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domingo, 10 de março de 2013

Os Sentimentos da Alma


Era estranho aquilo que sentia, aquilo que o perseguia. Ele não sabia dizer o que era, não sabia definir, não sabia dar-lhe um nome, mas era um sentimento misterioso, algo que o estrangulava aos poucos.

Caminhava pela rua movimentada. As expressões nos rostos das pessoas que cruzavam com ele nada lhe diziam. Eram rostos nulos. Mas o sentimento o afligia. Algo dominava seus passos. Algo o segurava, e no entanto... No entanto estava ali, só, no meio da multidão.

Olhou os ônibus a expelirem o ar negro. Olhou os motoristas buzinando em fúria, as motocicletas serpenteando no trânsito estressante, mas ao mesmo tempo tudo aquilo não era nada, havia um vazio à sua volta, um silêncio ensurdecedor que o agitava.

Suas mãos tremiam. Sua boca estava seca. O que estava sentindo, o que o sacudia, o que o trepidava? Engoliu seu coração que estava à boca e seguiu pela faixa de pedestres.

Era o trabalho que o açoitava? Era a mulher que o atormentava? Era a amante, com seus pedidos estúpidos, que o torturava? O que estava acontecendo com ele...? Olhou os arranha-céus em direção ao céu que de seu nada tinha. Um cinza-negro que prometia chuva, mas aquilo não fazia sentido em sua alma.  Não fazia sentido algum. A vida não fazia sentido.

Ele queria algo. Mas o que era? Ele sentia algo, e este algo era ruim. Porém, onde obteria respostas? Olhou à sua volta: lojas, um açougue, uma padaria, gente, casas velhas e decrépitas, gente, a chuva começando a cair, gente, o que ele sentia, pelo amor de Deus???

Começou a correr. Queria ver se podia fugir do que lhe apertava o peito. Correu. A chuva aumentou. Correu. As pessoas lhe atrapalhavam, correu... E então ele, que corria, percebeu.

Estacou. O que lhe afligia, o que ele sentia, de súbito revelou-se, como se um véu ocre estivesse a tapar-lhe a visão e fosse repentinamente retirado.

Alguém estava atrás dele. Ele sentia sua respiração funesta. Ela agora sabia a resposta. Sentiu a mão gélida tocar-lhe o ombro. O sabor do desespero alimentou sua alma e ele entregou-se.

Era a morte. A morte viera buscá-lo. Libertá-lo dos fantasmas de suas ações ruins do passado, e levá-lo onde o inominável o esperava, para que fosse julgado sem piedade.

Entregou-se. Seu corpo caiu em meio à multidão indiferente, quem ligaria para um miserável?

Sua alma seguiu o ser negro e sua foice para a vermelhidão do inferno de onde, sabia, jamais sairia ou seria algo diferente do que fora em vida.

3 comentários:

  1. Olá Vitão.

    Gostei deste pequeno conto, ou alegoria do que muitos andam passando ultimamente. Gostei obviamente da parte da 'vermelhidão do inferno' risos. Adoro finais 'apocalípticos' para os protagonistas. Você está mais agil...Parabéns.

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  2. A corrida para a descoberta. Em algum lugar, em algum momento, todos buscam uma resposta, sentem que a presença de algo indecifrável. Não há fuga. Nem esconderijos possíveis. Ela sempre vem. Inesperada. O destino final é a incógnita. Paraíso? Inferno? Depende, né? Adoro ler e pensar sobre as possibilidades. ;) Muito bom. Parabéns!

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