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sábado, 6 de março de 2010

UNIVERSOS

Autor: Vitor H. B. Ribeiro


O dr. Montes, sentado na poltrona do canto do quarto, sorriu:

- Você sabe do que eu estou falando, Jessica.

Jessica Kerabi sabia, mas não queria admitir. Levantou-se de supetão da cama:

- Ora, Rogério, não pode ser possível, simplesmente não pode. A existência de
dez dimensões foi comprovada nos aceleradores de partículas do CERN, e se
considerarmos o Tempo como uma quarta dimensão, as outras seis são tão enroladas
e pequenas que dificilmente são detectáveis... E você vem me dizer que uma
quinta dimensão é algo quase perceptível?

Jessica era linda. Loira de olhos verdes. Muito inteligente. Quase uma
contradição.

Rogério Montes deixou escapar uma baforada de seu cachimbo. Cinquenta anos,
cabelos grisalhos, barba idem, um pouco acima do peso:

- Isso mesmo, querida Jessy. Mas é uma coisa que não percebemos no dia-a-dia,
como um desenho sobre uma folha de papel. Se o desenho tivesse consciência,
jamais admitiria que poderia existir a profundidade, a terceira dimensão. Ele é
um ser bidimensional assim como somos tridimensionais...

- Ora, Rogério, um desenho não está vivo! Não creio...

- Só porque não vê, não quer dizer que não está lá. Você vê o Tempo?

- Claro, se eu olhar meu relógio de pulso!

Rogério deu uma gargalhada, ainda sentado na poltrona em frente a cama de casal:

- Jessy, você é impagável! Como você sabe, para termos com precisão a posição de
um corpo, devemos indicar suas coordenadas como X, Y e Z, mais o instante em que
ele está, o tempo T - são quatro dimensões - mas e se houver mais uma que
indique em que Universo ele está? A variável U...

Jessica era perspicaz e achou engraçado aquele pensamento:

- Em que Universo, Rogério?

O experiente físico sorriu largamente:

- Adoro estas discussões. Se existem "n" Universos, como vou saber com certeza
onde o corpo especificado está se não disser em que Universo ele está?

Jessica Kerabi tinha de concordar com a lógica do doutor, porém provar tal coisa
era impossível:

- Isso deve ficar no campo do debate filosófico, Rogério. Na verdade, talvez
você devesse contactar o doutor Stephen Hawking... Ele tem algo parecido com a
sua idéia, a dos Universos Brana.

Rogério soltou outra baforada de seu cachimbo e disse a uma cética Jessica:

- Vou provar para você minha teoria agora mesmo.

A jovem estudante sentou-se na cama, diante dele, perplexa :

- Como?

- Eu vim de outro Universo, querida.

Jessica desatou a rir, uma gargalhada gostosa:

- Ora, Rogério, não conhecia esse seu lado humorístico.

O telefone tocou. Jessica Kerabi foi atendê-lo na sala de estar do apartamento,
já que a extensão do quarto estava quebrada.

- Jessica, aconteceu uma coisa horrível! Está sentada...? - Era uma amiga de
Jessica, aflita.

- O que aconteceu, Telma?

- Seu namorado novo teve um infarto e... e... Morreu. Você tinha de arrumar um
tiozão para namorar? Deu nisso, querida.

- Meu namorado? O professor Rogério?

- Sim... Fazem duas horas que...

Jessica soltou o telefone e voltou ao quarto. Havia um bilhete sobre a cama:

"A variável U que indica onde estou no momento tem o valor A de Além... Foi bom
ver você uma última vez..."

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