fatiada. Meus amigos vem para a churrascada amanhã e eu e Elza queremos serví-la mal-passada.
                        - Pode deixar. Já preparei a churrasqueira e meu churrasqueiro vai salgá-la bem, nós a assaremos viva em sal grosso.
                        - Adeus, Telma. Tente relaxar enquanto é cozinhada, senão sua carne fica muito dura.
                        Seu pai saiu e fechou a porta. Ruffino desamarrou-a.
                        - Tire suas roupas. Não dá para assar você de roupas. Se ficar calma morre mais rápido e não sofre tanto.
                        Telma mostrou-se passiva e fez que ia tirar a blusa. Mas virou-se, e com rapidez tomou um dos facões de Ruffinno e meteu-lhe no estômago.
                        - Morre você, filho-da-puta! – E enfiou-lhe o facão várias vezes. O açougueiro titubeou.
                        Então, para completa surpresa de Telma, ele se recompôs. Tirou o facão enterrado da barriga. – Tsc, tsc, tsc. Que feio. A comida querendo matar o cozinheiro.
                        Telma começou a chorar:
                        - O... O quê é você? Você não pode estar vivo, não pode!
                        - E não estou. Nem seu pai, nem sua mãe. A churrascaria El Corazon é o local de reunião dos zumbis carnívoros. Nós já morremos, mas um vírus nos fez levantar dos túmulos e viver de carne humana. Só a carne humana nos alimenta.
                        - Não... Não, por favor, não... É um pesadelo...
                        - Sinto muito, querida, mas não é. E não vou ficar discutindo com a comida. Agora, se for boazinha e despir-se, tudo fica mais fácil...

FIM
                       
                       

sábado, 13 de outubro de 2012


O Guardião da Lua


Em uma aldeia em algum lugar da Galícia, em plena Idade Média, morava uma mulher muito bonita e inteligente chamada Igraine. Independente, vivia às turras com o marido brigão que não conseguia domá-la. Um casamento arranjado. De tanto que Igraine se indispôs com seu cônjuge que ele se encheu e inventou mentiras sobre ela ao Conde Bartiüs, que mandava e desmandava no vilarejo.

Acusada injustamente de bruxaria, foi condenada à fogueira. Os habitantes daquela aldeia esquecida pareciam se divertir com isso, e a agarraram em sua casa e a arrastaram do jeito que estava para enorme pilha de madeiras que havia no cento do vilarejo. Seu marido, Dardüs, ria de prazer sádico.
Ela foi amarrada à estaca no meio da pilha e homens encapuzados apareceram com archotes para iniciar a fogueira. Mesmo diante da morte ela era dona de si e permanecia calma, embora interiormente estivesse aterrorizada pelo que estava para acontecer.

- Matem, queimem a bruxa! – Diziam os habitantes ensandecidos da aldeia.

No instante em que o fogo foi aceso e Igraine se encolheu toda, um estranho cavaleiro surgiu do nada. Montava um cavalo negro maior que qualquer cavalo que qualquer um já vira e trajava estranhos trajes, além de uma máscara prateada que lhe cobria toda a face. Sua capa negra era agitada pelo vento daquela noite sombria. Desmontou do cavalo lentamente e seus um metro e noventa de altura deixaram mudos os habitantes da cidadezinha, além do Conde Bartiüs e Dardüs.

Os homens e mulheres que assistiam a execução de Igraine afastavam-se à medida que o estranho cavaleiro passava, até que se aproximou da fogueira. Ergueu a mão e um raio de luz azul extinguiu as chamas.

Todos estavam abismados, inclusive Igraine.

- Bruxaria! Peguem o bruxo! Matem-no! – Gritou Dardüs.

Mas quando os carrascos e os soldados do Conde avançaram sobre o cavaleiro, ele apenas fez um sinal com as mãos, arremessando todos para longe.

Ninguém mais se atreveu a intervir enquanto o cavaleiro subia pela pilha de madeiras e libertava Igraine. Tomou-a em seus braços e a levou para o seu cavalo. Todos estavam mudos. Dardüs ainda tentou uma reação, mas o cavaleiro apenas olhou para ele e o fez tombar de joelhos, tremendo e gritando de dor.

Com Igraine à sua frente, o cavaleiro cavalgou alguns metros e o cavalo começou a subir e criar asas, tal qual um pégaso.

- Quem... Quem é você? – Os longos cabelos loiros de Igraine esvoaçavam com o vento enquanto atingiam as nuvens esparsas e a Lua cheia iluminava a noite de forma magnífica.

Ele apenas fez sinal de silêncio com o dedo diante da boca e continuaram a subir.

Repentinamente uma névoa forte os engolfou. Um forte brilho azul os envolveu. Quando emergiram estavam em uma cidade vazia e em ruínas, que flutuava nos céus acima de uma nuvem negra que parecia sólida. Relâmpagos faziam brilhar as colunas em pedaços e o mármore do chão estava todo riscado.

O cavaleiro tirou a máscara prateada e sorriu. Seus cabelos eram grisalhos e seus músculos bem definidos. Seus olhos castanhos eram fortes e penetrantes. Igraine o encarou surpresa, ela mesma lindíssima, olhos verde-jade e lábios convidativos.

- Sou Émer, o último dos Guardiães da Lua. Nossa cidade foi destruída por... Não importa. O fato é que vi o que houve lá embaixo, em sua aldeia. Como podem querer executar uma garota tão linda como você?
- São ignorantes. Tudo que não entendem é bruxaria. Obrigada por me salvar, eu... Eu nunca mais vou querer voltar àquela aldeia.

Ele sorriu.

- Não a levarei de volta, princesa. Como é seu nome?

- Igraine. – Ela olhou em volta. – Você mora aqui?

- Sim. É uma longa história, que não quero lhe contar agora, haverá tempo para isso depois. Eu a salvei porque a quero como minha amante.

Ela olhou-o de olhos arregalados. Ia dizer alguma coisa, mas ele tapou-lhe a boca.

- Não existe mais ninguém da minha espécie. Antes que fale, quero que saiba que é livre para ir embora, e eu a levarei para onde você quiser.

Destapou-lhe a boca. Ela apenas o observou por um longo momento. Depois olhou para baixo, não dava para ver nada na escuridão da noite, além das nuvens e relâmpagos.

Voltou a olhá-lo. Mediou de cima abaixo.

- Eu não tenho mais nada nesse mundo, mas... As coisas estão indo rápidas demais, não acha? Você me salvou da morte horrível de ser queimada viva e é lindo... Porém pode ser pior que meu marido lá embaixo.
- Isso você descobrirá com o tempo. O que posso dizer-lhe é que tenho pressa. Estou morrendo. Minha espécie não vive mais que vinte anos. Meu tempo está acabando. Não tenho mais que um mês de vida.
Igraine mordiscou o lábio, assustada. Estava certo que aquele cavaleiro era maravilhoso e a salvara, porém entregar-se a ele sabendo que ele morreria em um mês...

- E então? Quero que me ajude a salvar minha linhagem. Mesmo mestiço, nosso filho carregará minha herança.

- E depois? O que será de mim?

- Se aceitar minha oferta, terá a riqueza de meu povo. E será acolhida pelos zereus, um povo aliado. Será uma rica rainha. Por favor, seja minha amante, nem que seja por apenas uma noite e nada mais.

Ela o encarou e ficaram em silêncio por um tempo que parecia infinito.

- Está bem. Serei sua amante. Mas será por uma noite. Cuidarei de seu herdeiro – ou herdeira – você me salvou a vida e lhe devo isso.

Émer foi muito romântico. Candelabros iluminaram uma refeição saborosa regada a vinho. Ele era divertido, contava piadas, e dizia coisas que ela sempre quis ouvir, que seu próprio marido jamais lhe dissera. Não tardou para que se apaixonassem, em tão pouco tempo. O primeiro beijo deixou ambos enebriados.

Quando ele a despiu, ela sentiu-se um pouco envergonhada, porém ele logo a deixou a vontade. Ele era hábil e Igraine sentiu coisas que nunca sentira na vida. Beijavam-se com vontade. Amaram-se no início lentamente, sem pressa, porém logo faziam amor de forma exuberante, em todas as posições, e Igraine simplesmente estava nas nuvens, embora literalmente estivesse realmente nas nuvens.

Quando amanhecia e os raios solares entravam enviesados pelas enormes janelas do quarto luxuoso – embora em ruínas – de Émer, eles finalizaram o jogo de amor e se entregaram a um sono profundo.

Nos dias que se seguiram apenas comiam quando lhes dava fome, bebiam quando lhes dava sede, riam lendo manuscritos, cantavam e se amavam. Faziam amor em todos os quantos da cidade, de todos os jeitos, se beijavam, se abraçavam, contavam histórias maravilhosas um para outro.

Eles viviam. Apenas os dois. Faziam o que gostavam. E faziam amor.

Tempos depois, as regras de Igraine atrasaram. Ela correu procurar Émer, não se continha de felicidade. Estava grávida!

Contudo, apenas encontrou uma carta;

Chegou a minha hora. Mas não chore, minha rainha. Cuide bem de nosso filho. E, agora que aprendeu a viver, viva intensa cada momento. Nascemos para sermos felizes. Faça o que gosta. Viva! Deixe para trás tudo que lhe estraga a alma, esqueça tudo que lhe traga infelicidade e viva! Eu sempre te amarei e te esperarei na Eternidade, e quando chegar a hora juntar-se-á a mim para todo o sempre”