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sábado, 15 de maio de 2010

A Guerra dos Impérios - Prólogo (Parte II)

Cinco anos depois

Ütarash, um bandido de Daryani, conseguira descobrir onde estava Zonos e também copiar as chaves de sua prisão. Tentaria com um grande exército dary - os cultuadores de Zonos chamados zinedistas - invadir o templo de Anuep e libertar o demônio do Anti-Universo para unir-se à ele em uma nova onda de terror.
Martogh voltara de seu império, em uma galáxia satélite da Via Láctea, e pedira que os reis fossem atrás de Ütarash e seu exército e os derrotassem.
Atron e Liany arrasaram com noventa por cento dos zinedistas, mas Ütarash havia escapado. Martogh, sem ter notícia dos irmãos lemânticos, conseguiu prender Ütarash e transformá-lo em uma estátua, que no futuro seria conhecida como estátua Zidrah.
Voltou para Tarínia, capital de seu império, para achar um meio de destruir de vez Zonos, achando que Atron e Liany estavam mortos.
Mas não estavam e voltaram à Anuep meses depois. Contudo, Martogh jamais ficaria sabendo disso ou retornaria para a Via Láctea... Uma doença dizimou quase todos os maithens, restanto uns poucos espalhados pelo Universo afora...

Doze anos depois

A dura missão de guardar Zonos era realizada alternadamente pelos irmãos. Enquanto o demônio encarnado estava incomunicável no subsolo do templo de Anuep, um deles ficava verificando os equipamentos da prisão ou estudando na enorme biblioteca; ou ainda treinando no ginásio. O outro voltava para o ponto da galáxia de onde vieram, voltando ao antigo corpo, nas ruínas da cidade de Mégan, capital do antigo planeta turístico de Égon.
Era a vez de Atron K-Rosam’vev retornar onde um dia existira seu Império. Voltava disfarçado. Entre as ruínas da antiga cidade lemântica, pegava uma nave mercante comum e viajava para os planetas caídos na barbárie que se instalara com a queda de seu reinado e da ordem, ou para mundos de reinos oportunistas que não mais tinham de enfrentar a força lemântica ou a de Zonos.
Sem mais ninguém de sua espécie vivendo por aquela região, aparecer como ele era – um lemântico – podia causar muita confusão. Alguns adoravam os seres de Leman, a ponto de os considerarem deuses, e outros os odiavam, pois antes da queda do Império eram subjugados e tinham de seguir a Lei.

Desta vez Atron iria investigar uma antiga e próspera colônia chamada de Tarrent, que no futuro mudaria seu nome para Tevar. Estava a procura de uma forma de impedir a decadência dos costumes morais e da tecnologia nos planetas agora largados à própria sorte e ao mesmo tempo encontrar uma forma de destruir Zonos, livrando sua irmã e a ele próprio do pesado fardo de vigiá-lo.
Usava as roupas e a máscara de um mercador draki. Pousou na cidade-capital, Tevária, e logo olhava para os edifícios decadentes e as estradas cheias de entulho. Caminhou pela antiga e bela praça central, agora largada aos ratos, entre lixo e crianças tarrentianas sujas que bricavam na lama. A praça ficava em um platô de onde se via o resto da cidade litorânea na parte de baixo. Da amurada, observou triste que a maioria das edificações, outrora belíssimas, estava destruída ou danificada, do jeito que o último ataque da frota de Zonos deixou.
Descendo as escadarias imundas até a cidade baixa, andou entre os cortiços cheio de tarrentianos miseráveis, famintos e de olhares tristonhos. Segurou a raiva engolindo seco, enquanto lembrava da felicidade daquele povo de orelhas pontudas e cabelos cor-de-trigo, quando sob sua égide.

Mas Zonos e os zonoístas, seus seguidores, com suas naves-planeta poderosíssimas, arruinaram com tudo. Mataram milhões. Arrasaram com a galáxia inteira. Deixaram para trás, ao serem derrotados pelos maithens, bilhões como aqueles tarrentianos esfomeados.
A praia estava coberta de sujeira, algas mortas e restos de naves e embarcações. O sol muito amarelo de Tevar, Delta Majoris, pouco aquecia, estava frio. Era inverno naquela época do ano na região. Atron decidiu voltar à Tirênia, ao templo de Anuep, pois achava naquele momento que nada poderia fazer para ajudar seus antigos súditos.
Mas então algo o atingiu na cabeça. Atacado de surpresa, por trás, foi surpreendido por ladrões que o esfaquearam, arrancaram quase todas as suas roupas e tomaram seus poucos pertences.
Só de roupas de baixo, o antigo rei estava desfalecido na praia de areias amarelas. Seu sangue roxo passou a misturar-se com as ondas da maré que subia rapidamente. Uma tarrentiana aproximou-se e ficou em estado de êxtase.

Arrastou o lemântico até a casa de sua família com muita dificuldade. Seu pai era um pobre pescador e estava no mar, e sua mãe havia morrido no último ataque dos zonoístas. Era filha única, muito bela, tez alva, orelhas pontudas e cabelos loiros, parecia uma ninfa de olhos verdes.
Seu nome era Kim Kay-War.
A tarrentiana tratou de Atron e provavelmente salvou-lhe a vida. Quando ele despertou, horas depois, Kim sorriu-lhe e disse, dando-lhe de beber.
- Tome, é uma antiga receita de minha avó. Vai lhe fazer bem. Eu... Eu... Eu simplesmente não acredito! Encontrar um lemântico vivo! Pensei que não existiam mais!
O antigo rei bebeu e então recostou-se no travesseiro de penas.
- Um lemântico vivo graças à você. Obrigado... Seu nome é?
- Kim, da família de pescadores War e da casa de Kay. Você não devia estar aqui em Tarrent. O chanceler Adrin assumiu o governo do planeta há pouco tempo e tem dito nas transmissões que agora somos um povo livre e que os lemânticos nos oprimiam.
- O quê? Mas... Mas antes Tarrent era livre e próspera. Leman só mantinha a ordem, mas ajudava...
- Eu sei, eu sei, muito de nós sabem e sentem saudades do antigo Império Lemântico... Mas, como é seu nome, senhor?
Atron não podia dizer quem era. Tomou o nome de um antigo amigo emprestado.
- Argon. Argon X-Valet.
- Pois então, senhor Argon, o chanceler quer apenas se firmar no poder, cobrar impostos absurdos e largar o povo na miséria.
- Ajudarei seu povo no que for possível, senhorita War.
- Gostaria que me chamasse de Kim.
- Só se me chamar de Argon apenas. Ajudarei no que puder, mas preciso voltar à minha nave. Não tenho muitos recursos, mas farei o que estiver ao meu alcance.
Atron pensava nos suprimentos do templo de Anuep e no que poderia pegar para ajudar aquele pobre povo faminto. E poderia ainda liderá-los em alguma espécie de revolução.
- Está muito fraco, Argon. Além do mais há soldados do chanceler por todo o lado. Se o virem, é capaz de o executarem. Alías... O que aconteceu com você?
- Fui atacado por ladrões.
- Sim, isso agora é comum, não há mais segurança nenhuma por aqui...
Atron levantou-se com dificuldade, os cortes em sua carapaça foram feitos com facas-laser e doíam muito.
- Preciso mesmo ir, Kim. Se ficar aqui e for descoberto, pelo que me conta ponho em risco você e sua família. Obrigado pelas roupas, vou pagar por elas.
- Não será necessário, Argon, são roupas velhas. Vou ajudá-lo a disfarçar-se e irei com você até sua nave. Ela está no estacionamento da Cidade Alta?
Atron ficou de pé, mas estava atordoado e enfraquecido. Perdera muito sangue. Mesmo assim disfarçou-se bem, colocando a máscara draki.
- Já anoiteceu e acredito ser muito perigoso você sair agora. Eu sei me cuidar, Kim, mesmo assim agradeço muito sua ajuda. Eles levaram minha arma, pode arrumar algo com que possa me defender?
Kim Kay-War pegou um enorme facão de seu pai.
- Fique com isso. E tome muito cuidado, Argon. Vou vê-lo novamente?
Enquanto deixava a casa, Atron disse sem se virar.
- Espero que sim, tarrentiana. E espero trazer suprimentos... E esperança.

Subiu as escadarias agora desérticas na noite silenciosa. As quatro luas, uma de cada cor, projetavam sombras bizarras em meio as ruas decadentes.
Ouviu passos leves atrás de si enquanto caminhava, mas não se virou, apenas apertou o passo e pousou sua mão no cabo da peixeira.
A chegar no estacionamento, sua nave não estava mais lá. Não havia mais nave alguma. O local estava destruído. Ouviu vários passos cercando-o por trás e então sacou seu facão e virou-se, pronto para a luta.
Em torno dele, garotos tarrentianos sujos e de olhares tristonhos.
- Tem algo para comer, senhor? – Um deles pediu.
Atron relaxou. Ao ver aquele estado de miséria, não pode impedir as lágrimas de rolar. Mas ele não tinha nada além da peixeira e de roupas velhas.
Olhou em volta do lugar onde estava. Adiante das casas às escuras e edificações destruídas, uma mansão chamou-lhe a atenção. Bem iluminada e inteira.
- Quem vive ali, crianças? – Apontou.
Uma menina de olhos grandes e cabelos empastados respondeu:
- A prefeita, senhor.
Atron K-Rosam’vev suspirou. Olhou novamente a meia dúzia de crianças e então começou a subir a viela, decidido:
- Esperem aqui. Eu já volto. – Tornou a embainhar seu facão.
Bateu na porta trabalhada de dupla folha. Um tarrentiano com cara de poucos amigos, feio e de ar medíocre, atendeu e o mediu.
- Sou um mercador draki e gostaria de ter com a prefeita.
- Ela só recebe na prefeitura e em horário público. Amanhã pela manhã dirija-se ao edifício laranja na Praça Central e faça seu pedido de audiência.
E bateu a porta na cara de Atron, que não estava acostumado com tal tratamento. Com a paciência esgotada, ainda assim o igni controlou-se e sem fazer ruído contornou a mansão pelo jardim bem cuidado, item raro em Tevária.
Pode ver pelas vidraças das janelas ovais da face leste a sala de jantar. Ao que parecia, a prefeita e sua família já tinham jantado e havia muita sobra de comida à mesa. Atron pode perceber que não havia ninguém ali no momento e forçou a vidraça, que cedeu e abriu. Entrou silenciosamente e limpou todos os pratos e travessas, ainda com muitos alimentos, numa enorme baixela. Ia sair com a baixela quando foi supreendido por um soldado da milícia pública.
- Alto lá, mercador! Está invadindo a residência de sua autoridade, a prefeita de Tevária! Está preso! Fique onde está e coloque as mãos onde eu possa ver!
O soldado estava na janela. Devia estar patrulhando a mansão. Atrás de sua máscara, Atron sorriu. Ele sozinho já enfrentara hordas de zonoístas e não era um pobre militar tarrentiano que iria detê-lo. Mas não ia matá-lo, pois sabia que ele apenas cumpria seu dever.
Sabia também que a arma de raios laser que aquele soldado portava era limitada. Deixou a baixela na mesa e pegou uma travessa de alumínio reluzente com rapidez. Com ela refletiu a luz da sala de jantar na cara do pobre cabo, que disparou sem mirar. Atron fez com que o raio laser se refletisse na bandeja e voltasse no ombro do tarrentiano, que berrou e soltou a pequena pistola.
O igni correu até ele e o socou no queixo, colocando-o fora de ação. Tomou sua pequena arma e a examinou:
- Fraca, mas por hora servirá para uma defesa rápida.
Pegou a baixela cheia de comida, restos do jantar da prefeita, e saiu às pressas dali antes que alguém fosse checar o barulho.
Feliz, distribuiu a comida para os famintos, que devoraram o conteúdo da baixela em minutos.
Sabendo que estava preso em Tarrent até conseguir uma nave, voltou para a casa de Kim Kay-War. Pois não lhe ocorria ficar em qualquer outro lugar naquela noite fria, e não haveria meios de comunicar-se com sua irmã, no centro da Galáxia.

Três anos depois

Liany nunca encontrara Atron. No dia em que resolveu deixar Tirênia a procura do irmão que não voltara, fora capturada em Mégan por saqueadores piratas. Os fora-da-lei odiavam os lemânticos, que antigamente os caçavam pelo espaço, e assim executaram Liany, decapitando-a.
A sorte da igni foi que pouco antes uma dary também fora executada. Mas, assim como Atron perceberia depois, Liany não lembraria de todo o rito de transferência da alma, e seu espírito quase se perdeu.
Eles dispunham de apenas quinze minutos para a migração. Liany levou quase vinte. Já ia em direção à Luz, quando incorporou a dary, Arin Deris. Mas ela estava sem a cabeça, pois também fora decapitada. Contudo, o corpo receptor, que obrigatoriamente tem de estar morto e não pode estar em muito mau estado, regenera-se uma única vez ao receber a alma nova, seja de Atron ou Liany.
E assim, sem que os piratas vissem, a pobre dary arrastou-se até onde estava sua cabeça e a colocou no lugar. Então a pessoa que fora Arin Deris e agora era Liany, abriu os olhos e voltou a respirar.
A demora na troca de corpos fez com que boa parte da memória de Liany não fosse armazenada. Ela esqueceu-se da prisão de Zonos, de parte de sua missão e só sabia que podia trocar de corpo e fora uma rainha lemântica.
Mesmo assim, como uma dary de pele azul e olhos amarelos, recebendo parte do caráter e das memórias da Arin Deris original, Liany rolou para atrás das grandes caixas do saque e escondeu-se.
E escondeu-se mais tarde em uma das naves dos piratas, deixando Égon, sem mais lembrar-se de Tirênia, Martogh ou do teletransporte espiritual. Sem saber que ali começava uma busca por seu passado lemântico e o porquê de ter a habilidade de trocar de corpo e tornar-se quase imortal.

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