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sábado, 13 de outubro de 2012


O Guardião da Lua


Em uma aldeia em algum lugar da Galícia, em plena Idade Média, morava uma mulher muito bonita e inteligente chamada Igraine. Independente, vivia às turras com o marido brigão que não conseguia domá-la. Um casamento arranjado. De tanto que Igraine se indispôs com seu cônjuge que ele se encheu e inventou mentiras sobre ela ao Conde Bartiüs, que mandava e desmandava no vilarejo.

Acusada injustamente de bruxaria, foi condenada à fogueira. Os habitantes daquela aldeia esquecida pareciam se divertir com isso, e a agarraram em sua casa e a arrastaram do jeito que estava para enorme pilha de madeiras que havia no cento do vilarejo. Seu marido, Dardüs, ria de prazer sádico.
Ela foi amarrada à estaca no meio da pilha e homens encapuzados apareceram com archotes para iniciar a fogueira. Mesmo diante da morte ela era dona de si e permanecia calma, embora interiormente estivesse aterrorizada pelo que estava para acontecer.

- Matem, queimem a bruxa! – Diziam os habitantes ensandecidos da aldeia.

No instante em que o fogo foi aceso e Igraine se encolheu toda, um estranho cavaleiro surgiu do nada. Montava um cavalo negro maior que qualquer cavalo que qualquer um já vira e trajava estranhos trajes, além de uma máscara prateada que lhe cobria toda a face. Sua capa negra era agitada pelo vento daquela noite sombria. Desmontou do cavalo lentamente e seus um metro e noventa de altura deixaram mudos os habitantes da cidadezinha, além do Conde Bartiüs e Dardüs.

Os homens e mulheres que assistiam a execução de Igraine afastavam-se à medida que o estranho cavaleiro passava, até que se aproximou da fogueira. Ergueu a mão e um raio de luz azul extinguiu as chamas.

Todos estavam abismados, inclusive Igraine.

- Bruxaria! Peguem o bruxo! Matem-no! – Gritou Dardüs.

Mas quando os carrascos e os soldados do Conde avançaram sobre o cavaleiro, ele apenas fez um sinal com as mãos, arremessando todos para longe.

Ninguém mais se atreveu a intervir enquanto o cavaleiro subia pela pilha de madeiras e libertava Igraine. Tomou-a em seus braços e a levou para o seu cavalo. Todos estavam mudos. Dardüs ainda tentou uma reação, mas o cavaleiro apenas olhou para ele e o fez tombar de joelhos, tremendo e gritando de dor.

Com Igraine à sua frente, o cavaleiro cavalgou alguns metros e o cavalo começou a subir e criar asas, tal qual um pégaso.

- Quem... Quem é você? – Os longos cabelos loiros de Igraine esvoaçavam com o vento enquanto atingiam as nuvens esparsas e a Lua cheia iluminava a noite de forma magnífica.

Ele apenas fez sinal de silêncio com o dedo diante da boca e continuaram a subir.

Repentinamente uma névoa forte os engolfou. Um forte brilho azul os envolveu. Quando emergiram estavam em uma cidade vazia e em ruínas, que flutuava nos céus acima de uma nuvem negra que parecia sólida. Relâmpagos faziam brilhar as colunas em pedaços e o mármore do chão estava todo riscado.

O cavaleiro tirou a máscara prateada e sorriu. Seus cabelos eram grisalhos e seus músculos bem definidos. Seus olhos castanhos eram fortes e penetrantes. Igraine o encarou surpresa, ela mesma lindíssima, olhos verde-jade e lábios convidativos.

- Sou Émer, o último dos Guardiães da Lua. Nossa cidade foi destruída por... Não importa. O fato é que vi o que houve lá embaixo, em sua aldeia. Como podem querer executar uma garota tão linda como você?
- São ignorantes. Tudo que não entendem é bruxaria. Obrigada por me salvar, eu... Eu nunca mais vou querer voltar àquela aldeia.

Ele sorriu.

- Não a levarei de volta, princesa. Como é seu nome?

- Igraine. – Ela olhou em volta. – Você mora aqui?

- Sim. É uma longa história, que não quero lhe contar agora, haverá tempo para isso depois. Eu a salvei porque a quero como minha amante.

Ela olhou-o de olhos arregalados. Ia dizer alguma coisa, mas ele tapou-lhe a boca.

- Não existe mais ninguém da minha espécie. Antes que fale, quero que saiba que é livre para ir embora, e eu a levarei para onde você quiser.

Destapou-lhe a boca. Ela apenas o observou por um longo momento. Depois olhou para baixo, não dava para ver nada na escuridão da noite, além das nuvens e relâmpagos.

Voltou a olhá-lo. Mediou de cima abaixo.

- Eu não tenho mais nada nesse mundo, mas... As coisas estão indo rápidas demais, não acha? Você me salvou da morte horrível de ser queimada viva e é lindo... Porém pode ser pior que meu marido lá embaixo.
- Isso você descobrirá com o tempo. O que posso dizer-lhe é que tenho pressa. Estou morrendo. Minha espécie não vive mais que vinte anos. Meu tempo está acabando. Não tenho mais que um mês de vida.
Igraine mordiscou o lábio, assustada. Estava certo que aquele cavaleiro era maravilhoso e a salvara, porém entregar-se a ele sabendo que ele morreria em um mês...

- E então? Quero que me ajude a salvar minha linhagem. Mesmo mestiço, nosso filho carregará minha herança.

- E depois? O que será de mim?

- Se aceitar minha oferta, terá a riqueza de meu povo. E será acolhida pelos zereus, um povo aliado. Será uma rica rainha. Por favor, seja minha amante, nem que seja por apenas uma noite e nada mais.

Ela o encarou e ficaram em silêncio por um tempo que parecia infinito.

- Está bem. Serei sua amante. Mas será por uma noite. Cuidarei de seu herdeiro – ou herdeira – você me salvou a vida e lhe devo isso.

Émer foi muito romântico. Candelabros iluminaram uma refeição saborosa regada a vinho. Ele era divertido, contava piadas, e dizia coisas que ela sempre quis ouvir, que seu próprio marido jamais lhe dissera. Não tardou para que se apaixonassem, em tão pouco tempo. O primeiro beijo deixou ambos enebriados.

Quando ele a despiu, ela sentiu-se um pouco envergonhada, porém ele logo a deixou a vontade. Ele era hábil e Igraine sentiu coisas que nunca sentira na vida. Beijavam-se com vontade. Amaram-se no início lentamente, sem pressa, porém logo faziam amor de forma exuberante, em todas as posições, e Igraine simplesmente estava nas nuvens, embora literalmente estivesse realmente nas nuvens.

Quando amanhecia e os raios solares entravam enviesados pelas enormes janelas do quarto luxuoso – embora em ruínas – de Émer, eles finalizaram o jogo de amor e se entregaram a um sono profundo.

Nos dias que se seguiram apenas comiam quando lhes dava fome, bebiam quando lhes dava sede, riam lendo manuscritos, cantavam e se amavam. Faziam amor em todos os quantos da cidade, de todos os jeitos, se beijavam, se abraçavam, contavam histórias maravilhosas um para outro.

Eles viviam. Apenas os dois. Faziam o que gostavam. E faziam amor.

Tempos depois, as regras de Igraine atrasaram. Ela correu procurar Émer, não se continha de felicidade. Estava grávida!

Contudo, apenas encontrou uma carta;

Chegou a minha hora. Mas não chore, minha rainha. Cuide bem de nosso filho. E, agora que aprendeu a viver, viva intensa cada momento. Nascemos para sermos felizes. Faça o que gosta. Viva! Deixe para trás tudo que lhe estraga a alma, esqueça tudo que lhe traga infelicidade e viva! Eu sempre te amarei e te esperarei na Eternidade, e quando chegar a hora juntar-se-á a mim para todo o sempre”
            

3 comentários:

  1. Belo texto! Muito lindo o conto!
    há um grande aviso nas entrelinhas para maridos chatos... hahaha... ai quando aparece um cavaleiro, já era! rsrsrs... só é pena que ele morreu.
    Parabéns! Você é sensacional!

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  2. Que lindooooooooo! Adorei, super fofo!
    Parabéns!

    Estão vendo homens?!É possível ser fofo.

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  3. Ah, que lindo Vitor! Amei o conto. Está de parabéns. Eu teria terminado de uma forma diferente. Ela teria descoberto um ritual antigo q permitia unir a vida dele à do filho e assim salvado o amor dela rs mas isso pq eu sou romântica até a medula rs.

    Mas tragédias românticas são lindas, adorei. Agora, mais do que nunca, quero ler seu livro. Um abraço!

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